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Notas soltas sobre o significado da Páscoa

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Esta semana chega-se ao fim da caminhada cristão de preparação para a Páscoa.

Aproxima-se o dia da sua celebração, este ano no próximo Domingo, dia 16 de Abril.

Não costumamos questionar acerca da data móvel para a Páscoa, no entanto a discussão para se fixar um dia para esta festividade, em torno da Ressureição de Cristo, para os cristãos, já teria ocorrido no concílio de Nicéia, no ano de 325.

O Imperador Constatino teria imposto este concílio, e promovido por ele, com o objetivo principal de se estipular uma data para a celebração da Páscoa, que pudesse ser comum a todas as seitas cristãs existentes à época. O sentido desta data única seria o de universalizar o evento cristão para todos os crentes.

No entanto, o facto do dia da Ressureição de Cristo ter ocorrido por alturas da Páscoa judaica, tornaria complicado, ou mesmo inviável, que tal pudesse suceder.

A Páscoa judaica é calculada tendo por base as fases da Lua, e não se possuíam conhecimentos de astronomia suficientes para compatibilizar as fases lunares com o calendário juliano (calendário solar em vigor na época), que ainda assim também apresentava várias imprecisões.
A data de celebração da Páscoa cristã acabou então por permanecer móvel, e ter por base também a sinalização das fases da Lua, mas pela sua relação com o Equinócio de Primavera (no Hemisfério Norte).

Assim ficou definido neste concílio, e assim se mantém, que a Páscoa seria celebrada num Domingo (Dia do Sol ou Dia do Senhor, consoante a terminologia de origem anglosaxónica ou do latim), numa clara tentativa de dissociação do Sábado (Dia de Saturno), símbolo do dia sagrado dos judeus, substituindo-o pelo Domingo; por outro lado, a separação é clara, ainda que com um significado de fundo comum – o da libertação e da renovação, entre a Páscoa judaica que simboliza a passagem, sinalizando a libertação do povo judeu do Egipto e a sua travessia, e a Páscoa cristã, que assinala a Ressureição de Cristo, após a sua crucificação e morte.

Por outro lado, ficou decidido que este Domingo, que por si só faz uma reverência clara ao Sol ou ao Senhor, Cristo, seria, e é, o primeiro Domingo após a primeira Lua Cheia depois do Equinócio de Março.
Carregada de um simbolismo profundo, há um confluir do paganismo e do cristinanismo nesta festividade, sendo que até mesmo as tradições unem aspetos de ambas as correntes ou credos.

Óbvia é a associação da celebração cristã – a Páscoa, a Ressureição de Cristo, à celebração pagã, quer pela escolha da Lua Cheia, quer pela sua relação o Equinócio de Março, celebração pagã do sabbat de Ostara ou do Equinócio da Primavera no Hemisfério Norte, onde os pagãos reverenciavam a deusa Ostara (ou Ostera), e donde vêm precisamente os símbolos ainda hoje vistos por alturas da Páscoa, como coelhos (na Antiga Tradição, lebres) e ovos pintados, numa clara alusão aos símbolos do ritual pagão de celebração de Ostara.

Na época do concílio, por incapacidade de determinação com precisão da data do Equinócio, passou-se a designar o dia 21 de Março como o começo da Primavera, no Hemisfério Norte, e do Outono, no Hemisfério Sul.

Hoje sabemos que o Equinócio de Março ocorre em torno desta data, podendo ser a 21 ou a 20 de Março.
Os erros derivados destas imprecisões e das muitas falhas do calendário juliano, sucederam-se, dando origem a um acúmulo de novos erros. Só muito mais tarde se conseguiu “acertar o passo”, com o calendário gregoriano, este por sua vez, elaborado sob a tutela de Christopher Clavius, matemático, no ano de 1582 d. C., durante o pontificado de Gregório XIII.

Nesta reforma, depois de muitos acertos, foi também determinado que uma regra adicional para fixar a data da Páscoa seria a de que ela teria de ocorrer entre o dia 22 de Março e o dia 25 de Abril, sendo dentro desta desta “janela” que ela ocorre necessariamente.

Pode ler-se: “A Páscoa ocorre no 1º Domingo após a Lua Cheia Eclesiástica (13 dias após a Lua Nova Eclesiástica, definida segundo o ciclo metónico – de Meton, astrónomo grego), que ocorre após ou no Equinócio da Primavera Eclesiástica – 21 de Março; caso o dia assim definido esteja para lá do dia 25 de Abril, a Páscoa ocorre no Domingo anterior; caso a Lua Cheia Eclesiástica ocorra no dia 21 de Março, e esse dia seja domingo, a Páscoa será no dia 25 de Abril.”

Não foi desde logo que todos os países aceitaram o calendário gregoriano e estas regras, mas, aos poucos e com o tempo, ele passou a ser adotado em largo consenso.

Se a Páscoa cristã dá conta da ressurreição de Cristo Jesus, sendo a maior festa dos cristãos pela significado imenso para que isso remete, ela usa de costumes pagãos, no entanto, intimamente ligados aos festivais da Antiga Tradição ou da Velha Arte, relativos à Primavera.

É a fertilidade que na verdade está associada a Ostara, a imagem da lebre, mais tarde transformada em coelho, remete para um símbolo de fertilidade, enquanto que os ovos pintados com cores brilhantes, representam a luz solar, e são dados como presentes.

Numa analogia livre, mesmo os jogos que escondiam os ovos pintados na terra, para depois serem descobertos, remetem para a luz solar “capturada” no interior da terra e a sua revelação através das flores e das cores da Primavera. A sua libertação.

Na verdade também a ressureição cristã remete para um mesmo significado, a libertação da morte, vencer a morte porque ela não existe – é esta a mensagem mais importante na Ressureição de Cristo, para os cristãos.

Daqui derivam muitos outros significados, de acordo com várias filosofias e correntes, diferentes entre si, e mesmo dentre as religiões cristãs, há o que é comum, e as suas diferenças.
Por outro lado, no paganismo, os ovos da Páscoa, símbolos sempre presentes, remetem para a fertilidade das deusas lunares.

Repare-se que se voltarmos no tempo à Idade Média, lembrando o antigo paganismo da Europa dos celtas de algumas zonas da Grã-Bretanha, encontramos no termo em inglês para Páscoa – Easter, ou em alemão – Ostern, uma deriva direta de Esther, de Ostera, ou seja a festa do Equinócio da Primavera, que, para estes povos, é só uma e a mesma coisa.

Também no Pessach, ou Passagem, da Páscoa judaica, encontramos a celebração do êxodo dos judeus, a fuga do Egipto e da escravidão em que vivia este povo. Esta passagem, é também uma libertação, um ritual de passagem, que, de certa forma, vai ao encontro do que no Cristianismo se encontra, a libertação de Cristo, da morte para a vida, a libertação do espírito das amarras da servidão do corpo. Um ritual de passagem.

Ainda de volta ao paganismo, Ostara, Esther, Ishtar, Astarte, são os vários nomes para a deusa da fertilidade do paganismo, que remetem sempre nesta época para a fertilidade e renascimento.

Isto é comum à mitologia anglo-saxónica, mitologia nórdica e germânica.
Nuns casos o Equinócio é a festividade que coincide com Ostara, o festival ou shabbat pagãos, a 21 de Março no Hemisfério Norte.

Noutros casos, como para os antigos povos nórdicos, o festival de Eostre no dia 30 de Março.
Se no primeiro caso, Ostara é a deusa da fertilidade e do renascimento, no segundo caso, Eostre é a deusa da Aurora, remetendo diretamente para Vénus, o planeta, e o simbolismo a ele associado, essencialmente o do Amor.

Ela é a deusa teutônica que representa a Primavera e o renascimento, e, de certa forma, Ressureição. É na verdade a ela que se deve o festival ou shabbat de Ostara, na sua designação e ritual associado.
O forte simbolismo da mitologia pagã é claramente incorporado posteriormente pelas religiões cristãs, até aos dias de hoje.

Assim, percebemos que desde o paganismo, passando pelo judaísmo, e indo ao encontro do cristianismo, a verdade é que a Páscoa é uma caminhada simbólica que visa um renascimento e renovação do Eu.
Simboliza de certa forma, a libertação espiritual de cada um e de cada uma de nós.

Aproveitemos pois esta época para preparar a nossa caminhada interior, para, independentemente das crenças de cada um, ser possível encontrar um espaço que convide ao encontro connosco mesmos, mesmo por entre o tumulto do mundo, e até por isso mesmo.

Tal como os cristãos celebram “no fora” a semana que começou no passado Domingo, Domingo de Ramos,até ao Calvário, na noite de Quinta feira, e a Crucificação, na Sexta feira, para depois haver “Aleluia”, a partir de Sábado pelo meio dia, passando pela Vígilia Pascal nessa noite, onde muitos adultos se baptizam pela água, nas Igrejas, e até ao Domingo de Páscoa, também o devem celebrar interiormente, reflectindo naquilo que possa ser a sua própria Cruz e o sue próprio renascimento.

A Ressureição de Cristo tem de ser vivida dentro dos corações daqueles que profetizam esta fé.
Mas, também todos aqueles que não necessitam desta imagem humana de Cristo, ou de um qualquer credo que o sustente, podem sentir de igual forma, esta necessidade de renovação interior, com eco no mundo.

Também o momento é apropriado para uma profunda reflexão e interiorização para todos, sem distinção de credo ou confissão, ou a ausência dela.

É apropriado o momento para vivenciar uma experiência espiritual de morte e renascimento, no sentido da libertação daquilo que de alguma forma nos aprisiona, no sentido da renovação de nós mesmos.
Procuremos num ou noutro momento nos próximos dias, a vivência da paz e do silêncio, para que a Páscoa não seja apenas uma tradição desprovida de sentido, um almoço ou jantar cheio de tudo o que é efémero, e nada voltado para as realidades interiores mais profundas, nem para a experiência interna do renascimento.

Bastam uns momentos neste caminho, e são eles que podem fazer toda a diferença, em nós, e nos outros à nossa volta.

Momentos de encontro connosco mesmos, momentos de encontro com o Eu no mundo, renovação; momentos para sentir fé e credos de cada um e de cada uma, e vivenciar aquilo em que se acredita no quotidiano, aplicando-o nas nossas vidas.

A palavra chave é renovar, renascer, vencer as dores do corpo e alcançar a luz espiritual.
Tenham uma Boa Páscoa.

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