Últimas Crónicas

Avenida Francisco Buarque de Hollanda, caixa postal do Brasil

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Grande, mas tão grande, tão grande, que não caberia numa crónica nem que ela tivesse dez páginas, e nem que tivesse sido escrita por um articulista laureado a nível internacional com um prémio Nobel da literatura.

Refiro-me obviamente a Chico Buarque, músico, poeta, dramaturgo e escritor, de quem, a propósito dos êxitos que enquanto músico compôs, não chegaria para contar num livro que tivesse mais de quatrocentas e tal páginas, e nem que o tivesse escrito um romancista com um elevadíssimo poder de síntese.

O músico e cantor é desde a minha infância, um autêntico declamador de canções ou não fosse ele próprio um poeta daquilo que canta, dos mais profícuos da Língua Portuguesa, tão rica em adjetivos que ajudam a caracterizá-lo, com novas palavras que foram adotadas e naturalmente não são do agrado de todos, mas outras mais antigas, como criativo e extraordinariamente original, que nunca, nem à luz de um novo Acordo Ortográfico, hão-de algum dia querer dizer o contrário.

Chico Buarque tem uma veia criativa por onde corre o volume máximo de sangue que é possível fazer chegar ao cérebro para ter ideias originais. Seja para fazer a Letra que ilustra um novo tema, ou sobre como gostaria que tivesse corrido a vida ao irmão alemão na vida real, para ainda tê-lo encontrado vivo, quando no intuito de pesquisar para um novo livro, se deslocou com uma das filhas à Alemanha.

Este carioca de gema de mais de setenta anos, mantém-se vivo nos corações, no baço e no fígado de quem gosta da sua música e, com o mesmo espírito crítico, de tudo o que escreve, mas também está presente no peito através do ar que oxigena os pulmões, levando a nossa energia aos músculos que movimentam o corpo.

Ao longo da carreira, já fez sambas, sambas-canção, valsas, modinhas e variadíssimas composições, que daqui a décadas os estudiosos ainda hão-de catalogar como estando muitos anos à frente do seu tempo em termos melódicos.

Infelizmente, não se tem ficado pelas tentativas, o esforço de alguns canais de rádio e televisão, no sentido de deixar cair no esquecimento um género de Música Popular Brasileira, que antigamente se ouvia sem nos apercebermos de que era fictício o mundo do faz-de-conta em que o vento nunca soprava forte e o céu nos espreitava sempre azul. Têm-se ouvido poucas das músicas representativas dessa época, dando a conhecer outras de gosto duvidoso, como se, na opinião dos produtores dos programas, aos percursores da MPB não tivessem sucedido outros artistas que merecesse a pena o público ter continuado a ouvir.

Ao som de uma toada, cujo pai e mãe foi a lógica de criar boas canções, muitos pares de namorados casaram, educaram os filhos numa lógica de boas ações, e muitos maridos chegaram mais cedo a casa, para, ao ritmo a que o disco girasse no prato da aparelhagem que levavam para o quarto, dançarem com as suas mulheres, na perspetiva de que aquela dança poderia ser a derradeira e, por isso, havia que aproveitar.

Quando transpuser a barreira física e largar a nossa companhia, acho que os políticos podiam e deviam homenageá-lo, atribuindo o nome a uma rua, avenida ou praça, com base na lenda em torno da sua carismática figura, de que Francisco Buarque de Hollanda era um músico que virou estrela e foi ocupar no céu um lugar onde só entra quem tem verdadeiramente alma de artista.

 

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