A poluição visual de Paula Rego
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Da poluição visual em pintura

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Confesso: não gosto de designers gráficos ou tipos do marketing. Não é uma questão pessoal. É uma questão profissional: eles poluem o panorama visual das nossas cidades. Cores primárias usadas sem critério estético ou artístico, vai tudo a eito. Não há aqui o rigor quase zen de um Piet Mondrian, não. Nada de poesia visual, apenas poluição visual.

Tudo o que uma sondagem ou estudo de mercado ou folha de excel lhes aponte para maiores lucros, é certo e sabido que é o que eles usam. O cliente fica satisfeito em ser enganado com informações aparentemente científicas e o homem comum, esse, fica sempre a perder.

Muito mal se diz neste país do condutor de carro. Ora, estar atento, no interior, à embraiagem/ travão/ acelerador/ mudanças e ainda estar atento, no exterior, a peões/ passadeiras/ sinais de trânsito/ publicidade, tudo isto, me perdoem, é demais para um só ser humano com dois muito atarefados olhos. Reacções tardias muitas vezes não se devem a má educação – antes a uma poluição visual que é um verdadeiro caos de prioridades.

Vem isto a propósito de um outro tipo de poluição visual: a pintura. A arte também pode ser um tipo de poluição visual? Resposta (que é uma pergunta): porque não ?

A obra de Paula Rego está neste lote restrito. Também Egon Schiele. Também Kirschner. Ou Munch, Van Gogh, e quase todos os expressionistas entram na lista. Até Modigliani teve direito a um pouco de censura, no seus tempos de Paris. Parece a infame arte degenerada de novo, mas talvez seja benéfico voltar a discutir conceitos essenciais, em arte.

Uma visão alterada das coisas, da realidade exterior ao artista. No caso de Rego, uma visão muito particular da relação entre masculino/ feminino, que impregna toda a sua obra.

Na escola de arte de Lisboa Ar.CO, onde estive meio ano, havia espalhados na zona da pintura posters com pinturas de Rego. Quase posso jurar que até no tecto havia reproduções de pinturas dela. Porquê? Não por ser uma artista especial. Não por ser amada entre os artistas. Não. Nada disso.

A sensação que tive foi a de um provincianismo algo torpe e grotesco: ali estava uma pintora portuguesa que era altamente considerada em Londres e, a partir daí, um nome consagrado nas artes a nível mundial. Todos os aspirantes a pintores na Ar.CO queriam ter o seu sucesso. Vieira da Silva era amada, Paula Rego era invejada. E isso fazia – e faz – toda a diferença do mundo.

Confesso: prefiro a depressão de Miró. Prefiro a mal escondida depressão de Picasso, e a de Joseph Beuys e a de muitos outros pintores.

Sabem porquê? Porque esses realmente grandes artistas usaram a pintura como metáfora e como terapia, mas mais que uma possível cura para o seu frágil estado psicológico, ela foi uma ferramenta de transformação social; não me atiraram a sua depressão à cara, como se de alguma vaga acusação se tratasse.

A diferença entre Bacon e Rego, por exemplo, talvez esteja aí. Francis Bacon é destrutivo mas constrói uma outra perspectiva sobre a realidade. Já Paula Rego constrói um labirinto interno, uma teia de sentimentos sombrios dos quais não se consegue libertar. Aquilo que em outros artistas é uma alavanca criativa avançada, na obra de Rego fica-se pela primeira fase, digamos assim.

E se por esta altura da sua vida ainda não se conseguiu libertar deste estado psicológico, temo que nunca o conseguirá fazer.

É pena. É uma pena para a sua vida pessoal.

Mas é uma pena ainda maior que um país de tão grandes talentos continue a adorar o chão que ela pisa e onde ela por vezes tropeça, sendo que a sua obra evidencia uma visão distorcida, até algo doentia da vida.

É uma enorme pintora ? Sim, é.

No entanto, não consigo deixar de ter pena dela. E este é um sentimento que eu detesto e que tento nunca utilizar, em relação a quem quer que seja.

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