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O Cinismo em Rede

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Em um determinado episódio da série The Big Bang Theory, um personagem precisa lidar com o fato de que iniciará um relacionamento a distância. Seus amigos tentam o ajudar, mostrando aparatos tecnológicos que poderiam “encurtar” a distância, e terminam por mostrar um objeto em que cada pessoa insere sua língua e um consegue sentir os movimentos do outro, simulando um beijo de língua. Para testar o equipamento, dois amigos heterossexuais o experimentam e trocam beijos “virtuais”, enquanto pedem “mais língua” ou “menos força”. O humor, evidentemente anunciado pelas risadas artificias de “plateia” presentes no show, está no fato de que o ato deveria ser percebido como homossexual, mas o dispositivo permite que nenhum dos dois “note” isso.

Esse caso serve como perfeito exemplo do modo como o falso cinismo ou a ausência de se manifestam nas redes sociais, como a rede permite uma elasticidade de definições que se moldarão a partir do objetivo do discurso nela enunciado, e a relevância política disso.

Pense no caso de um namorado que troca mensagens de Whatsapp com sua parceira de modo monossilábico e passivo-agressivo, tratando-a do modo que ele realmente gostaria na “vida real”. Agora imagine o que os dois amigos do episódio de The Big Bang Theory responderiam se os “acusassem” de engajarem em um ato homossexual. É provável que eles diriam que seus atos não passam de um uso de um aparato que é bobo, irrelevante, a estrutura por meio do qual agiram nulifica o ato pois ela é intrinsicamente falsa, capaz de proporcionar apenas simulações despidas de significados. O namorado poderia refugiar-se atrás dessa mesma desculpa, alegando que as mensagens não carregam peso nenhum porque o Whatsapp não passa de uma imitação de uma conversa real. Por mais que isso seja verdade, essa definição só será usada quando for conveniente para o enunciador do discurso, uma vez que é impossível imaginar o namorado negando fotos de sua namorada nua por crer que as fotos seriam “apenas uma representação falsa do que seu corpo é na vida real”. As redes sociais são flexivelmente definidas, e configuram-se como um campo único de comunicações justamente por esse motivo, dado que apesar de existirem imensas críticas à linguagem falada ou escrita (“você pode saber o que falou, mas jamais o que o outro escutou[1]”), não é de forma alguma consenso que um discurso pode ser completamente descartado por ser expresso em um desses meios. Ela reside em uma área cinza entre artificialidade e realidade, podendo ser posta em um lado diferente dependendo da situação. O caso do falso cinismo ocorre também de modo inverso, com frequência muito maior.

Respondendo a uma espécie de Big Brother (ou o que Lacan chamaria de Grande Outro), já que o ato não tem relevância nenhuma, não existe para enunciar nada, apenas para permitir que o enunciador atribua nova definição para si, um homem compartilha um post sobre feminismo em seu Facebook, supostamente para defender a causa publicamente. Na verdade, seu objetivo é mostrar que, já que compartilha algo contra o machismo, não pode possuir essas características[2], não pode ser machista. Independentemente das ações desse homem, se ele agrediu mulheres ou age de modo machista, ele está “protegido” do reconhecimento desse ato, se ele considerar que esse meio é um local válido de enunciação de verdades e discursos. Algo que ele definitivamente fará pois se beneficia dessa caracterização. É o inverso do caso do namorado. Retomando o caso de The Big Bang Theory, é como se os amigos tivessem mostrado um aparato que uma pessoa insere seu pênis e a pessoa com outro dispositivo o sentisse dentro de si e ambas alegassem que desse modo fizeram sexo. Não houve nenhum contato físico, ejaculação ou penetração humana, mas partindo da ideia de que o dispositivo é um meio válido de se fazer sexo, ambos podem alegar que de fato transaram. Isso é muito usado por pessoas que consideram-se ativistas políticos porque praticam um “vomitaço”[3] na página do Facebook do presidente, ou compartilham imagens de páginas políticas, e é aí que aparece o aspecto mais pernicioso da volatilidade da rede. A ausência de cinismo ou o tratamento delas como algo sério, relevante, concreto e real, beneficia tanto a ordem a ser criticada (posto que ela é exercida na realidade concreta) e a parcela da esquerda que hoje é protagonista, a politicamente correta (pois gastarão tempo discutindo online entre si, para apropriadamente elucidar os conceitos de lugar de fala e apropriação cultural por exemplo – lembremos do evento mais mal-analisado do ano, por ter sido imediatamente compartilhado milhares de vezes por esse grupo, seguido de breves e simplórias condenações: o dia do “se nada der certo” em uma escola gaúcha, na qual estudantes vestiram-se como garis, empregadas, funcionários do Mc Donalds e afins. Não se espera, de uma análise política de esquerda, críticas rasas como simples condenações e xingamentos ao jovens. Espera-se que seja notado que o evento promovido pelos jovens exprime uma trágica realidade social. De fato, se absolutamente tudo der errado na vida de estudantes de colégios particulares, eles terão empregos que são sonhos para grandes parcelas da população. É um dos mais claros exemplos do fenômeno da “lógica do condomínio[4]” e dos dois “Brasis[5]”. Compartilhar uma notícia que relate o evento juntamente com um comentário como “nojento!” é algo banal e só pode ser tratado como minimamente político a partir da definição da rede como espaço legítimo de manifestação e ação política).

Desse modo, com a força que se diz transformadora agindo virtualmente, a ordem política está bem assegurada. Tudo indica que as redes assumirão cada vez mais esse papel de relevância, apesar de isso não anular a validade da afirmação de que elas não o são (porque, no fundo, essa é a realidade) e, portanto, continuará a existir como recurso para a vaidade e manipulação e, com o conforto que traz ao narcisismo humano, não é difícil entender porque.

 

[1] Jacques Lacan

[2] Foucault dizia que os homens construiram o hospício para mostrar que o fato de não estarem nele comprova sua sanidade.

[3] https://www.tecmundo.com.br/facebook/104726-brasileiros-vomitaco-pagina-pmdb-facebook.htm

[4] Christian Dunker, Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma

[5] http://educador.brasilescola.uol.com.br/trabalho-docente/dois-brasis-exclusao-social.htm

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