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Bóbi, busca! – Joana Camacho

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Sempre nutri uma grande admiração por aqueles donos que conseguem ensinar os cães a irem buscar coisas que eles próprios (os donos) atiram. Uma vez tentei ensinar o meu cão a fazer o mesmo, mas a coisa não correu bem. Felizmente ou infelizmente, a criatura tem um feitio que é tal e qual o meu:

– O quê?! Ir buscar coisas que foste TU a atirar? Não vás lá, para quê! Ai a minha vida! Levanta mas é o rabo do sofá, ó gordo! Faz-te à vida!

Eu até percebo o ponto de vista do meu cão; sim, porque – se eu estivesse na sua posição – também não ia. Era o que mais faltava. Não foste tu que atiraste a bola? Pois. Então vai lá buscar!

A sociedade contemporânea olha para os cães como os nossos antepassados olhavam para o comércio de escravos africanos. De uma forma, até, um tanto sádica. Não há nada de inocente no ato de atirar uma bola para muito longe, com o intuito de posteriormente obrigarmos um outro alguém a ir buscá-la por nós. E o mais grave é que as pessoas encaram esta atividade como um momento de divertimento familiar; é daquelas coisas que entra naqueles grandes álbuns de família, que as nossas tias nos mostram de cada vez que vamos lá a casa almoçar.

Voltando à analogia do comércio de escravos, vejamos o lado positivo: ao menos os cães entram nos álbuns de fotografias, não é? Já os escravos africanos… pois. Ora então não se queixem, cães! Ao menos são escravos com privilégios. E, com sorte, o vosso dono até vos oferece biscoitos. Qual é o escravo africano que se pode orgulhar de já ter recebido um biscoito, e de o terem chamado de “lindo menino”?

Outra coisa que nunca entendi nos cães, é a forma como marcam o território. Sim, eu entendo que queiram mostrar a toda a gente que determinado sítio lhes pertence, mas porquê aquele típico ritual: cheirar, levantar a pata, fazer chichi, cheirar de novo e ir embora? Porque não: espalhar migalhas de pão pelo sítio a marcar, ao estilo de Hansel e Gretel? Ou deixar lá uma bandeirola branca, como fazem aqueles alpinistas que sobem a montanhas muito altas? Sempre era mais higiénico. Fica aqui a sugestão, ao universo canino que me lê.

Então e aquelas pessoas que compram roupa para os cães e andam com eles pela rua como se estivessem a desfilar num cortejo alegórico? Ainda há dias me deparei com um Chihuahua que empregava um vestido cor-de-rosa com folhos. Se se tratasse de um individuo do sexo feminino: tudo bem. Se bem que continuava a ser trágico e simplesmente errado. Mas o animal tinha pilinha! Isto é um atentado à sexualidade daquele cão. Que fêmea é que quer praticar rituais de acasalamento com um macho de vestido cor-de-rosa? Nenhuma Chihuahua-fêmea está disposta a estabelecer matrimónio com um Chihuahua-bicha para, anos depois, o apanhar na cama com outro Chihuahua-bicha com um laço amarelo nas orelhas. E é assim que surgem as chihuahuódepressões.

Trágico: deveras trágico.

Caras pessoas que me leem: caso, por alguma razão, tencionem subornar a autora deste texto, permitam-me que vos deixe uma sugestão… chocolates. Montes e montes deles.

JoanaCamachoLogoCrónica de Joana Camacho
A parva lá de casa

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