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All that Jazz

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As luzes néon iluminam a sua tristonha face, encostada ao vidro do já rotinado táxi amarelo que dança pelas grandes avenidas da cidade, numa valsa que sabe de cor. Os seus sensíveis olhos, marcados pelas lágrimas que a acompanharam nesta viagem, reagem às luzes da cidade. Fugindo ao seu desbotado passado, ela está em Nova Iorque, o seu eterno escape, o seu refúgio, o seu abraço.

O emudecido céu antecipa uma faminta chuva de beijos molhados, quando ela avista o velho anúncio luminoso onde algumas das letras piscam, anunciando o final de vida. Chegou ao seu destino. Tentando escapar às grandes gotas que se fazem anunciar, ela corre até ao famoso toldo vermelho, que até então conhecia apenas em fotografia, em busca de abrigo e da sua vez para entrar no mais famoso clube de Jazz de Nova Iorque.

Assim que surge a oportunidade, é convidada a percorrer um duvidoso corredor pautado por degraus côncavos pelos milhares de pés que por ali trilharam, até entrar num pequeno bar, onde as paredes são cobertas por quentes recordações, de vinil de melodia inaudível. Vermelho, meia-luz, Jazz. A sua doce e quebrada alma é embebida pelo ambiente, tudo parece mágico.

Reservada para si está uma pequena mesa redonda junto ao palco, cujas velhas marcas se revelam como assinaturas de todos aqueles que por ali já se deleitaram com um bom espectáculo. O antigo sofá vermelho junto à parede será o seu poiso para esta noite. É incrível como ela sente que sempre conheceu este lugar.

O saxofone cintila no velho e cansado palco do The Village Vanguard, juntamente com o seu sempre amado contrabaixo, que lhe beija o ouvido faminto. Toda a música que a envolve declama um rol de palavras mudas, brande no seu peito. Ela fecha os olhos, embalando a sua mente numa excitante viagem de descoberta de sons que só a sua alma sabe decifrar.

Nada é eterno, nem mesmo a música. A sua mente silencia-se assim que a harmonia pára e os seus olhos abrem-se, sendo prontamente acariciados por um verde faiscante, junto ao longo balcão sob a penumbra. São jades pousados sobre si, deslindando o mais profundo da sua alma. Ela sente-se nua, à mercê da sua curiosidade. Várias mesas os separam, mas olham-se com a intensidade de quem está lado a lado.

Mesmo num ambiente de luz temperada, onde facilmente a sua visão o poderia enganar, ele sabe que ela cora. Os seus lábios unem-se numa linha fina de veludo, apetecível ao mais comum dos mortais.

Qual será o seu sabor?

A sua sedutora essência convida a uma ousadia de pensamento nunca antes experimentada por ela perante um desconhecido, mas as finas linhas que lhe moldam a expressão dão-lhe um magnético charme.

Relutantemente, ela tenta refrear os seus pensamentos, neste momento íntimo e inquietante. Afinal, foi este tipo de enlevo que a colocou no seu melancólico estado de espírito e que a guiou até Nova Iorque. A sua sublime expressão muda. Ele sabe que, a qualquer momento, aquela bela mulher, de longos e selvagens cabelos escuros, irá voltar-se novamente para o palco, deixando no seu semblante uma ténue expressão de desilusão.

O tempo esvoaça e o espectáculo finda. Os músicos arrumam os seus instrumentos nos respectivos cofres, como se fossem adormecer os seus rebentos no berço. Ela olha-o, mas para seu desencanto, não é mais o seu centro de atenções. Animadamente, ele conversa com os seus companheiros de mesa, enquanto terminam mais uma bebida.

À saída, ela nota que as nuvens descarregaram toda a sua fúria, dando agora lugar a cintilantes estrelas e a uma tímida lua. Já não chove, mas o chão ainda não conseguiu abraçar toda a água que o tentou submergir, criando pequenos espelhos, onde as luzes dos carros que passam se vão reflectindo.

Esguios dedos roçam o fundo das suas costas, fazendo-a suster a respiração. Ele está a seu lado, de sorriso pintado nos lábios, onde cucam os seus dentes perfeitamente alinhados como teclas de piano. Como ela gostaria de os tocar. Os fios de prata do seu curto cabelo reagem às luzes da cidade, mas são os seus verdes olhos os protagonistas da obra-prima de expressão amena e calmante. Ela cerra o punho, proibindo a sua mão de saborear a sua torneada face deliciosamente barbeada. Consigo, ele traz um florido lenço. O seu lenço. As suas masculinas mãos elevam-se, bailando em volta do seu arrepiado pescoço, procurando devolver-lhe o que havia esquecido no sofá. Mas ela não sabe dançar esta dança, limita-se a observar a sua fluidez de movimento, enquanto a sua inebriante colónia a invade.

Um sumptuoso carro pára junto ao passeio, desviando a sua atenção. O motorista impecavelmente vestido abre a porta traseira, acenando de forma subtil para o senhor a seu lado. Ele olha-a, fazendo-lhe um convite onde as palavras não são necessárias. A sua mente dispara, gritando-lhe palavras ferozes sobre o que pondera fazer, mas é tarde demais. O seu corpo ganha vida e ela segue ao sabor do vento.

Já lado a lado, o escuro Mercedes parte em direcção às luzes da cidade que nunca dorme.

The end

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