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Raspadinha em Raspadinha, enche o Ricardito o papo… (Ou não!)

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O facto de se estar desempregado, origina a que nos tornemos em pessoas negativas, pessimistas que simplesmente odeiam o mundo. E isso, infelizmente, leva a duas coisas; à depressão, ou ao isolamento em casa. Eu, graças a Deus, opto apenas por ser um bicho-do-mato, isolando-me em casa e deixando a barba crescer até me tornar num homem de Neanderthal — o que, muito provavelmente, é a razão por que as pessoas evitam visitar-me e o carteiro evita de subir até ao primeiro andar para me entregar o correio. Mas certo dia, tudo isto mudou…

Na passada Quarta-feira, acordei relativamente cedo — por causa de um pesadelo, onde era perseguido pelo José Castelo Branco montado num pónei — e, como já não conseguia voltar a adormecer, decidi ligar o rádio na Radio Comercial, onde estava a dar mais uma edição da Mixórdia de Temáticas. O tema era a “Raspadinha”. A loucura que abrange grande parte da população portuguesa, que busca por uns euritos raspando um pedaço de papel com símbolos. A forma como Ricardo Araújo Pereira descrevia o que era a sensação de ir para as filas das papelarias para comprar uma raspadinha, de certa forma deixou-me contagiado. E pensei: “Raios! É isto mesmo, caramba! Eu estou desempregado, e o que mais preciso agora é de dinheiro! E pode ser que me safe com uma raspadinha!” Prontamente corri para a casa-de-banho, fiz as minhas necessidades fisiológicas matinais e optei por desfazer a barba, não fosse o caso de o senhor da papelaria chamar a polícia assim que me visse a entrar no seu estabelecimento, pensando que se tratava de um assalto.

Passado meia-hora, lá estava eu na fila da papelaria para adquirir uma raspadinha. Estava tão empolgado, que não conseguia parar de tremer. Podia estar a minutos de ter muito dinheiro na mão. Quando chegou a minha vez, estava tão excitado com o facto de ir adquirir uma raspadinha, que fiquei cerca de um minuto a olhar para o senhor da papelaria, sem proferir uma palavra que fosse, apenas sorrindo. Só despertei deste estado de hipnose, quando o senhor da papelaria — em tom de brincadeira — disse “Então?! Está a rir para mim, ou a rir de mim?!” e o senhor que estava atrás de mim, na fila, grita “’Tá a despachar com isso, ó! Que eu ainda tenho de ir trabalhar!”. Olhei para o senhor que estava atrás de mim, e lembrei-me que não devia ter desfeito o raça da barba — porque isso tinha bastado para o intimidar.

“Quero uma raspadinha!”, disse, com um tom empolgado de quem está prestes a ficar milionário. Ao que o senhor da papelaria responde com uma outra pergunta: “Ah, tenho de 1€, 2€ e 10€. É só escolher!” Olhei para a carteira, e constatei que tinha apenas 5€, que era o único dinheiro que tinha para almoçar nesse dia. Pensei arduamente durante cinco segundos, e cheguei à conclusão que podia estar prestes a ser milionário. E quem não arrisca, não petisca… Enchi os pulmões de ar, e disse num tom confiante: “Quero 5 raspadinhas de 1€!” Ao que o senhor da papelaria responde com mais uma pergunta: “Ah, pode escolher. Tenho várias a 1€!” E eu, já um pouco saturado de tanto pensar, respondo num tom agressivo: “Oh homem, dê-me umas quaisquer, que raio!”

Regressei a casa a correr, munido de 5 raspadinhas de 1€, e sem dinheiro para almoçar — mas isso não interessava, porque estava prestes a ganhar muito dinheiro! Sentei-me no sofá, e constato que não tinha nem uma moeda para raspar o raça das raspadinhas e, como tenho o hábito de roer as unhas, essas também eram uma solução a que não podia recorrer. Mas tinha um canivete suíço, porque homem que se preze, tem de ter um canivete suíço (embora eu não faça a mais pequena ideia de quem era aquele canivete suíço, porque eu não nunca tive um na vida… Mas, recorrendo à velha máxima “O que está na minha casa, é meu!”, não me interessa realmente de quem seja…). E raspei… raspei… raspei… Raspei como se não houvesse o amanhã, e, no final, tinha apenas uma raspadinha com prémio (pelo menos tinha três símbolos iguais!). Confiante de que estava prestes a rechear a minha conta bancária, corri para a papelaria.

Depois de mais uns largos minutos à espera na fila, lá chegou a minha vez e voltei a ficar uns segundos completamente hipnotizado a olhar para o senhor da papelaria. Só voltei a acordar do estado de hipnose, quando a pessoa que estava atrás de mim exclamou “Então, pá! O gato comeu-te a língua?!”, o que me deixou novamente arrependido de ter desfeito a barba naquela manhã…

“Senhor, tenho prémio!”, gritei, como se fosse um louco. O senhor da papelaria confere a raspadinha premiada, e confirma que tem prémio. Eu fico num estado de ansiedade louco, e começo a perguntar ao homem se ele ia passar um cheque ou se queria o meu NIB para fazer a transferência para a minha conta-bancária. Ao que o senhor apenas abana a cabeça, e entrega-me uma moeda de 1€… “Tome, este é o seu prémio…”, disse-me.

Olhei para ele e perguntei: “1€? O que raio faço eu com 1€?!” Ao que o senhor respondeu: “Ah, então… pode sempre comprar mais uma raspadinha de 1€!” E eu comprei… “Perdido por 100, perdido por 1000…”, pensei, visto que não tinha nada a perder…

Mas tinha… porque a raspadinha que comprei não tinha prémio. E de repente constatei que não estava milionário e, pior ainda, que não tinha dinheiro para almoçar. Regressei a casa, completamente desolado e focado em deixar crescer novamente a barba, e isolar-me até que o Ricardo Araújo Pereira, numa próxima edição da Mixórdia de Temáticas, volte a dar-me mais uma razão para eu desfazer a barba e deixar de ser novamente um homem de Neanderthal…

Até para a semana, malta catita…

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