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Phileas Fogg e o fiel Passepartou na volta ao mundo em 80 dias

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Àquela hora, se Passepartout não tivesse perdido o dinheiro que lhe dei, enfiando-o nalgum bolso das calças roto, já teria adquirido os bilhetes que nos permitiriam nessa noite embarcar no expresso que ligava Calcutá à região de Yunan na China, atravessando o vasto território de Myanmar.

Dono de uma tenacidade de valor inestimável, em diversas situações de perigo revelara uma capacidade de improvisar soluções que até a mim, um homem mais experimentado e vivido, causava admiração. Com a minha fortuna, tive ao longo da vida criados que me serviram com lealdade, mas jamais um tão diligente como este jovem francês que a todos os meus pedidos respondia sempre que sim, sem nunca perguntar sequer o que recebia em troca.

A partir do norte, descêramos numa embarcação não maior do que uma casca de noz, com um mastro central e uma vela, o rio Ganges, que nalgumas zonas se torna num rio sinuoso com mais curvas apertadas do que os inúmeros afluentes que a ele iam desaguar, com a força da descarga dos seus biliões de metros cúbicos de água no oceano. Depois, de elefante completámos essa etapa da viagem, que começou com o resgate, das mãos de uma tribo de religiosos sanguinários, de uma bela jovem que haveria de mudar a minha vida para sempre.

O seu nome é Aouda, que nalgum dialeto local, deve querer dizer o mesmo que na Língua Inglesa a palavra beautiful. Não me chame eu Phileas Fogg ou perca já a possibilidade de ganhar as quatro mil libras que, em troca das minhas vinte mil, apostei no Reform Club em como conseguia completar uma volta ao mundo em oitenta dias, se me recordo de algum dia me ter cruzado com uma mulher que me tivesse causado tão boa impressão. Estava atada num altar e ultimavam-se os preparativos para sacrificar-lhe a vida, em honra de uma divindade que pelos humanos não nutria a mesma admiração que impedi-los-ia de se comportarem de modo infantil e continuarem a sacrificar-se uns aos outros só pelo facto de lhe agradar.

Ao lado dela, dois companheiros de infortúnio também estavam de pés e mão amarrados. Eram eles um jovem persa de nome impronunciável e Sir Francis, descendente de nobres ingleses, que na ânsia de abrir caminho à paulada para podermos escapar, deve ter deixado em tão mau estado a cabeça dos primeiros indígenas que se atreveram a fazer-nos frente, que em pouco tempo, os que continuaram a perseguir-nos, vendo no estado em que ficaram os companheiros, foram diminuindo de número, até serem tão poucos que até Aouda usando apenas a minha bengala conseguiria derrotar.

Salvamo-los ateando um pequeno incêndio no mato, para onde convergiram com recipientes e água para apagá-lo antes que se propagasse à zona das palhotas, onde mulheres de braços no ar e crianças assustadas, ainda mais contribuíam como fator de distração para ninguém prestar atenção à zona dos prisioneiros, que para nós tinha ficado livre de obstáculos. Aproveitando o ensejo que podia durar escassos minutos, corremos a cortar com as nossas facas afiadas, as cordas aos três cativos, tão apertadas que os impediriam de mexer-se mesmo se por alguma mudança repentina do vento as chamas passassem a avançar na sua direção. Todavia, mal fomos avistados pelos primeiros indígenas a darem pela falta dos prisioneiros, foi dado o alerta geral e tivemos de fugir, empregando as nossas restantes forças, na direção oposta àquela de onde vinham os indígenas que nos incitavam a correr com os seus gritos de guerra, acompanhados de algazarra e do arremesso de lanças que, felizmente para nós, atiravam sem parar para melhor fazerem pontaria ao alvo.

Só parámos para descansar quando saltámos para o interior do barco alugado a um mercador egípcio, que pusemos imediatamente em movimento. Sem esperar que o vento pudesse soprar na vela recolhida à espera de ser desfraldada, Passepartout e eu pegámos num par de remos e à pressa fomos para o meio do rio, de leito alargado naquela zona, pondo-nos a salvo de sermos facilmente reconhecíveis a partir da margem, mesmo por amigos que de nós estivessem propositadamente à espera só para dizer adeus.

Tínhamos resolvido dar um passeio depois de almoço, embrenhando-nos na mata para desentorpecer as pernas, engelhadas de virmos a navegar há mais horas seguidas do que as que eu pensava aguentar sentado, quando deparámos com a cerimónia macabra a que pusemos fim arriscando a própria vida, mas ao invés de estar arrependido, sentia mais vivo do que nunca e de forças e ânimo renovados para encarar algum olhar de reprovação da sociedade londrina quando regressasse a casa e anunciasse o casamento com uma mulher indiana cujo maior tesouro residia no facto de ser belíssima.

Ela e eu tínhamos almoçado já. Sentia-se que estávamos em Dezembro com o corte de algumas estradas inundadas pela chuva repentina. No hotel onde fiz reserva para podermos descansar sem receio de nos algum desses garotos de rua nos roubar a bagagem, fora-nos servido rosbife muitíssimo bem confecionado, cozinhado à maneira de quem deve ter aprendido a fazê-lo no melhor restaurante londrino.

Não sabia explicar por quê, mas sentia-me perseguido, embora sem nenhuma espécie de culpa ou remorso que motivasse alguém perder o seu valioso tempo, vindo atrás de mim. Para mais, de tão longe. Dei por mim em Alexandria, a ser espiado por um sujeito magro de bigode fino e cabelo escovado liso, chamado Fix, que não gostaria de ter ao meu serviço, não só por achá-lo indiscreto, mas também para não me sentir no dever de ter de levá-lo comigo para todo o lado. Por intermédio dos conhecimentos que fez enquanto lá estivemos durante a escala do nosso navio em que percorremos depois o canal do Suez, Passepartout veio a saber que era um inspetor britânico de férias mas que devia estar ao serviço da Scotland Yard.

Era o posto de Sir Francis, que mantinha a compostura mesmo quando desatava à paulada em quem, se abrisse a boca para criticá-lo, o máximo que podia dizer era que estava despenteado ou tinha a bainha da camisa desfraldada. De roupa branca largueirona e turbante na cabeça, Fix era ainda mais deselegante, metido no papel desagradável de um árabe que seguia todos os meus passos, como se quisesse copiar-me os movimentos para não parecer tão desajustado. Da varanda do restaurante onde almoçámos uma deliciosa Tagine de Frango, através das cortinas cerradas, apanhei-o em flagrante observando Passepartout e depois tirar apontamentos num caderninho onde eu gostaria que registasse o dia e a hora em que estávamos, não fosse eu esquecer-me de mencioná-los no dia em que, a um amigo meu que chefiava um departamento no edifício-sede da polícia em Londres, eu formalizasse uma queixa por aquele mau comportamento, que considerava a todos os títulos reprovável.

Que me achava parecido com alguém, e depois seguiu-se a expressão assalto ao Banco de Inglaterra. Foi o que o meu fiel escudeiro francês escutou da boca do mercador de tecidos sírio que lhe vendera a roupa, e me veio contar sem perdas de tempo, como se pelo simples facto de saber, eu pudesse passar a dormir mais descansado. E de passagem por Deli, parecera-me também vê-lo. Na altura em que a sair de uma carruagem, Passepartout me ajudava a descarregar as malas, que por serem maior número do que as de um viajante normal que seguisse na companhia do criado, não significava, de todo, que desejássemos permanecer mais do que um par de horas.

E por falar em Passepartout, chegou mas não vem, como se costuma dizer, com cara de bons amigos. Na dúvida vou perguntar-lhe mas das duas, uma: só pode ser porque não conseguiu as passagens de comboio necessárias para chegarmos à China no prazo estipulado por mim dentro de dias ou porque viu novamente aquele sujeito desprezível que me anda a perseguir … a mim, a ele ou a ambos.

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