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A RTP e o que dela dizem

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Certo de que cada pessoa tem direito à sua opinião, todos os outros têm o direito de discordar. E, algumas pessoas, pela função que ocupam, deviam repensar, em minha opinião, aquilo que dizem.

Acredito que, para quem é, de formação, jornalista, a afirmação “a televisão pública não devia ter telenovelas” faça sentido. Mas se a mesma pessoa é membro do conselho de opinião da RTP e está a referir-se ao horário nobre do canal 1 da estação pública, devia saber que a única telenovela desse canal passa depois do Jornal da Tarde e chama-se Os Nossos Dias. Devia também saber que o horário nobre da RTP1, depois do Telejornal, tem uma série de ficção chamada Bem Vindos a Beirais, com muita audiência, o que justifica a sua permanência naquele horário. Depois dessa série existe uma outra, entretanto cancelada (portanto, a exibir os últimos episódios), chamada Água de Mar. Já uma pessoa com formação em jornalismo deve saber que futebol ou informação futebolística é informação. E que é informação do interesse público e muito apreciada pelos telespectadores. Fazendo essa pessoa parte do conselho de opinião da RTP que, segundo o seu presidente, existe na empresa como representante dos telespectadores e ouvintes da televisão e rádio pública, não faz sentido defender que programas que estão no ar porque têm audiência, porque as pessoas vêem e/ou ouvem, não fazem sentido, mesmo estando apenas a falar como cidadã e não como membro daquele conselho. Porque assim, a meu ver, dá a ideia que os membros do referido conselho estão não para representar quem quer que seja, mas para dar a sua opinião particular.

E isto vem a propósito do programa Voz do Cidadão desta manhã. Este curto programa, da responsabilidade do Provedor do Telespectador, abordou a informação da RTP, em especial a alegada sobreposição entre programas no horário nobre. Eu sigo, sempre que posso, a série Bem Vindos a Beirais. E, na esmagadora maioria das vezes, a mesma começa por volta das 21h, mais minuto, menos minuto, pelo que não entendo como alguém (como um telespectador que falou nesse programa) pode argumentar que, sistematicamente, o Jornal 2 do segundo canal da RTP começa (às 21h) quando o Telejornal no primeiro canal ainda não acabou. Assim como não consigo compreender que alguém pense que uma redacção única (e funcional) para todos os canais de televisão e rádio prejudica a qualidade de um determinado canal. Antes pelo contrário. Não só é mais eficiente do ponto de vista económico (do controlo de custos), como põe toda a qualidade da informação da estação pública ao serviço de todos os canais. E, mesmo sendo a informação da RTP uma equipa única e unida, o Telejornal é preparado pela redacção de Lisboa, enquanto o Jornal 2 é preparado pela redacção do Porto (no centro de produção em Gaia, a quem compete a coordenação da RTP 2), embora partilhem muitas das peças. Penso que estranho seria, uma completa desadequação de meios, se pusessem equipas diferentes a cobrir a mesma notícia, pela simples razão de serem de canais diferentes da mesma empresa.

Fruto da reestruturação do serviço público de rádio e televisão e (consequentemente) da RTP, a empresa vai apenas financiar-se da taxa de audiovisual que todos pagamos e com receitas próprias. Ora, sendo do senso comum que os anunciantes (quem paga pela publicidade) paga mais consoante os índices de audiências,  sugestões como as que ouvi de tirar conteúdos com muita audiência para colocar outros conteúdos que existiram na grelha e saíram por algum motivo (vou supor, por falta de audiência), seria convidar a empresa ao prejuízo. Sendo uma empresa pública, seria convidar-nos todos ao prejuízo. Não digo que certos conteúdos não devam estar na grelha do serviço público de televisão e rádio só porque não são tão lucrativos, mas substituí-los por outros que são claramente apreciados pelo público (basta ver pelas audiências), parece-me um “tiro no pé”. Ainda para mais porque a RTP disponibiliza online quase todos os programas que emite (com ressalva para aqueles para os quais não tem direitos para o fazer) na sua plataforma online RTP Play, que permite a qualquer pessoa (numa altura em que a internet, seja nos computadores, telemóveis ou tablet, se encontra bastante enraizada um pouco por todo o país) aceder aos conteúdos a qualquer altura, o que permite que esses conteúdos sejam emitidos a outra hora.

Numa última nota, é referido pelo provedor no final do referido programa que tem recebido muitos protestos contra a interrupção da exibição da série El Principe, facto que ocorreu, segundo o mesmo, porque a segunda temporada está ainda em fase de produção e a estação pública está a negociar os direitos da mesma para a exibir, assim que os episódios estejam disponíveis. Uma simples pesquisa no Google leva-nos ao site oficial da série no canal espanhol Telecinco, em que é visivel um video com o título “Próximamente la segunda temporada, en Telecinco”. Essa simples pesquisa teria sido útil para que quem enviou os protestos tivesse percebido que se a série não está em exibição no canal original, não poderia estar em exibição na RTP.

 

Crónica de João Cerveira

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