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A bela e o gigolo

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Olhei desconfiado e no display do smartphone, não foi o rosto dela a sorrir que surgiu a piscar, ao som da balada dos Rolling Stones que escolhi para ser o toque de chamada que adorava escutar quase até final quando alguém me ligava.

No exercício da minha profissão, acostumara-me a receber chamadas anónimas de clientes, que na ânsia de protegerem de um estranho a identidade, usavam nomes falsos, ligavam de números anónimos e até me pediam para ir buscá-los de carro, a moradas onde talvez para chegarem, saíam meia hora mais cedo de casa e apanhavam um autocarro ou dois, para não se cansarem tanto como se fossem a pé.

Rita A. apanhou-me bem-disposto. Ligou-me num sábado, um dia depois de ter estado com uma mulher muito mais velha, que pelos meus serviços de excelência resolveu brindar-me com uma quantia choruda expressa num cheque, pelo frete de tê-la acompanhado num jantar de gala num casino, do qual saímos cedo para casa dela, num bairro fino onde não era necessário que passassem, a qualquer hora do dia, autocarros ou táxis porque toda a gente era tão endinheirada que devia ter na garagem, no mínimo, dois carros.

Devem ser devidamente perspicazes e, por conseguinte, já devem ter percebido que vendo o meu corpo. Na verdade, dependendo do país onde me encontre, tanto posso ser um vulgar gigolo, como um garoto de programa ou acompanhante de luxo. No fundo, um prostituto, desses a quem não rala nada que digam que a prostituição é a profissão mais antiga do mundo, desde que, por causa de algumas rugas de expressão que vão aparecendo, não me confundam a idade e digam que pelos primórdios da atividade eu já cá andava.

De resto, acho isso um lugar-comum tão errado, como dizerem à boca cheia que só se prostitui quem não gosta de trabalhar ou anda em busca de dinheiro fácil. Aturar os fetiches mais improváveis da maioria dos clientes é tão desgastante e dá tanto trabalho, como tentar convencê-los a mudar de ideias ou a desejar quererem pô-las em prática mas com outra pessoa, que não eu.

Uma vez, recebi de um cliente regular que me procurava todos os meses, uma proposta de trabalho aliciante em termos financeiros, que consistia em, no mais curto espaço de tempo, seduzir-lhe o marido. Dos planos passei à prática e “acidentalmente” cruzei-me com ele. Meti conversa a pretexto de qualquer situação e durante uns dias fiz-lhe companhia no metropolitano a caminho do trabalho. Ao fim de quinze dias, mandava-lhe bouquets de flores para o emprego, acompanhados de um cartão perfumado com as iniciais do meu nome. E tudo para, no final descobrir, desiludido pelo esforço em vão, que fora enganado, já que o marido da minha cliente levava felicíssimo para casa as dúzias de rosas que lhe mandava de todas as cores, e entregava-as à mulher que as distribuía por tão grande número de jarras, que quem visse pensava que provinham dos amantes dela a competirem entre si para ver qual conseguia mais chamar-lhe a atenção.

Reconheci à primeira a voz cerimoniosa de Rita. Ângela nunca me ligava duas vezes no mesmo dia e, além delas, apenas Pilar tinha a voz nasalada parecida, mas a espanhola luso-descendente estava ausente, de férias há duas semanas, com a namorada professora de matemática na Holanda, que era o único país do mundo onde poderiam beijar-se em público, sem o risco de terem a rodeá-las homens a beliscarem-nas nas pernas, para garantirem que a cena que mais gostavam de ver não era mais uma fantasia das suas mentes depravadas.

Rita A. foi a minha primeira cliente em relação a quem tive de aplicar o plano de não me deixar apaixonar pelas que fossem mais bonitas. Era delicada, simpática e possuía imensos olhos brilhantes, que tanto podia ser de olhar com atenção para mim por apreciar o meu ar de menino, como para, quando eu falava, tentar ler nas entrelinhas aquilo que se queixava de eu não contar.

Não contava, por exemplo, que fizera sexo pela primeira vez aos dezoito, que me prostituía desde os dezanove e que agora, aos vinte e três, tinha razões para achar que era melhor amante do que a maioria dos homens da minha geração que começaram a ter relações mais cedo.

Conhecíamo-nos há cerca de dois anos e, logo nessa altura, deliciaram-me os seus traços de personalidade, o seu caráter generoso e a doçura dos seus gestos, com açúcar e mel a par de outros ingredientes, mas na quantidade certa para não serem prejudiciais à saúde.

Rita A. era casada há anos, com um engenheiro da construção civil emigrado em Angola, para onde, em troca de quanzas, se tinham deslocado empreiteiros de firmas portuguesas que de cá não levavam cartas de recomendação pela prestação de bons serviços. Parte deles, encerrara firmas devendo avultadas quantias em impostos e em faturas a fornecedores, que, a juntar aos vencimentos dos trabalhadores em atraso, daria para financiar a reconstrução de um país de menores dimensões que não tivesse assolado por uma guerra civil. Ocasionalmente ele vinha a Portugal durante umas semanas, mas nem nessas ocasiões Rita A. dispensava a minha companhia e sempre que a ocasião se proporcionava, lá combinávamos, numa tarde ela matar saudades de fazer amor sem ser no cumprimento do dever a estava obrigada por ser casada.

Soube de mim, através de pequenos anúncios pessoais, que eu me dava ao trabalho de publicar numa revista semanal, que mantem o formato dos livros de bolso, mas já nessa altura registava tiragens acima da média, num país onde, ao contrário do que se apregoa, não foram os reality shows televisivos os maiores culpados do atual apego das pessoas à coscuvilhice.

Marcámos encontro pela primeira vez, no bar de um hotel com vista para o mar em Cascais, que estava revolto como se pressentisse o meu estado de alma. Relembro o vestido florido de tule que lhe modelava o corpo como ao manequim na montra de uma loja de artigos exclusivos, à porta da qual eu hesitava em entrar receoso de não ganhar o suficiente para poder comprar-lhe um presente. E o mesmo acontecia com os sapatos vermelhos em pele, de salto bicudo que lhe conferiam de baixo para cima, a amplitude daquelas mulheres de sonho, que quando abordamos nunca sabemos se, antes de lhes dirigirmos a palavra, não deveríamos começar por fazer uma curta vénia.

Casou muito jovem, com a idade de quem entra tardiamente na Faculdade, porque repetiu de ano diversas vezes no Secundário. Nunca descortinei por que motivo ao invés de mim, não procurou um amante, talvez casado, que fizesse refletir ao fim do mês, menos gastos na carteira que ultimamente não devia andar muito recheada. Não dei mais conta que estreasse sequer uma lingerie nova, quando recentemente se deitava comigo e não tirava os sapatos talvez pensando que eu pudesse descobrir que tinha as meias rotas. Eram as chamadas de vidro e adorava retirar-lhas lentamente, sem ter a noção de que o tempo passava depressa e antes de dar conta, de tanta ansiedade já tinha a vagina lubrificada e pronta a receber-me.

Uma ou outra vez me pediu que dispensasse estes preliminares e a fizesse urgentemente esquecer os dias passados sem nos vermos. Devo ter por essa altura refletido acerca do que significava ela vir assumindo na minha vida um papel cada vez mais importante, como o de protagonista num romance que só acabaria bem para o meu lado se tivesse a coroá-lo um final feliz.

Amava-a nessas ocasiões, com o aprumo devido próprio de quem para obter o que deseja não precisa de usar a força. De barriga para baixo, deitava-me delicadamente sobre ela e esfregávamos os sexos, com a suavidade de uma pena que usada por ela, das plantas dos pés aos sovacos, o meu corpo inteiro encheria de cócegas e faria desatar a rir. Por fim, cingia-lhe a cintura com as palmas das mãos apertadas e parava só para ouvi-la gemer, como se, com aquela que a custo me deixava tirar, conseguisse mexer-lhe num sítio mais abaixo.

Nem eu era nesses dias o prostituto que nos anúncios alardeava uma potência sexual desmedida, mas sim um homem apaixonado; nem Rita A. era a mulher casada que representava para mim um fruto proibido. Estou ciente de que à luz dos factos, o amante era eu, mas melhor vistas as coisas, menos legitimidade tinha o marido para amá-la. Nunca foi comigo que ela alguma vez se deitou e abandonou ao prazer, a desejar ver as horas passarem depressa para ir fazer amor junto do homem que de verdade a amava.

 

1 Comment

1 Comment

  1. isabel ribas

    03/10/2017 at 12:43

    Que tema controverso…mas real.As pessoas procuram a felicidade de mil e uma maneiras e possivelmente esta é uma delas.
    Gostei mais uma vez do tema arrojado e da escrita que sempre me agrada.Parabéns

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