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A obra- prima imperfeita – Francisco Capelo

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Convenhamos que não é o “caldo” preferível. Aliando uma timidez (quase) congénita, uma voz não mais que suspiro, e um dedilhar de guitarra practicamente ridículo, Mark Knopfler tinha tudo para “dar errado”. Mas, no entanto, e no culminar de uma (muito) longa viagem/ aventura musical, a bordo dos eternos Dire Straits, o monumento está lá, e o seu fiel escudeiro também.

Sancho Pança – ou seja, “Alchemy” – é um hino à melodia mais pura, um calmante (este sim) 100% natural. Um disco ao vivo em que o ritmo das músicas é inteiramente respeitado, não interessando o tempo que se leve para que isso aconteça. Não é Mozart, mas francamente, para a pop já é muito bom, sim senhor.

Quanto ao álbum- monumento, ele veio logo a seguir e chama-se “Brothers in arms”.

“So far away”, “Money for nothing”, “Walk of life”, “Your latest trick” e “Why worry” abrem as hostilidades, formando um quinteto melódico extraordinário, uma torre sónica só comparável ao início de “Joshua tree” dos U2, ou “Strangeways here we come” dos Smiths, ou qualquer um dos álbuns dos Doors do Rei Lagarto Jim Morrison.

Laivos de country, algum folk lá no meio, em discretos rifs. A seguir, “Ride across the river” ainda aguenta o barco, enquanto “The man´s too strong” é muito sólido, aparte um início algo titubeante e demasiado ambíguo.

E é aqui que se dá um autêntico milagre. A imperfeição absoluta num conjunto de músicas quase inatacável.

“One world” é, neste contexto, um “Bacalhau quer alho” metido a martelo numa sinfonia de Beethoven, uma verdadeira desgraça ambulante, onde quer que fosse incluída no disco. Enfim, para esquecer.

E, quando já toda a malta esperava que a última canção apenas fosse comprovar este tardio desvario – sobretudo ante tão glorioso início – dá-se a luz. Uma luz tão intensa e tão devastadoramente bela, que o seu extraordinário impacto é algo devedor da imprecisão e devaneio destrutivo da música anterior.

Alguém disse uma vez que o primeiro disco dos Stone Roses é perfeito. Eu diria que “Brothers in arms” não é música; é perfeição.

Portanto, se queremos entrar no céu pela porta da frente, devemos fazer uma de três coisas antes de bater as botas:

. Ouvir Charlie Parker – The Bird

. Chorar à chuva

. Sentir “Brothers in arms”

Música com as notas certas, no sítio certo, no momento certo.

E, quando é assim, as coisas fazem realmente sentido.

 

FranciscoCapeloLogoCrónica de Francisco Capelo
O Suspeito do Costume
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