Últimas Crónicas

Carta aberta a uma mulher

loading...

Cruzámo-nos numa dessas circunstâncias da vida que preferiria ter evitado: no velório de um amigo que por coincidência era meu cunhado.

Aconteceu recentemente na Igreja onde estavam a velar-lhe o corpo, e embora ele se chamasse Carlos, há-de ser sempre por saudoso Carlos que hei-de referir-me a ele, quando for descrever a alguém como deve comportar-se uma pessoa íntegra e não me estiver a lembrar dos termos apropriados em que deva fazê-lo.

Observei-a de longe, e vim a saber que se chamava Joana, conversando num grupo de pessoas que ainda não podia considerar minhas amigas, porque antes disso teria de conhecê-la para ela mas poder depois apresentar uma a uma. Pelas minhas contas, devia rondar na faixa etária das pessoas felizes à beira de completar bodas de prata ao lado de uma pessoa com quem ainda viveria pelo menos o dobro do tempo.

Magra de média estatura, tinha a compleição física de uma antiga atleta de alta competição, que mantinha a rotina de praticar desporto regularmente. Na pele esticada, onde aos primeiros sinais de velhice, o fragor da juventude haveria de ceder lugar às rugas, chamou-me a atenção, esta ser tão branca como um par de lençóis acabados de pôr numa cama feito de fresco.

Na boca, serpenteavam palavras que pareciam desconexas se não viessem acompanhadas de um gesto e julgando entender o que ela dizia àquela distância, desatava a imaginar as respostas que daria às perguntas que me faria dali a dez minutos.

Apraz-me no olhar de certas pessoas, essa calma que é um passo dado no sentido de prolongarem a vida. O que melhor Joana sabia a respeito dos outros, era a opinião que elas detinham a seu respeito: entre outras coisas, que era elegante e totalmente desprovida de sentido a afirmação machista de que não podia uma mulher ser bonita e inteligente ao mesmo tempo; que era simpática e isso não retirava razão a quem achava que nem era essa a sua principal qualidade; e finalmente que é generosa e que com generosidade rimam todas as palavras que no dicionário representam o oposto do que é ser indelicado.

Joana tem os olhos da cor em que eu acho que passam a ver o mundo, as pessoas a quem alguém vem dizer que se ama. São azuis e focando neles é que percebemos de onde nasceu a teoria de que não é afinal o sol a estrela mais reluzente do universo. No cabelo ondulado, vejo-a passar a mão para desenvencilhá-lo de alguma ponta espigada e é tão denso que só deve perder volume quando sai do duche com ele ainda molhado.

Dá-lhe o ar sedutor de uma amazona, as calças que traz enfiadas numas botas castanhas de cano alto, que as cavaleiras da tribo gostariam de imitar por ser, de entre todas, a de postura mais aproximada à de uma líder.

Aproximei-me dela, tentando fixar-me num sítio do qual me pudesse ver por inteiro, para poder tirar sobre mim, ilações como eu fizera a seu respeito. Parei a alguns metros e era enorme o charme em que, como eu, devem ter reparado as outras pessoas que se deslocaram àquele lugar nunca pensando que iam deparar-se com algo que as enchesse de alegria.

Falava das filhas e creio que olhava, de vez em quando em redor, à procura delas para virem testemunhar que tudo o que afirmara era verdade. Às calças e ao para de botas, juntara um colete e parecia agora uma mulher resoluta, indiferente ao facto de que não estivessem como eu, mas pessoas nesse momento a olhar para ela, à espera da oportunidade de elogiá-la.

Reparei que tinha dedos finos e longos como os de uma pianista, e que na pele não necessitava de nenhum cuidado extra para ter as mãos bonitas. Apreciei a sua elegância e ao olhar dei a atenção que devemos dedicar à passagem de um cometa. Conclui que era profundo e insondável, como são os mistérios por detrás da ocorrência daquele ou outro qualquer fenómeno de natureza astronómica.

Tive apenas tempo de cumprimentá-la dizendo “boa noite”, no instante em que rapidamente passou por mim, para ir juntar-se a um grupo mais numeroso de pessoas que a chamaram e no qual a minha presença passaria despercebida se a elas me juntasse, desde que não caísse na tentação de comentar com alguém, aquilo de que ela estava anteriormente a falar.

Acredito piamente em que é pelas mulheres, que o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança, tal e qual dizia o poeta. Mas acredito também, que se essa bola passasse para as mãos de uma mulher, o mundo não só pularia, como avançaria e desenvolver-se-ia com maior equidade, justiça e dignidade.

Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

loading...
To Top