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Eis a nova moda: Livros de Colorir para Adultos!

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Livros para colorir: se a maioria pensa que é para crianças há quem seja da opinião que também podem ser para adultos. Estranho? Talvez. Mas quantas modas não foram estranhas ao início? Mas calma, não desvalorize já algo que (ainda) desconhece! A nova moda dá pelo nome de “arteterapia” e já produziu resultados (pelo menos comerciais, os restantes ainda estão por aparecer…). Segure-se bem pois está prestes a iniciar uma viagem recheada de sorrisos e boas memórias ao seu/nosso passado no “Desnecessariamente Complicado” desta semana.

Não se ria que só lhe fica mal! Pintar pode, ao que tudo indica, ser um método de terapia eficaz. Pelo menos é o que dizem os especialistas. E o fenómeno da “arteterapia” tem crescido a olhos vistos (que o digam as tabelas de vendas). Ainda se está a rir? Então prepare-se para ficar espantado: segundo os dados revelados pela imprensa entre os 12 livros mais vendidos nos Estados Unidos da América metade são álbuns para colorir. Exacto: livros repletos de desenhos para pintarmos. Parece de loucos (talvez porque…é, efectivamente, de loucos) mas é verdade.

livros de colorir

O livro que está em primeiro lugar intitula-se “Jardim Secreto” e é da autoria de Johanna Basford, que é definida como “uma ilustradora que cria intrincados desenhos à mão, com inspiração na fauna e flora que rodeiam a sua casa na Escócia.” A autora de sucesso na Amazon considera que a arteterapia é parecida com a sensação de se desligar do mundo: “É criativo e não assusta tanto quanto uma folha em branco. Para muitas pessoas, um livro para colorir satisfaz a nível artístico e acrescenta um toque de nostalgia. Além de que, com o sucesso destes livros, o adulto não precisa de fazer como em criança, muitas vezes à noite antes de dormir e às escondidas dos pais, porque actualmente é uma prática socialmente aceite.”

Por mero acaso um dia depois de ler a notícia a respeito desta nova moda desloquei-me a uma grande superfície com os meus progenitores. Ora e porque vou eu às compras com os meus pais? Primeiro porque vivo com eles. Segundo porque assim posso ajudá-los a carregar as compras. Terceiro porque a maior parte do tempo passo-o nos livros e revistas a ver as novidades (e à procura de promoções ou descontos, obviamente). Ok, é muito mais pelo terceiro motivo do que pelos dois anteriores. Mas viciado em leitura que se preze quer sempre ver tudo o que há para ver no que diz respeito a livros e revistas. No fundo para nós é algo tão natural como uma fã do Tony Carreira querer um filho dele e gritar esse desejo a plenos pulmões num concerto dele (ou dos seus filhos que, apesar de mais novos, provocam a mesma excitação no público feminino).

Bem, mas voltemos ao que realmente interessa: fui às compras com os meus pais e passei largos minutos na referida secção. E, por entre as largas dezenas de livros expostos, encontro o livro acima mencionado. Lembrei-me logo da notícia e do livro, obviamente! E enquanto folheava aquelas páginas em branco foi como se tivesse regressado aos anos 90.

Sim porque em criança eu era um fanático dos livros de colorir! Eu nunca fui de pedir muitos brinquedos aos meus pais, preferia antes pedir livros para pintar e canetas de feltro. Isso sim deixava-me feliz! Acho que grande parte dos meus amigos não compreendia o meu fascínio por aquilo. Um deles disse-me um dia: “Mas que graça tem aquilo? O livro está em branco, não tem nada para ler e o que há para fazer tens de ser tu a fazer! Compras o livro e ainda tens de ter trabalho a fazer o trabalho que devia de ser do seu autor!”. Podem não acreditar mas do alto dos meus 11/12 anos respondi-lhe: “uma criança não devia ter uma visão meramente economicista de nada, principalmente de algo tão simples como um livro de colorir.”

Eu gostava, verdadeiramente, de pintar aqueles livros. Gostava e gosto, diga-se de passagem. E sabem porque é que eu gostava tanto de pintar? Porque não sabia desenhar. Por mais que tentasse nunca era capaz de desenhar nada, então concentrei-me em pintar. E se a desenhar era um zero à esquerda, a pintar era dos melhores. Não havia limite que não fosse cumprido! Sim, porque livro de colorir meu não tinha cá pinturas à balda a sair do risco! A minha teoria pessoal é que o talento que me devia ter sido endereçado para o desenho foi desviado para a pintura (assim como o talento para cantar foi redireccionado para o assobiar, mas infelizmente diz que não há “assobiadores” profissionais)!

Algo que me irritava solenemente era crianças que pintavam à balda. Que raio de lógica havia em pintar às três pancadas? (Vocês já me conhecem, sabem muito bem que apenas usei aquela expressão porque a acho tão engraçada quanto disparata). É como ser jogador de futebol e andar em campo a correr os 90 minutos, sem parar, ao calhas: gastam energia e recursos e a probabilidade de fazerem algo bem feito é estupidamente reduzida!

lápis

Talvez eu fosse uma criança estranha. Talvez estivesse demasiado à frente (ou atrás) para a minha idade, não sei. O que sei é que gostava de pintar. E enquanto pintava, na minha mente, surgiam mil e uma ideias. Aventuras fantásticas aconteciam durante largos minutos. E aquilo que para mim eram diálogos épicos, para os restantes eram apenas monólogos esquizofrénicos. Sempre me senti incompreendido. Sempre me senti meio sozinho. Sempre achei que ninguém via o mundo exactamente da mesma forma que eu.

Sim, porque mesmo quando explicamos uma das nossas ideias delirantes a um adulto ele não a compreende. Pode rir-se, dizer que sim com a cabeça, mas não a compreende. Acha-a desprovida de sentido. Tonta. Hilariante. Mas não a entende. E não a entende porque deixou que a sua criança interior crescesse. Não a manteve pequena, inocente e ingénua. E quando assim é, isso significa que estamos perante alguém com uma “alma velha”.

E quando percebi que os adultos não partilhavam do meu ponto de vista passei a guardar tudo para mim. Para mim e para o meu amigo imaginário. Criar um amigo imaginário permitia-me estar sempre acompanhado e ter, sempre, alguém que sabia que ia partilhar aquele momento comigo. Fosse alegria ou tristeza, espanto ou entusiasmo, ele estaria ali e iria compreender-me. Foram muitas as vezes que falei, ri ou chorei para o vazio, simulando estar alguém ao meu lado.

Os anos foram passando e os amigos, verdadeiros, foram surgindo naturalmente. Percebi rapidamente que os de carne e osso podiam ser muito mais cruéis e individualistas que os imaginários. Mas ninguém é perfeito, não é verdade? Os livros para colorir estiveram sempre comigo. Sempre. Eram o meu escape, a minha fuga da realidade.

E foi de tudo isto que me lembrei enquanto pegava no leve livro na grande superfície comercial. Foi uma autêntica viagem no tempo ao meu passado, à minha infância, ao tempo onde tinha amigos imaginários. Os anos passaram mas ainda sou muito do que era nos anos 90. Continuo a gostar de pintar….apenas não pinto tantas vezes como dantes. Continuo a sentir-me incompreendido pela maioria dos que me rodeiam….só não o demonstro tão facilmente. Continuo a falar sozinho…apenas não o faço em público mas sim na minha mente.

Se sou louco? Um bocado, não o nego. Mas o que seria da humanidade sem uma boa dose de loucura? Sabe qual é um dos meus lemas de vida? “De são, e de louco, todos nós temos um pouco!”. A chatice é que uns têm mais de são e outros…mais de louco.

Incentive o equilíbrio. Nunca se esqueça da criança que era, dos seus gostos e manias. Evolua mas não mude por completo. Não traia as suas raízes e nunca se esqueça de onde veio e de quem esteve a seu lado na sua jornada. Todos nós temos uma jornada, um caminho, uma aventura pela frente: chama-se a isso “viver”. Viva. Viva muito. E viva intensamente.

Este foi um “Desnecessariamente Complicado” bem mais profundo e introspectivo do que parecia à primeira vista não foi? Pois é, já devia de saber que eu tenho especial prazer em surpreende-lo!

Boa semana.
Boas leituras.
E….boas pinturas, suas crianças em corpos de adultos!

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