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Podem ficar com Lisboa, mas Olivença é nossa

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Foi aos brados dos populares na rua, de “Abaixo os espanhóis” e “Viva El Rei o Duque de Bragança”, que Pilar acordou do sono ligeiro na tarde daquele primeiro dia de dezembro em que, do lado português em direção à fronteira com Espanha, começou a soprar um vento forte que podia ser o advento da passagem de uma simples tempestade à categoria de tornado.

Era um vento de mudança, preconizado pelos nobres apoiados pelo Clero, que estavam descontentes com a perda de regalias que se vinha acentuando nos anos mais recentes da governação em território nacional, de um monarca estrangeiro.

Afortunadamente bela, em Pilar, com o passar dos anos, mantinha-se acesa a chama que tem o condão de, em direção a uma mulher, fazer desviar a atenção de qualquer homem que por ela passe. Pilar nascera há precisamente vinte e três anos, quatro meses e dezoito dias, num lugar da raia do lado espanhol chamado Salvatierra de los Barros, ao qual só voltavam as mulheres, que saíam para casar com homens que se alistavam no exército e que queriam ver nascer os filhos num lugar pacífico, onde sobretudo aos meninos não chegassem as notícias da guerra, para que estes quando crescessem não se sentissem tentados a seguir as pisadas do pai.

Pilar era extraordinariamente bonita e, por isso, precavendo a possibilidade de por ela outros rapazes se enamorarem, o pai tratou de casá-la cedo com o filho de um lavrador rico, de quem não constava que tivesse alguma vez namorado, não por ser tão feio que nunca por ele se tivesse interessado nem sequer a namorada do amigo mais antipático de quem já pudesse estar farta, mas sim por não apreciar nas mulheres aquilo em que elas eram diferentes e ao mesmo tempo as tornava irresistíveis aos olhos dos homens.

Chamava-se Paco e era à vista de Pilar, um menino, embora fosse uma dúzia de anos mais velho do que ela. Era um sujeito carrancudo, de poucas palavras, que ao invés de amá-la se comportava de modo indiferente, pelo que até “Na cama com um homem que não gostava de mulheres”, daria um bom título para uma biografia a seu respeito que, nem pela mão de escritor mais profícuo haveria de ocupar mais de duas páginas.

Menos versado do que ela nos assuntos do amor, Paco sentia-se desde o primeiro dia a sós com Pilar, desconfortável, de cada vez que a jovem esposa lhe pedia à noite que se deitasse ao seu lado e, em lugar de pegar na aba dos lençóis de algodão para tapá-la do frio, lhe cobrisse de beijos o corpo que há muito pedia para ser saciado. Ainda namoravam, a futura esposa quase o surpreendeu acariciando a mão de um dos empregados mais novos da quinta, que para se livrar da fama de dormir com outros homens, não ajudava andar a lançar olhinhos ao patrão, como se fosse ele a primeira pessoa nos braços de quem desejasse acordar de manhã, quando ia deitar-se à noite sozinho com vontade de fazer amor.

À sombra de um casamento de conveniência, Pilar tinha-se tornado numa mulher rica, mas tão triste no domínio caseiro, que no capítulo da infelicidade achava que só podia concorrer consigo, alguma viúva que há mais tempo do que ela à espera para perder a virgindade, andasse com vontade de pôr em prática no aspeto sexual o, alguma fantasia que com o marido, entretanto falecido, não tivera oportunidade de fazer.

Mas apesar de no campo sexual a sua vida ser um desastre, Pilar continuava a ser uma mulher bonita. Irradiava simpatia para todos os que a viam e isso era propenso a que ganhassem confiança os homens solteiros a quem, quando ela a par de um sorriso dispensava um dois dedos de conversa, incutia confiança, como se à sua simples passagem se acendesse dentro de cada um, uma secreta esperança de um dia, de corpo e alma, vir a conquistá-la.

Um dia, cansado de abastecer de cenouras e alfaces as tropas leais ao Rei D. Filipe, entrou-lhe o marido em casa e contou que era seu desejo alistar-se no exército de Sua Majestade. E dias mais tarde, ela foi despedir-se dele ao adro da Igreja, partindo na dianteira daqueles a quem o comandante de um batalhão destacara para ir até uma praça no norte de África, onde combatiam os mouros, soldados de tantos países quantos aqueles de onde os antecessores desses soldados que professavam o Islamismo muitos anos antes tinham sido expulsos.

Ao início, sentindo-sozinha, Pilar foi acometida de uma sensação de perda e sentiu-se desgostosa, e só lhe causava consolo saber que menos doloroso do que vir a morrer atingido por uma lança nas costas, seria o esposo poder vir a falecer deitado numa cama se contraísse uma doença daquelas esquisitas de que, em sua opinião, vinham contaminadas todos os homens, mulheres e crianças que atravessavam o Mediterrâneo em direção ao continente europeu.

Só o com o passar o tempo, a sua disposição foi melhorando e, no espaço de poucos meses, foi vê-la, ao invés de definhar com saudades do marido, sentir-se feliz e apenas guardar do desafortunado esposo talvez ferido num campo de batalha, a lembrança de um homem, do qual, devido à fama de homossexualidade que alguém se lembrara de espalhar, já não se importava de estar tão distante, só para não poder ser por ninguém associada à ideia de que eram casados.

Por essa altura, o que mais a preocupava era manter-se virgem. Nos dois anos de vida em comum, com o marido, que jamais vira despido, não mantivera qualquer espécie de relação sexual e dos escassos beijos trocados, não guardava tão boas lembranças que a fizessem sentir-se enlevada, ao ponto de sentir grande diferença quando logo após despertava para a realidade e voltava a assentar os pés no chão.

Já equacionara seriamente quebrar a tradição familiar de as mulheres não traírem os maridos, mas lamentava-se às amigas dizendo que não valia a pena, nem que fosse por umas horas, trocar o marido a quem podiam arrancar a cabeça, por alguém que a tivesse ainda no lugar mas de dentro dela tivessem arrancado o cérebro.

Entre os possíveis pretendentes, contavam-se o ferreiro da aldeia que punha nos animais ferraduras feitas por medida, como se estivesse a calçá-los para não fazerem má figura quando andassem ao lado dos donos; o dono de uma estalagem onde de manhã ninguém conseguia pregar olho por causa do barulho estridente que partia do lado da oficina do ferreiro; e um tocador de harpa que passava a maior parte do tempo a viajar, como se nos sítios que frequentasse o quisessem só pelo tempo que demorava a perceber que afinal passavam muito melhor sem ele.

Depois disso, Pilar foi viver para a vila de Olivença, situada do outro lado da fronteira, onde portugueses e espanhóis conviviam pacificamente, indo trabalhar como mulher-a-dias em casa de uma cortesã rica com casa na província, a quem, por causa da total ausência de notícias do marido, mentiu, dizendo que era solteira e andava desejosa de encontrar um noivo que, em troca de lhe dar guarida, não fosse na cozinha na cozinha que a quisesse enfiar para fazer comida ou passar-lhe a roupa a ferro.

Só quando ouviu espalharem-se na rua os rumores dos revoltosos que pretendiam devolver a independência a Portugal, é que por breves instantes desejou estar na companhia do esposo de má memória, que para livrá-la do perigo, apesar de uma masculinidade duvidosa, arranjaria maneira de barrar-lhes a entrada e impedir que entrassem em casa para atacá-los e levar à força os bens mais valiosos que tivessem.

Foi um pouco antes de já com as portadas das janelas corridas, ter ouvido um homem com sotaque castelhano na voz de um sexagenário gritar aos que apelidava de arruaceiros: “Se querem ser independentes, fiquem com Lisboa de volta … mas Olivença, essa, continua a ser nossa!”.

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