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O génio da 9ª Sinfonia

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Não podia estar mais de acordo em que os últimos são os primeiros, se não considerasse efetivamente que a última a ser escrita, foi a melhor das nove composições sinfónicas que Beethoven executou enquanto foi vivo.

Composta e finalmente apresentada ao público no longínquo ano de mil oitocentos e vinte e quatro, a nona sinfonia, também conhecida como a nona, trata-se de uma das mais representativas obras musicais, em termos de ter conseguido retratar com exatidão a extraordinária sensibilidade do seu autor.

À época do século XVIII em que foi apresentada, na cidade de Viena, a peça causou logo um impacto muito positivo junto de quem atentamente a escutou, constituindo aquilo que na gíria musical ficaria na atualidade conhecido como um hit.

Na tonalidade de ré menor, foi dividida em quatro andamentos, incorporando uma parte do poema “An die Freude”, uma ode à alegria escrita por Schiller que foi necessário cantar. Pelo que Beethoven a concebeu para funcionar com um coro, a cujas vozes se misturavam as que vinham do público, pedindo que não parasse de cantar.

Mais do que um hino à alegria, a Nona Sinfonia é o verbo Amar conjugado nos idiomas possíveis em que a palavra cantar constitua um sinónimo de paz. É não saber sequer do que se fala, e mesmo assim fazer errar as previsões de quem achava que íamos redondamente enganar-nos.

Em a Nona Sinfonia, Beethoven é, na transição de género clássico para o romantismo, um poeta por quem se dirá ter valido a pena inventar a escrita. Um artesão de quem se lamentará não terem ficado mais objetos feitos para o futuro ou um arquiteto de quem se ficará com pena de não ter deixado feitas, mais pontes de ligação entre os povos.

A mistura envolvente do som dos diversos instrumentos, faz que nos sintamos deliciados como se fosse com a sensação de um pedaço de pão quente comido, acabado de barrar com manteiga. E proporciona um tal grau de satisfação, que depois de ouvi-la somos levados a pensar que conseguimos finalmente compreender e resolver os problemas do mundo inteiro à nossa volta.

Logo no primeiro andamento da peça, regidos por um maestro, dezenas de instrumentistas tocam em uníssono uma música que ao ouvinte redobram de interesse, como se quisessem duplicar o número de notas na partitura à sua frente. E adiante, na retaguarda do som dos violinos, torna-se perfeitamente audível o som de uma flauta seguida dos demais instrumentos, que funcionando perfeitamente naquele enquadramento, parecem desprovidos de sentidos num contexto fora daquela orquestra.

Escrevo sobre a Nona, enquanto oiço parte dela, recostado num sofá do qual não me levanto com preguiça, à falta de haver na estante onde os guardo catalogados, um cd com a gravação de outra sinfonia que me dê igual prazer ouvir.

E o que não falta na música do mestre alemão, é qualidade. Qualidade associada ao seu génio. Génio associado às duras condições de vida do tempo em que viveu e ajudaram a forjar o seu forte caráter.

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