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Metro Mondego: “Metrobus”? Não, obrigado

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Honestamente esperava mais de um governo que se diz diferente do anterior. A noticia é a mesma que o governo de Passos Coelho anunciou: em vez de veículos sobre carris, vamos colocar veículos sobre pneus (autocarros), mas a percorrer o caminho que anteriormente era feito pelos comboios. Para mim é péssima ideia.

Esta decisão baseia-se em vários factores analisados pelo LNEC, Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Um dos pontos referidos no estudo do LNEC é a o número de passageiros que a CP transportava no comboio, antes das linhas serem retiradas para iniciar as obras do metro de superfície. Eu compreendo que o estudo tenha de partir de algum lado, mas será mesmo fiável comparar a escolha das populações pela automotora que fazia a ligação entre a estação do Parque e Serpins, com as modernas carruagens do metro de superfície (comparando aqui com o Metro do Porto) ? Será que a população que hoje usa o Metro do Porto é a mesma que usava antes o comboio ou os autocarros que faziam semelhante trajecto? Óbvio que a maioria não é. Há muita gente que não os usava e passou a usar o Metro pois é cómodo, rápido e passa com bastante frequência.

As automotoras usadas no ramal da Lousã, antes do governo Sócrates ter retirado as linhas para iniciar as obras do Metro

E aqui chegamos a outro factor ponderado pelo LNEC que é a perspectiva de uso do serviço, isto é, se as pessoas dos conselhos abrangidos pelo Metro Mondego têm intenção de usar o serviço. A Metro Mondego, como eu já referi noutra crónica, foi criada por Aníbal Cavaco Silva em 91, que a colocou numa gaveta logo a seguir. Hoje, quando, mesmo numa conversa de café, se fala em metro, o pensamento imediato é que, volvidos 26 anos, Coimbra nunca vai ter metro. Como é que uma pessoa pode ter intenção de usar algo que acredita que nunca vai acontecer?

Eu recebo a mailing list do Metro do Porto e vejo com muita frequência emails a indicar que transportaram mais passageiros do que em igual período em anos anteriores. Mas quantos anos tem o Metro do Porto? Quantas noticias já vimos de derrapagens e défice da empresa? Queremos repetir erros do passado? Não, não queremos. Mas o crescimento do número de pessoas transportadas mostra que o investimento é útil e necessário. A população da área metropolitana do Porto precisa do Metro. A forma de implementação pode não ter sido a mais correcta e gerado custos desnecessários, mas a sua utilidade é indiscutível.

Da mesma forma, a população de Coimbra e concelhos vizinhos necessita também do Metro. E já se gastaram largos milhões de euros para preparar a sua chegada e com esta solução do governo estamos a voltar para trás. Isto é claramente uma solução errada, com uma visão apenas de curto médio prazo, diferente daquela que outro governo da mesma cor politica teve há cerca de uma década atrás. Mas isto nem tem a ver com cores politicas. Tem a ver com visão. Coimbra tem, para além do mesmo direito, a mesma potencialidade do Porto (para não comparar com Lisboa, que é outro tipo de metro). Basta estudar-se o “boom” do ramo imobiliário nas vilas ao redor de Coimbra por onde ia passar o Metro, quando as obras se iniciaram. É um pensamento lógico e compreensível: se eu posso comprar ou arrendar nos arredores de Coimbra, a um preço muito mais em conta, usando o Metro para em pouco tempo chegar à cidade, porque hei-de pagar mais para me mudar para a cidade? Isto pensando apenas nos ganhos económicos, sem ponderar sequer o afastamento da confusão da grande cidade, da poluição que por norma é maior nas cidades, etc, etc.

Possível percurso entre as estações Coimbra Parque (ramal da Lousã), Coimbra e Coimbra-B (Linha do Norte)

Em suma, para mim o bem estar das populações e o desenvolvimento sócio-económico da Região Centro, baseado num sistema de mobilidade eficaz e com capacidade para progredir é a única solução. E isso não se faz substituindo autocarros por autocarros. Faz-se com o metro de superfície. Pode custar mais agora, mas é mais fácil de rentabilizar e expandir depois. Para além de que parte das obras já estão feitas (por exemplo, há um enorme buraco na baixa da cidade, à espera que o metro por lá passe).  E é mais fácil de colocar o material circulante a partilhar a mesma via de trânsito com  os automóveis, pelo que não seria difícil fazer chegar o Metro da estação do Parque à estação de Coimbra e Coimbra-B, como era com o comboio. Eu obviamente usaria o Metro se pudesse vir de Coimbra-B, depois de viajar num Alfa Pendular ou Intercidades, para chegar a casa, se ele parasse na estação de São José. Estação essa que fica a metros do Estádio Cidade de Coimbra, Piscinas Municipais e Pavilhão Multiusos, pelo que o mesmo meio iria ser usado de certeza pelos fãs do desporto e cultura que visitam Coimbra para assistir a eventos nesses equipamentos municipais. E depois, a partir da estação de Coimbra (que passaria a ser intermodal), seria mais simples fazer a ligação com a baixa, com a zona mais central da cidade, a Universidade e com o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (Hospitais), como anteriormente projectado.

O que é que mudou desde o anterior projecto para o actual? A disponibilidade financeira. Então vamos colocar autocarros para daqui a uns anos nos arrependermos e voltarmos ao projecto do metro de superfície? Para mim não serve. Para mim o metro de superfície deve avançar já, pelo percurso onde, para já, é mais fácil de implementar. As populações destes concelhos do Centro precisam e merecem. Basta de centrar as melhores opções em Lisboa e Porto.

Crónica de João Cerveira
Este autor escreve em português, logo não adoptou o novo (des)acordo ortográfico de 1990

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