Últimas Crónicas

Carla

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Chamei-lhe simplesmente Carla, à falta de imaginação para pensar noutro nome que melhor associasse à imagem de uma mulher de sonho.

Carla é o exemplo acabado de uma mulher que vale pelo que traz à vista, pois não há nada nela que eu não quisesse ter para mim. Os lábios em concha são carnudos como a casca de um fruto que gostamos de sugar; os olhos pequenos como azeitoninhas brilham como estrelas próximas da nossa galáxia; e as feições rosadas seriam o reflexo de estar sempre a lembrar -lhe que nenhuma dessas coisas me podia causar melhor impressão no dia em que nos conhecêssemos.

Mas Carla é ainda uma mulher sem fundo por dentro, quando buscamos dentro de si aquilo que verdadeiramente nos atrai. É inteligente e por isso refuta sugestões no sentido de dizer aquilo que não pensa; é sensível, por isso não lhe peçam para se arrepender das vezes em que chorou no cinema, assistindo às cenas românticas nos filmes em que sonhava ser ela a estar no lugar da atriz que abraçava o galã, arrastando-o com força como se desejasse sair dali com ele para um lugar mais reservado, onde tivessem menos gente a presenciar o que faziam; e é meiga, na medida em que, aos nossos beijos trocados às escondidas, ela reservaria um lugar especial no coração, de onde só sairiam para eu comprovar que os não podia ter deixado em melhores mãos.

Encontrai-a pela primeira vez no outro dia, na praia da foz do rio Lizandro, nas redondezas da Ericeira, para onde gostava de ir nos finais de tarde soalheiros em que, da praia, regressava a casa tranquilo com a sensação de ter estado num SPA a ser massajado nas costas pela vendedora das Bolas de Berlim, que treinava diariamente a enfiar as mãos na massa da qual, mercê da sua sabedoria, saíam verdadeiras obras de arte recheadas de creme.

Carla estava na zona das espreguiçadeiras reservada a um par de casais que, de mão dada e em silêncio, observavam na linha do horizonte de onde ao homem talvez viesse a inspiração para escrever à sua amada uns versos. Carla aparentava ter a idade de uma mulher de quem é apropriado dizer que tem a vida pela frente. Era jovem e tão bonita que a confundi com uma miragem, que podia ser sintoma de estar há demasiado tempo deitado ao sol sem beber água.

Esfreguei os olhos como se tivesse despertado de uma sesta reconfortante, mas sem vontade de voltar a dormir, porque a realidade se me afigurava agora mais apetecível do que um sonho. Carla estava sentada na borda da espreguiçadeira, de olhar colado numa revista de moda estrangeira que certamente já devia seguir e recomendar aos seus leitores a tendência ditada por ela. Vestida de biquíni cor-de-rosa, às escuras bastar-lhe-ia seguir o cheiro para pensarmos estar num jardim onde às fragrâncias se vinha juntar a mulher para quem foi cuidadosamente plantado.

Fumava uma cigarrilha prateada e inspirava profundamente o fumo, que soprava na direção do céu azul onde não havia nuvem de trovoada a anunciar qualquer tempestade que me fizesse naquele momento abandonar o local. Pousei as minhas coisas, mas não estendi a toalha, de modo a não achar estranho eu permanecer de pé, quem achasse que eu só tinha ali para apanhar banhos de sol.

Observei-a, prudentemente, como alguém que não sabe para que lado se virar, ciente de que teria mais a ganhar se ela me visse de perfil do que de frente, por causa do aspeto das orelhas. Antes de poder pensar no próximo passo a dar, vi-a levantar-se e caminhar na direção do mar, que no movimento constante das marés levava para longe umas ondas e trazia outras, com vagas lembranças das praias, das pessoas que tinham banhado e dos oceanos que tinham percorrido até ali chegarem.

Mais do que a paisagem luxuriante em volta, composta de dunas que me pareciam pertencer à área protegida de um parque natural de grande importância, seduziu-me à vista o corpo dela, propício a deitá-lo na areia fina, ainda mais branca do que o lençol de algodão com que não cederia à tentação de ocultar o corpo quando me surpreendesse a admirá-lo em cima da minha cama. Era escultural. Bem definido demais para um namorado que fosse menos instruído em anatomia e tivesse dificuldade em perceber onde ela queria que ele lhe tocasse ao pedir para ser massajada na região dos quadris ou abaixo da cervical.

O suor escorria-me nas costas como água de uma cascata em que me sentia afundar-me perante tamanha grandiosidade. Tinha a estatura de uma mulher a que eu para chegar precisava de me elevar a uma altura tal que quando me visse, não enxergasse nenhum dos meus defeitos.

O cabelo era escorrido com madeixas que tanto deviam ser castanhas como ruivas, dependendo da hora do dia a que o sol com maior ou menor intensidade incidisse nelas, realçando o brilho natural da raiz às pontas que não estavam espigadas. O recorte do peito era o lugar onde eu menos tempo demoraria o olhar à procura de um defeito. Era não muito grande mas firme e de uma verticalidade que eu desafiava a igualar, quem se gabava de uma grande justeza de caráter.

Carla era cabeça aos pés uma mulher de sonho, capaz de elevar à categoria de herói, o homem que ousasse e conseguisse conquistá-la. Por mim, fiquei parado a contemplá-la, com o desembaraço de uma sereia, a entrar no mar até, de água pela cintura, dar um mergulho que por breves instantes a devolveu à companhia do rei dos oceanos, Neptuno, que habitava as profundezas.

Pus-lhe o nome de Carla e sussurrei-o entre dentes, muito baixinho para que não mo ouvisse pronunciar e pensasse que, revelando falta de educação, na sua frente me estava a dirigir a outra mulher.

Vi-a uma outra vez em que estava vestida. Foi no inverno e calçava umas botas que lhe imprimiam a passada de um gigante numa terra que não era a dos liliputianos, onde a quem quisesse ser grande, bastaria recuar à infância e acreditar que podia fazer parte da história.

 

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