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O que é, afinal, a “Dark Web”?

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A internet veio trazer-nos um maravilhoso mundo novo onde tudo é possível e está acessível a poucos cliques de distância. Quer rever os desenhos animados que marcaram a sua infância? A internet tem as imagens, o nome dos actores que faziam as vozes, entrevistas dos mesmos ao longo dos anos e curiosidades que nunca pensou vir a saber um dia. Teorias da conspiração? Existem aos milhares na internet: das mais credíveis às totalmente delirantes. Mas isto é a internet que conhecemos, que está visível e acessível. Então e a “Dark Web”? Qualquer bom livro/filme de acção e espionagem faz referência à “Dark Web”. Dizem que é um meio fechado, de difícil acesso e onde se reúnem os piores seres humanos que existem. Ladrões, barões da droga, depravados em busca de pornografia infantil, terroristas, supostamente estão todos lá. Mas será que é mesmo assim? É que isso que vamos tentar perceber em mais uma edição do “Desnecessariamente Complicado”.

Antes de mais é necessário uma nota prévia: eu não sou nenhum perito neste tema. Aliás, não sou sequer especialista em internet, informática, redes sociais ou “dark web”. Sou, isso sim, um curioso sempre em busca de mais e melhor e que pesquisou muito sobre este tema para poder escrever esta crónica. Desde sempre que ouço e leio sobre “dark web” mas nunca tinha pesquisado aprofundadamente sobre ela. Até que esta semana me decidi a tentar perceber, verdadeiramente, o que é e como funciona.

Dark web

Estão preparados para verem cair um dos maiores mitos de sempre? Então cá vai: a “dark web” não é como nos contaram que era. Ou melhor, não é só como nos contaram que era. Sim, tem um lado mau, obscuro e profundamente ilegal. Mas também tem um outro lado que todos parecem ignorar. Mas porque será esse outro lado tão pouco abordado? A resposta é mais simples do que podem pensar: porque muito poucas pessoas lá foram. E se poucas pessoas lá foram torna-se difícil saber, de forma exacta, o que lá se encontra. É tão lógico quanto isto.

Um jornalista americano realizou um trabalho de investigação sobre este tema e ousou ir até onde nenhum outro jornalista tinha ido: à própria “dark web”. E o primeiro facto que ele descobriu foi o real tamanho do “lado negro da internet”. Ora a internet “real” tem cerca de mil milhões de sites. Exacto, mil milhões…de sites! A “dark web” tem apenas….7000 a 30000 sites. O seu verdadeiro número não é certo, mas estima-se que não serão mais que os citados acima. Portanto estamos a falar de 0.03 por cento da internet “real”. E aqui cai mais um mito. É que outro dos supostos “factos” que a imprensa sempre difundiu foi a sua dimensão. Sempre nos foi dito que a “dark web” era muitas vezes maior que a internet “real”. Afinal, não é bem assim.

Depois, quanto aos ladrões, barões da droga e afins…existem, claro que existem. Mas não na quantidade, e perversidade, que sempre se disse. Se pensarem bem chegam rapidamente à seguinte conclusão: tudo isso já existe na internet a que acedemos todos os dias. Pode estar mais escondido, e o acesso ser mais difícil, mas já existe. Quem oferece, e procura, esse tipo de serviços e esquemas não necessita de usar o anonimato do “lado negro”. E isto aplica-se a tudo: barões da droga, esquemas para roubar dados e informações confidenciais, estratégias para roubar dinheiro a incautos internautas, procura e oferta de pornografia (especialmente pornografia infantil) ou mesmo terrorismo. Ou seja, afinal aquele lado da internet não é tão “negro” quanto nos fizeram crer que era.

Mas se todas essas ilegalidades existem porque é que os sites não são fechados? Porque quando se consegue fechar um abrem de seguida três ou quatro novos. Ou seja, é um constante jogo do “gato e do rato” em que os “polícias” nunca conseguirão ser tão rápidos e eficientes quanto os “ladrões”.

Concentremo-nos, por exemplo, na pornografia infantil. É deplorável, nojenta e tão criticável que nem sequer vale a pena explicar o “porquê” de ser crime. Em 2014 a Internet Watch Foundation (uma instituição de caridade que reúne sites de pornografia infantil e que tenta aplicar a lei) encontrou 31.266 sites que continham imagens de pornografia infantil. Desses sites apenas 51, ou seja 0,2%, estavam hospedados na “dark web”.

A derradeira prova de que as autoridades não estão afastadas desta realidade é o facto de mais de 300 pessoas ligadas à “dark web” terem sido detidas desde 2011. Segundo os dados conhecidos, dealers de drogas e armas, pessoas que encomendam narcóticos ilegais e diversos funcionários e administradores deste tipo de sites foram identificados e presos pela polícia. No entanto estes números devem ser considerados como estando muito abaixo dos números reais dado que a maioria das investigações (e respectivas prisões) não é pública.

Outro mito que cai prende-se com a dificuldade em aceder a esses conteúdos. Esta autêntica realidade alternativa sempre foi “pintada” como inacessível e fortemente vigiada por hackers profissionais e implacáveis. Claro que existe um controlo (são incontáveis os hackers profissionais que por lá se “passeiam”), mas o acesso é mais fácil do que nos contaram. Tentar lá chegar é sempre um risco (que pode ter consequências muito graves) e a missão pode nem sequer ser bem-sucedida, mas com algumas pesquisas e algum apoio profissional é perfeitamente exequível.

dark web

Segundo a investigação do referido jornalista americano a “dark web” também tem um lado bom. Nesse lado constam, por exemplo, sites de cidadãos de países onde a democracia ainda não chegou. Sejam da Ásia, de África ou da América do Sul essas pessoas aproveitam o anonimato da “dark web” para transmitirem informações, dados e notícias dos seus países. Tentam que a realidade chegue até nós sem os filtros impostos pelos respectivos governos. E o esforço, e dedicação, destas pessoas em prol da democracia e da liberdade de expressão são assinaláveis. Até porque existe sempre o risco de o anonimato ser quebrado e serem identificados e punidos pelas respectivas autoridades.

No lado bom existem também, por exemplo, fóruns onde impera a liberdade a todos os níveis e onde existe um verdadeiro respeito. “Mas já existem fóruns na internet real!”. Pois existem, mas estão cheios de pessoas que criticam tudo e todos sem qualquer noção do mundo em que vivem. Segundo o jornalista na “dark web” existe um verdadeiro respeito pelos “pares”. Afinal de contas não se sabe quem pode estar do outro lado. E se for um hacker profissional? E se for um polícia infiltrado, tentando descobrir informações preciosas sobre actos ilegais? E se for um pervertido disposto a tudo para satisfazer os seus impulsos? Pois, o melhor mesmo é ter respeito e manter a distância, não vá a “dark web” pregar uma rasteira.

A conclusão da investigação do jornalista norte-americano é de que o “lado negro da internet” é quase que o oposto daquilo que sempre nos disseram que era. Embora reconheça que tem prós e contra defende-o ao máximo, tentando sempre mostrar o seu “lado bom”.

Na minha, modesta e humilde, opinião a realidade estará algures no meio. Não é tudo mau, mas também não é tão bom quanto parece. É um meio perigoso, repleto de pessoas dispostas a tudo para conseguirem o que procuram e sem medo das consequências. Mas todo o mistério que foi sendo feito em seu redor levou à curiosidade global. Num mundo onde tudo está à distância de um clique torna-se difícil compreender como é possível haver algo que desconhecemos por completo.

Agora que já falámos a sério pode voltar aos vídeos hilariantes de quedas e acidentes e aos vídeos fofinhos de gatinhos e cãezinhos. Afinal de contas foi para isso que a internet foi inventada, não foi?

Boa semana.
Boas leituras.

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