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Esta semana há dois em um: Primeiro de maio, primeiro de inverno e O beijo da mulher aranha

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Esta semana, temos dois em um. No dia do trabalhador, trabalhei a duplicar e apresento duas crónicas. Bom feriado.

“Primeiro de maio, primeiro de inverno”

Por amares a liberdade,

Acho em ti natural e digno,

O seres fiel à verdade,

Que é a tua bandeira e hino.

 

Por amares ao teu semelhante,

Falas claro e sem surpresa,

Na defesa de um bem tão grande

Como a liberdade de imprensa.

 

Por amares as tuas conquistas,

Privilegias o direito,

De falar, não às escondidas,

Mas n’avenida, de cravo ao peito.

 

“O beijo da mulher aranha”

Soube-me a palha, a boca dela, onde, previamente a dar um beijo, o que devia ter feito era esfregar uma azeitona para me saber àquela gostosa que faz o anúncio do Martini.

Travámos conhecimento há um par de semanas, num bar em voga de onde, ao cabo de beber uns copos, quando saímos não podemos afiançar se foi pela mesma porta que entrámos. De aspeto lúgubre, para o meu gosto, funcionava na cave de uma vivenda e tinha à entrada um funcionário de fatiota, que para ser um profissional a rigor, aos clientes que chegavam de automóvel, devia instar a procurarem um melhor lugar para se irem divertir.

Fui lá daquela vez, com um amigo que achava impossível, haver lá uma mulher capaz de dobrar tantas vezes uma nota de cinquenta euros, que para não ficar à vista dos clientes, ela conseguia esconder sem ninguém notar, debaixo do elástico do fio de dental em que serpenteava as ancas agarrada a um varão.

Fomos mais cedo do que o habitual, porque não queria por nada deste mundo, perder o show lésbico protagonizado por duas mulheres com tão grande diferença de idade, que não me admirava serem avó e neta ou mãe e filha, sendo que, nesse caso, além dos atributos físicos, a mais nova havia herdado da outra o jeito desinibido de abanar o rabo ao som da rumba.

Estava já cansado, de fazer figura de corpo presente, sentado com o meu amigo à espera do dono do bar, a quem, alguém que reparasse em nós há tanto tempo especados, devia pensar que íamos em busca de emprego ou de pedir algum dinheiro emprestado.

Conhecia- de termos feito tropa juntos, numa guarnição sitiada de casas, num aquartelamento dos arredores de Lagos, de cujas vigias à noite se observava um inusitado movimento de automóveis de luxo rumo a uma zona de bares de alterne, que devem ter-lhe servido de inspiração aos negócios que montou de regresso à vida civil.

Primeiro, dedicou-se a abrir um café que fechou volvidos seis meses por ausência de clientela. Depois, uma discoteca com matinés dançantes abertas aos jovens, seduzidos pelos sucessos das pistas de dança oriundos do estrangeiro, onde ainda não eram despidas que, para agradar aos clientes endinheirados, ele achava que as mulheres deviam dançar. E finalmente, um bar de prostitutas, onde alternavam à porta putas e chulos, que acorriam ao local de madrugada para recolher os dividendos do trabalho, portando-se como os acionistas de uma grande empresa que à sua custa só andam atrás de encher os bolsos.

Foi nessa altura que vi subir ao palco, preenchendo a vaga do show de lésbicas que tinha terminado com o casal abraço aos beijos, uma dançarina que não vi logo se era bonita, porque trazia os olhos vendados de negro, mas ao lado de quem não me sentiria inteiramente tranquilo, com a carteira recheada de notas, escondida nem que fosse no bolso interior do casaco.

Parei petrificado a olhar para ela. Para o movimento de ancas onde, nem observado à lupa, se notava alguma marca do tipo casca de laranja de celulite.

Sacudia freneticamente as ancas, exibindo-se em bom plano, e não fosse a reduzidíssima cueca de cetim, brilhante ao centro a lembrar para onde deveria dirigir o olhar, estaria inteiramente nua, depois de arremessar para longe o véu que mal lhe cobria o rosto assim que saiu de trás de um cortinado no qual eu já estava focado, mesmo antes de para lá apontarem os holofotes do teto quando foi anunciada aos microfones a sua entrada em cena.

Como se apontassem no horizonte o plano onde nascia o sol, os meus olhos não se desviavam ao princípio dos dela. Baixei-os e reparei num piercing agrafado ao umbigo, na redondeza da tatuagem de uma serpente que me fez recordar o perigo de lá ir tocar sem ser com a sua permissão. Talvez, respondendo a um sinal, viesse um segurança que me expulsasse ou talvez apenas me esbofeteasse dando-me a oportunidade de sentir o calor da sua mão.

Larguei a cerveja e, inadvertidamente, pousei a mão na do meu amigo que a repeliu como se o tivesse picado um inseto à vista do qual, o veneno da cobra fosse inofensivo. Pedi-lhe desculpa e continuei pasmado a olhar para a dançarina, de boca aberta como se pretendesse sugar o ar à sua volta e atraí-la para o meu lado. Pediria então uma garrafa do meu espumante para ambos ou se não gostasse de bebidas com bolhas, oferecia-lhe uma cerveja, servida na maior caneca que houvesse na casa para ser bebida através de uma palhinha a fim de desfrutá-la melhor, demorando mais tempo na minha companhia.

Interrompendo uma cadeia de pensamentos, chegou o meu amigo dono do bar e cumprimentou-nos, mas não muito efusivamente, como se estivéssemos a celebrar o reencontro de não nos vermos há tanto tempo que se impunha ser ele a pagar-nos as bebidas.

Mandou vir para a mesa, uma tábua de aperitivos. Amendoins e pedaços de castanha da caju amolecidos, que sabiam à casca da árvore de onde tinham sido apanhados. Sorri. Revelava-se uma tarefa árdua, mastigar e engoli-los, tendo como pano de fundo a mulher, agora nua, a dançar, e até pensei que, para tornar inesquecível o nosso encontro, a ela ao jantar não pediria para servir senão um prato cheio de marisco, descascado, acompanhado da garrafa do melhor vinho verde da casa. Num restaurante luxuoso que só me atrevera a olhar da rua, com medo de cobrarem logo à entrada, e a uma lagosta inteira, comê-la-íamos suada ou feita de outra maneira que não desse a impressão de ter dado ao cozinheiro tanto trabalho a preparar.

No final, brindaríamos à promessa de um breve reencontro, rematado com uma travessa daqueles pastéis de bacalhau feitos com a receita da mãe, que iríamos cear a casa dela afastados do olhar indiscreto das pessoas a quem também apetecesse dar-lhes uma dentadinha.

Reparando no meu enlevo pela curiosa atuação, executada à luz de um holofote que projetava a sombra na mulher na parede, fazendo com que parecesse estarmos na presença de um par, o meu amigo dono do bar, desabafou que eram todas putas as frequentadoras da casa, sobretudo as mulheres que lá iam com os maridos, ciumentos, que não confiavam em deixá-las sozinhas à noite, sobretudo quando na cama podiam sentir a falta da cabeça deles, deitada ao seu lado na almofada. Por momentos, achei que o meu amigo dono do bar olhava para mim como se fosse um estranho, mas creio que não me reconhecia, devido a que durante todo o tempo em que convivemos, ele nunca me viu apaixonado e jamais supôs a maravilhosa transformação que o amor pode operar.

Discordei da opinião, mas não me manifestei e optei por levantar-me e ir encostar-me ao bar, de onde tinha melhor a perceção de onde se situava a porta da rua, que me apetecia atravessar com ela de braço dado, para evitar continuar a ouvir comentários desagradáveis da parte dele a respeito de quem quer que fosse.

Da mais recente vez que uma seta certeira de Cupido viera ferir-me, a relação terminara abruptamente e o coração decidira fechar-se ao amor, estanque à passagem dos sentimentos, como uma garrafa à entrada de ar quando lhe colocamos uma rolha antes de deitá-la ao mar com uma mensagem que temos a esperança de chegar a outro continente.

Entretanto, a música parou e só o meu par de palmas se ouviu. Ela aproximou-se e usou o velho truque de cravar um cigarro para meter conversa. Acendi-lho e acenderam nas costas dela uma luz que me impedia de olhá-la de frente. Fixei a silhueta. Era perfeita, de forma que somente um artista conseguiria copiá-la para uma folha. Mirei-a, tirando as medidas como se em seguida me preparasse para dizer que sendo de igual altura e peso, talvez alguém no céu nos tivesse talhado um para o outro.

Ao palco, subira uma empregada da limpeza, puxando o lustro ao varão que devia ter suor agarrado de, pelas pernas e braços, se ter pendurado ao seu redor com força para não cair.

Pouco depois, já pude reparar que quanto mais perto estávamos, mais verdes se apresentavam os olhos que anteriormente pareciam cinzentos. E tão mais intensa era a cor da esmeralda, que, se não desviássemos rapidamente a atenção, dava a sensação de estarmos a mergulhar num mar de águas cristalinas nalguma ilha banhada pelo pacífico sul.

Aproveitei a oportunidade para dizer o meu nome e pusemo-nos à conversa, a respeito de coisas banais, como o tempo, que do primeiro encontro entre um homem e uma mulher, serão aquelas de que nunca nenhum deles se irá recordar em primeiro lugar.

Terminou o cigarro e, obedecendo a um ímpeto que tentar conter seria como com a força de braços tentar travar uma locomotiva em marcha, aproveitando a distração, preguei-lhe um longo beijo nos lábios, que me deixaria de rastos se muitas vezes tornasse a fazê-lo e novamente ficasse tanto tempo sem respirar.

Beijei-a uma vez e confesso que me arrependi. Dera-lhe um beijo, roubado à pressa como se por ele, à saída, tivesse de pagar um preço elevado. Só que surpreendentemente, arrependi-me amargamente, diga-se. Foi o primeiro beijo que dei, sem ter curiosidade de saber se os seguintes seriam surpreendentemente melhores.

A boca dela sabia estranhamente a palha. Eram beijos inócuos, e não precisaria de oscular uma mulher para ficar com um sabor desagradável na boca. Bastaria beijar o meu amigo dono do bar, que era homossexual assumido. Não que alguma vez o tivesse feito e nem por acreditar que ele comesse qualquer espécie de forragem. Isso come um burro. E não que ele o fosse, mas a julgar pelos comentários e opinião depreciativa sobre as mulheres em geral, que não se coibia de revelar, inteligente é que ele não devia ser com toda a certeza.

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