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Não tinhas o direito de me magoar

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Quando eu era pequena dormia sempre aconchegada com cinco ou seis peluches, bem juntos a mim, tinha que dormir com todos porque, achava que, se excluísse um só, o peluche ficaria triste, eu e mais seis peluches num quarto a abarrotar de mobília velha, com infiltrações de chuva, com uma janela de vidros partidos pelo vento, um quarto numa casa velha, um quarto numa casa escura. Os anos passaram e os peluches foram sendo substituídos por diários, livros, papeis com poemas escritos…demorei vinte e cinco anos a perceber o porquê dos meus actos nocturnos, eu não queria estar sozinha porque era exactamente isso que sentia…completamente sozinha e extraordinariamente desolada. Não tinhas o direito de me magoar e eu não tenho o dever de te perdoar. Sabes que…ok…é difícil escrever sobre isto…durante muitos anos eu senti-me culpada, senti que eu não era suficiente para ti, eu tinha seis anos e pensava que tinhas vergonha de mim…isso mesmo que acabaste de ler, vergonha da menina feia que nunca foi desejada, vergonha da menina que nasceu contra a tua vontade (o teu dinheiro que seria convertido num aborto não chegou a acontecer), vergonha da menina que só conheceste quase a completar um ano de idade, vergonha da menina cuja identidade ocultaste até seres descoberto…e agora eu pergunto-te: não tens vergonha? Não te sentes envergonhado por teres falhado miseravelmente naquele que tinha de ser o teu melhor papel? Consegues dormir tranquilamente sabendo que falhaste completamente o teu maior compromisso de vida? Tiveste trinta anos para te redimires do teu fracasso, eu tinha esperança que isso acontecesse um dia, dizem os velhos sábios que seremos melhores avós do que fomos pais, velhos loucos, os provérbios não encaixam em todas as pessoas. É tão triste, tão deplorável, eu só queria um colo porra, um colinho onde me sentisse segura, um colinho que me protegesse do bicho papão, mas afinal o bicho papão eras tu, és oco por dentro, não tens consciência nem sentimentos, não fazes a mínima ideia do que é o amor, só assim justifico a tua ausência na minha vida ao longo destes anos. Olho para outras famílias, famílias normais e felizes, e concluo, com muita tristeza, que a normalidade não fez parte da minha infância. Não venhas com discursos moralistas sobre a paternidade, não sabes ser pai, nunca soubeste e nunca saberás, e isso provocou graves sequelas emocionais em mim. Tiveste trinta anos para te redimires, para tentares compensar as tuas enormes falhas como progenitor, trinta anos, mas não tens mais nenhum dia…não te darei mais esse privilegio, acabou-se. Não tenciono procurar por ti e espero que continues a fazer de conta que eu não existo, não contes com nenhuma chamada telefónica minha nem nenhuma mensagem, se adoeceres não contes com o meu auxilio, se eu morrer não te quero no meu funeral, a tua presença vestido de preto não vai significar nada para quem tentou, ao longo da minha vida, sarar as feridas que tu causaste. Com a tua ausência ensinaste-me varias coisas: que não mereces as minhas lágrimas mas eu mereço paz no meu coração, a ter a certeza que sou suficiente, sobretudo para mim mesma e, independentemente de qualquer coisa que aconteça, que sou valiosa na vida dos que me amam, que não devo me contentar com metades porque na vida não há metades, ou ama-se ou não se ama, tão simples quanto isto, aprendi que sou, provavelmente, a pessoa mais intensa que conheço, que não tenho que me sentir culpada por não ter sido desejada e amada, aprendi especialmente que, tu não tinhas o direito de me magoar e eu não tenho o dever de te perdoar.

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