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Criminalizar a arte – Francisco Capelo

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A arte moderna(ça) devia ser torturada. Devia ser enclausurada em Guantanamo e obrigada a falar. O seu crime? Ocultar a verdadeira arte durante décadas e promover os mais altos valores do mercado das batatas.

Arte conceptual? – culpada de distrair as atenções, disseminando banalidades.

Arte abstracta geométrica? – culpada de atrair as atenções, sendo banal.

Arte pop? – culpada de, simplesmente, ser a banalidade em pessoa e de focar as pessoas em objectos artisticamente nulos.

Eu sei o que estão a pensar: “Sim, mas quem torturávamos primeiro? E com que método?”

Ora, eu tenho um método infalível, que leva o torturado a falar a verdade em 100% dos casos, e que não foi copiado de nenhuma prisão de nenhum país do 3º mundo (ou da Europa…), tendo sido antes aprendido nessa escola do crime chamada banda desenhada: “Humpa-pá”!

E que método é esse?

Descalçar o torturado e fazer-lhe cócegas com uma pena.

Para quê arriscar o afogamento do criminoso? Ou maltratá-lo fisicamente? Ou colocar música em altos berros durante horas?

Meus amigos, isto é senso comum! E é o que, muito naturalmente, liga umbilicalmente a arte moderna(ça) ao terrorismo internacional: meu caro Snowden/ NSA, “don´t look no further, my friends!”

Bom, mas isto são “peanuts”, comparados com o que a verdadeira arte moderna faz e fez durante mais de um século e meio, desde pelo menos o impressionismo: ela tem tentado alcançar, entre outras coisas, a definição estética última do ser humano.

Neste assunto tão essencial, a escultura tem também feito o seu TPC, nomeadamente com Alberto Giacometti a ser um “ponta de lança” à antiga, estilo Eusébio, mas sem descurar a discreta genialidade de um Coluna ou o mais recente Cristiano Ronaldo, com as suas arrancadas fulgurantes rumo à baliza e ao golo. Também Anselm Kiefer, Louise Bourgeois, Christian Boltansky e Germaine Richier têm marcado muitos golos à apatia reinante, através de arte excepcionalmente expressiva, sem contudo abdicar do seu aspecto mais figurativo.

O que está em jogo é uma representação humana em arte que, após o “fim da poesia” decretado por muitos tendo em conta o “facto em si mesmo” chamado Holocausto, teria de ser algo muito diferente da figura tradicionalista apresentada pelo Renascimento e suas bases anteriores na arte europeia.

O que é a pintura da nossa Vieira da Silva senão a eterna busca de si próprio do homem? Da sua eterna finitude e labirinto da vida e do caótico presente?

O que é “O grito” de Edward Munch, senão a estrutura expressionista do medo, que tem inspirado tantas e tantas cópias menores?

O que é a “experiência Basquiat” senão a fugaz tentativa de apreensão das ansiedades típicas do homo sapiens?

Em resumo: um bom resumo da arte moderna é este – a captação da profundidade da alma.

Se essa alma é humana ou não, no momento em que finalmente o soubermos, já não estaremos vivos para o contar a ninguém…

 

FranciscoCapeloLogoCrónica de Francisco Capelo
O Suspeito do Costume
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