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Largar o Tabaco – Um Grito de Liberdade

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O tabaco, (não propriamente a planta do tabaco mas aquilo que dela se extrai, acrescentado de mais de mil substâncias químicas, dentre as quais muitas perigosamente nocivas à saúde e ao ambiente), na forma fumada, é talvez uma das drogas legalizadas mais utilizadas no mundo, e amplamente usada no mundo ocidental industrializado.

Mesmo com as restrições já existentes em muitos destes países, dentre os quais os EUA foram dos primeiros a assumir uma postura anti-tabaco impedindo a presença do mesmo em ruas e avenidas, prédios e vários lugares públicos, fechados ou abertos, continuamos a ver à porta dos estabelecimentos, e quase permanentemente, uma ou outra pessoa que ali fuma, compulsivamente, pois sem aquele seu “companheiro” o dia não é dia, a noite não é noite, a concentração falha, o nervosismo acentua-se e a ansiedade instala-se.

A dependência é de tal forma grave que alguns estudos apontam no sentido de ser mais árduo deixar o vício do tabaco – nicotina – do que a própria heroína – uma das drogas ilegais que mais dependência cria, perigosamente letal, que conduz facilmente ao crime e aos comportamentos desviantes, sobretudo com vista à obtenção da satisfação do vício. Estes estudos baseiam-se no nível de sucesso pós desintoxicação, na sua maioria, indicando que é mais comum a recaída com a nicotina (tabaco) do que com a heroína (em termos percentuais, face à população estudada, caso a caso), sendo que esta já de si tem muitas recaídas e insucessos, sucessivas vezes até, no mesmo sujeito.

A resposta para este insucesso é certamente multifatorial, mas pode ajudar (digo eu) precisamente o facto de ser legal e acessível a sua compra, quer em termos de custo económico, quer em termos de locais de venda. Obviamente o peso do social e do que ao tabaco vem associado como positivo pelas pessoas fumadoras, será mais um motivo possível para recaídas…O facto dos danos serem mais graves a médio prazo, e com sorte a longo prazo, em vez de no imediato, também fomenta nas pessoas a convicção de que podem deixar o tabaco num outro “timing”, mais “à frente” portanto, sem mais. Claro está que existem certamente muitos factores associados ao vício, à “entrada no vício” e à manutenção e dificuldade de “saída do vício”, que estudos vários têm abordado.

Mas o que aqui importa é pensar um pouco no que leva milhões de pessoas no mundo, frequentemente pessoas informadas e inteligentes, a fumar e a não “largar o vício”, negando-o muitas vezes, partindo para uma “fuga para a frente” noutros casos, e ainda muitas vezes dizendo para si mesmas que o ” que tem que acontecer acontece e há tanta gente doente que nunca fumou…”?

Esta última justificação, sobretudo, é “gritante”, pois o que aqui se passa é a percentagem muito maior de fumadoras e fumadores com determinado tipo de problema ou doença, como o cancro do pulmão, muitas destas pessoas fumadoras passivas – note-se! – mas fumadoras à mesma do tabaco que outros as obrigam a “fumar”, do que a pessoas que respiram ar puro e não fumam! Por outro lado, o argumento de que o ar é poluído e portanto o cigarro não faz grande diferença face a isso, não faz sentido – “dois erros não tornam um deles certo”!…

Evidentemente que não é fácil abandonar o tabaco, fisicamente e psicologicamente, mas creio ser necessário antes de mais pensar sem culpa, sem negação, e com clareza no porquê de fumar ou de continuar a fumar, e se a pessoa está verdadeiramente consciente dos danos que o tabaco faz no organismo do próprio, nos outros à sua volta, e no ambiente em geral? Se na verdade isto importa? Se na verdade já pensou seriamente no porquê de se ir envenenando diariamente e de evitar sequer pensar nisso?…Em resumo, é importante o próprio pensar honestamente e sem preconceito sobre o seu hábito tabágico,e qual a relevância que ele tem efectivamente na sua vida…e na dos outros…

Logicamente quem já pensou em deixar de fumar mas não conseguiu, ou “recaiu”, deve dar ainda maior atenção a este assunto.

Existem formas suaves ou mais radicais de deixar o tabaco, algumas delas com compensações químicas, por ex., seja a nicotina em si mesma, seja medicação para combater sintomas de abstinência. Para além das formas de apoio farmacêutico, médico, psicológico, existem ainda formas de apoio naturais, alternativas, como desabituação com recurso à homeopatia, ou com recurso a metodologias naturais várias. Pode deixar-se radicalmente e passar aos zero cigarros, cigarrilhas, charutos ou cachimbo desde logo, ou deixar-se gradualmente, com redução crescente até ao zero. Pode deixar-se apenas com força de vontade e auto-controle emocional, com muita convicção, ou com isto tudo e apoio extra.

A forma como se deixa de fumar e o seu sucesso depende não do método em si mesmo, penso eu, mas da relação que cada pessoa estabelece com o tabaco e com o método que utiliza, que deve escolher. Tudo conta: a sua vontade, a sua personalidade, aquilo que é a sua relação com o hábito tabágico, aquilo que sente em relação ao vício, a sua experiência de vida, a sua forma de pensar e de estar no mundo e consigo própria, o seu estado de saúde, a sua idade, etc, etc, etc…Essencial conhecer-se a si mesma e a sua motivação para fumar e para querer deixar de o fazer.

Essencial é que queira deixar e que perceba que é um vício grave, ainda que legal, que provoca doenças graves e que mata mesmo; as doenças passam pelos cancros, sobretudo aqueles onde há evidências claras de relação causal com o tabaco (alguns cancros), ou naqueles que a associação ao tabaco não sendo causal é no entanto inegável, e passam ainda pelas doenças cardiovasculares, que podem obviamente culminar no enfarte do miocárdio ou num AVC, tromboses venosas ou arteriais noutros orgãos do corpo. Passam também por doenças respiratórias várias, e muito graves, que causam grave sofrimento às vítimas…

Creio no entanto que o que determina deixar de fumar e não voltar a fazê-lo, com ou sem apoio extra, é a consistência da força de vontade das pessoas que a isto se propõem.

Com isto quero dizer que não basta a força de vontade do momento, quase que um impulso ou uma revolta, como quando se perde alguém querido por cancro associado ao hábito tabágico ou por enfarte, ou quando se vê alguém querer respirar e não conseguir fazê-lo devido aos anos de tabaco que “respirou”, activa ou passivamente, é necessário haver consistência dessa vontade. Se um impulso ou uma revolta contra o vício é um “motor de arranque” para a decisão, a permanência e consistência desse querer é sobejamente importante. Sem isto, qualquer acto para deixar o tabaco pode ser vão, no sentido de uma experiência pouco duradoura e que gera alguma sensação de fracasso (o que nunca é positivo) perante a recaída.

Assim sendo, independentemente do método que melhor se possa adequar a cada pessoa, ou mesmo um método próprio (como propor-se a reduzir até zero até à data x e concretizar, sem mais, ou reduzir radicalmente para zero fumando por ex. o último cigarro na noite x, antes de ir dormir e começar com zero no dia seguinte – e repare-se que as primeiras doze horas de abstinência física, se com oito de sono pelo meio são mais facilitadas), o essencial é querer de verdade, e perceber as razões válidas que o levam a querer, aquelas que permanecem para além do impulso da decisão, aquelas que realmente são válidas, pensadas e amadurecidas no silêncio do pensamento do próprio, sem subterfúgios e sem “mecanismos de defesa activos”, mas com total consciência e honestidade, de si para consigo.

Após tomar a decisão pensada e marcar a data ou a hora do último cigarro (pode ser hoje mesmo, ou daí a x dias), não se preocupe mais se vai haver isto ou aquilo pelo caminho…Enquanto fumar o último cigarro ou seu similar, não pense no bem que a ele está associado, e se sabe ou não bem, pense mas antes em todo o mal que ele causa a tantos e tantos milhões de pessoas pelo mundo…Pense antes no mal que ele provoca no seu corpo, e congratule-se se ainda vai a tempo de evitar algo mais grave – ou pelo menos por fazer agora a sua parte. Despeça-se com vontade e não com pena…evite ao máximo pensar nele como o companheiro para tudo, mas antes na perversidade e traição que esse “companheirismo” traduz, um veneno que sabemos ser letal. Sabe-se há muito que a nicotina, se fosse injectada numa dose elevada q.b. num organismo humano produziria morte imediata…É um veneno real e poderoso…O corpo das pessoas fumadoras apenas se foi habituando ao mesmo, ganhando resistência que permita fumar na dose x, mas que nem por isso deixa de produzir males maiores, a seu tempo produz certamente, alguns fatais…
Pensada e tomada a decisão de largar o tabaco, evite pensar mais na decisão, e evite pensar muito sobre o que vai acontecer que possa provocar recaidas – pense ante que tomou a decisão e agora é seguir em frente sem voltar atrás!

As tentações para voltar ao vício, a este vício em particular, vão ser muitas! Situações de relax vão ser motivo de recaída , como situações de stress…

Sim, o tabaco tem esta vertente de vício terrível…É o companheiro social, é o companheiro do solitário…É o companheiro da diversão, mas é também o companheiro da reflexão e do silêncio, do estudo, de tudo…

É o companheiro no meio de um “sem número de coisas para fazer” – aquela pausa essencial – e é paradoxalmente o companheiro ideal no meio do aborrecimento e do “sem nada para fazer”…
É o companheiro que coloca fim a uma refeição…e também o que acompanha o cafezinho…
É o companheiro para as situações de intimidade, mesmo que deixe o odor e o hálito tenebroso de “beatas apagadas no cinzeiro” naquela ou naquele que o fumou…
É o companheiro da produção intelectual ou artística, mesmo que seja por si mesmo, no século XXI quando já conhecemos bem os seus malefícios, um atentado à inteligência humana e à mente criativa…
É o companheiro QUE MATA E DESTRÓI A SÉRIO…Dos mais perversos de todos os companheiros de vida, aquele que a pode levar precocemente, aquele que diminui a sua qualidade, aquele que provoca danos irreversíveis…
Só podemos suspeitar de um companheiro destes que serve para todas as ocasiões, que nos torna dependentes em todas as situações de vida…que arranja sempre motivo para “fazer falta” a quem nele se vicia…

Quem fuma tem de ser muito forte e robusto para não sucumbir facilmente aos maus tratos que o tabaco provoca no organismo – dentre outros: pele e cabelos secos como palha…acne…dentes amarelecidos…pulmões negros e cheios de fumo…alvéolos pulmonares que vão sangrando em cada inspiração tabágica…gorduras nas artérias e veias…Bem chega para dar a imagem…Mas ainda há mais…
Mas quem fuma também tem de perceber que tem uma imensa fragilidade, mesmo que negada, e por isso não “dá mesmo” para “largar o tabaco”…

DEIXAR DE FUMAR DE VEZ:
Se em vez de pensarmos neste companheiro traidor com afecto, pensarmos como o nosso mais perverso carrasco, talvez comecemos a pensar a sério em deixar de fumar…de vez!

Se um dia isto acontecer, prepare-se bem para o que vai acontecer na abstinência física e psicológica, prepare-se para evitar o ganho ponderal (engordar) nos primeiros um a dois anos, ou não queira saber porque depois recupera a sua forma anterior.
1-Escolha o seu método – É O SEU – não é de mais ninguém, serve para si.
2-Não substitua o tabaco por rebuçados ou comida que engorde, tente alternativas saudáveis, caso tenha de substituir o vício de alguma forma.
3-Não adie muito a decisão, e depois de reflectida e ponderada, não olhe mais para trás.
4- Habitue-se a uma nova forma de estar na vida, mais saudável, mais serena, mais forte e segura ou seguro de si mesmo, em qualquer situação, sem dependência.

O BEM QUE SE VAI CONQUISTANDO A CADA HORA QUE PASSA SEM TABACO:
Nas primeiras horas nota logo uma respiração melhor. A tosse da manhã desaparece. A voz fica mais limpa se nada de dano permanente tiver havido.
A resistência física aumenta com o tempo.
A comida tem novos sabores, a o olfacto torna-se mais apurado.
A pele começa a “respirar saúde”, os tons da mesma ficam mais “saudáveis” porque o sangue flui com facilidade e chega a todos os pequenos vasos periféricos mais purificado, o cabelo fica mais forte e brilhante, ETC, ETC, ETC… Afinal deixou de se envenenar, portanto começa a notar-se a “purificação do organismo” que é muito mais forte do que a abstinência. Se não conseguir lidar com algum sintoma da abstinência recorra a um profissional de saúde que o possa ajudar, mas não ao veneno que o deixou assim pela sua ausência!

O risco das doenças mais graves vai diminuindo no espaço e no tempo…com os anos atinge até níveis normais novamente, como em alguém não fumador.

As melhorias no estado geral de saúde, fora do quadro de abstinência física (que é temporário), são reais e vai começar a perceber isso rapidamente.

ESSENCIAL A RETER NA SUA MENTE:
Cada dia sem tabaco é uma vitória. Se recair, pode sempre tentar outra vez deixar, com mais força e convicção!
Um dia de cada vez, o seu organismo e a sua mente vão agradecer o facto de ter removido um veneno letal do seu corpo…A sua mente vai agradecer não só a componente física, mas também o facto de ser livre de uma dependência.
Ser livre não é ser rebelde e colocar uma prisão na nossa vida por rebelião…
Ser livre é ser livre de vícios, por opção, porque conseguimos dar esse grito de liberdade bem alto!…
Largar o tabaco é agarrar a vida, a saúde, o ambiente, mas é também o mais profundo grito de liberdade e emancipação que alguém pode dar face a um vício perigosamente instalado nas nossas vidas!
E se parássemos um pouco e pensássemos nisto a sério?…
Uma coisa é certa…as tabaqueiras que fazem milhões em todo o mundo não agradecem…
Colocam junto da nicotina em cada cigarro, centenas de substâncias igualmente letais, algumas que criam ainda maior dependência…Afinal precisam da fragilidade humana e da sua dependência do vício para sobreviverem, e pior, para enriquecerem!!!

E se pensar no dinheiro que poupa, e mimar-se com algo que compre ao fim do mês de “poupança”, é uma gratificação extra que vai certamente ser bem recebida por si!!!
E uma nota adicional para quem fuma cigarrilha ou charuto, ou tabaco de enrolar e acha que é uma alternativa saudável…desengane-se…aparentemente são eles mais responsáveis na sua quota parte de contributo para os cancros da zona da orofaringe (língua, boca, laringe e faringe) do que os cigarros vulgares em maço…Estes são no entanto fortemente relacionados ao cancro do pulmão, como é conhecido.

Voltando a pensar no que é positivo: Positivo é ser livre de vícios, donas e donos de nós, do nosso corpo e da nossa mente.
É dos maiores bens pessoais que podemos ter, essa liberdade em nós. E é na verdade uma prova de amor próprio e de amor aos que nos amam…

Quando um dia decidir: Vá em frente, à sua maneira, com o apoio que achar mais adequado a si mesmo, com aconselhamento se o entender. Mas não desista…
Por hoje, esta reflexão passou por aqui…
Liberte-se o homem, e porque não a mulher, dos vícios, e encontrar-se-à cada vez mais livre e cada vez mais consciente de si e do que o rodeia.
Que assim seja!

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