Últimas Crónicas

A passagem dos foliões

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Agachei-me e escondido fiquei à espera, de me aperceber passar alguém, sobre quem me apetecesse despejar um balde cheio de água pela cabeça abaixo.

Quatro da tarde e, contrariando a previsão da meteorologia que anunciava sol para os próximos dez dias, vejo passar algumas pessoas encharcadas, como se as tivesse apanhado um tufão que só por sorte as não fez voar para um dos arquipélagos da zona das Caraíbas. Bem diante dos meus olhos, passavam alegres, desfrutando do prazer do Carnaval, como se nalguns tivesse triplicado o efeito das garrafas de cerveja bebida que transportavam na mão. Os mais divertidos, cantavam, dançavam e riam, como se do meio da rua ouvissem um som de samba posto a tocar na aparelhagem de um dos moradores meus vizinhos que gostavam de dar música ao bairro.

Redobrando de atenção ao grupo composto por uma dúzia de elementos de ambos os sexos, fixei os olhos numa mulher madura de cerca de quarenta anos, porque sendo a única da trupe que não seguia mascarada, era aquela em quem assentaria perfeitamente que nem uma luva, um disfarce que a fizesse parecer mais nova. Reparei por trás que trazia as calças rotas no rabo, e pensei que não ser atraente de costas, só surpreenderia quem a não tivesse visto aproximar-se de frente, já que não apresentava as feições tão bonitas como provavelmente antes de ter o peito flácido, como se trouxesse argolas pendentes nos mamilos que os faziam ficar demasiados pesados.

Depois observei-os a afastarem-se e animou-me a esperança de que, quando as vozes se tornassem inaudíveis, nas notas mal reproduzidas pelas suas vozes, ninguém se tivesse inspirado para vir a compor uma nova canção. Eu próprio senti-me triste e desviei o olhar daquela mulher, ao não me recordar de alguma vez alguma, mesmo sem estar interessada, me ter olhado da maneira que fiz, passando a apreciar-lhe diretamente o rabo. Talvez por nunca nenhuma ter enxergado a criatura por de trás do rapaz simplório, que apresentava agora dezanove anos, penteado de maneira em que teria mais a ganhar se passasse a andar de chapéu.

Debrucei-me no varandim, sobre o parapeito, atentamente como se espreitasse na saliência de um precipício, e avistei um sujeito de voz de barítono, que falava alto como se quisesse espalhar o som pela rua para nos fazer acreditar que estava presente em todo o lado ao mesmo tempo. Não vinha mascarado de nenhum animal, mas apeteceu-me chamar-lhe urso por àquela hora ainda poder acordar algum bebé que estivesse a dormir a sesta.

Era alto e de ar possante. Apostava em como enchendo o peito de ar, seria como um saxofonista que de um único sopro seria capaz de tocar todas as notas de uma partitura. Vinha acompanhado de um parceiro que, quase ao ouvido, devia estar-lhe a pedir-lhe que se calasse, falando mais baixo com receio de ele reproduzir as palavras que dissesse. No entanto, deixou-o ainda mais maldisposto e a falar tão alto que, para melhorar-lhe a disposição, só lhe pedisse que não se calasse, iludindo-o com a falsa sensação de que as pessoas em casa deviam estar a gostar de ouvi-lo.

Assomou à janela de um edifício vetusto, uma senhora velhinha exigindo silêncio. Ameaçou-os atirar-lhes em cima dois baldes de água gelada se não se calassem prontamente, tendo estes protestado como se em cima ela já lhes tivesse atirado quatro. Gerou-se uma violentíssima discussão que bem podia ter acontecido previamente à passagem dos primeiros foliões, que talvez os tivesse de passar à minha porta, arrancando do canteiro da entrada as rosas de diversas cores que deviam fazer dele um exemplo a seguir por todos os administradores de condomínio das redondezas que se prezassem de executar bem as suas funções.

Pena foi naquele momento não ter uma substância que, diluída na água, lhe desse o cheiro pestilento de uma coisa apodrecida num charco ao sol, para despejar sobre quem, pensando não se ter ferido num espinho, já julgava estar a salvo. E quase arrancando o balde da mão, jogá-la-ia com tanta força, que haveriam de parecer ter sido fustigadas por uma tempestade, as restantes flores que podiam ter escapado ao roubo, mas não à fúria devastadora de quem fez tudo o que estava ao seu alcance para protegê-las.

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