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Rita, anda ver o verão! – Cap.22

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Rita notou a ira contida mãe, entendendo que no semblante carregado dela estariam patentes as consequências nefastas de um incêndio à beira de deflagrar. Nesse estado de alma, as rugas de expressão ganhavam contornos mais definidos, ninguém passando a poder afirmar que tinha menos do dobro do somatório da idade das três filhas elevado ao cubo.

Receoso de como aquilo iria acabar, o pai de Rita aproximou-se pelo lado em que gostaria que a mulher estivesse para ver de mais perto como se sentia envergonhado. Rita enganara-se ao pensar que o pai, em visível estado de embriaguez, facilmente soltaria a língua para inventar uma desculpa a justificar o sucedido. Mas o comportamento dele era tão diferente do que imaginara alcoolizada, que até chegou a considerar a hipótese de ele não estar tão bêbedo como parecia ou então ser afinal muito diferente do que lhe tinham afiançado o efeito do álcool em quem exagerava no seu consumo.

Constrangida com a situação, Roberta começou a choramingar. Era a caçula da família, mas começava a deitar altura e no peito notavam-se-lhe já protuberâncias do tamanho de umas pequenas bolotas. Tinha uma cabeleira farta, loura, do tom que o pai admirava no quadro de um célebre pintor elvense que através do seu talento transformava a planície alentejana num sítio aprazível para trabalhar no verão de sol a sol. Raramente usava a cabeleira caída, a não ser quando a mãe lhe escovava o cabelo e prendia só com um elástico ou fazia uma trança tão perfeita que parecia postiça, fazendo-a oscilar ao vento como se fosse uma espiga dourada numa paisagem com tão escassos motivos de interesse como os quadros daquele artista alentejano. De tão bela que era, cuidariam que era a musa inspiradora de um poeta, mas em competição com ela, nenhuma inspiraria poeta algum a dedicar ao amor mais do que umas simples estrofes, quanto mais um soneto.

Por essa altura em que ninguém lhe prestava atenção, já Rita se atrevera a soltar as amarras e iniciara uma viagem de circum-navegação ao planeta, com partida e chegada ao lugar onde se encontrava, mas não surpreendendo que passasse pelo seu lugar de férias favorito. Nada mais, nada menos do que a famosíssima Serra da Estrela no coração da Beira Baixa e tão apreciada quer estivesse coberta de neve no Inverno, como de uma vegetação rasteira e abundante na estação mais seca do ano. Era o oposto do ambiente citadino que Renata, a irmã mais velha, gostava de visitar, porém só no inverno e com tempo molhado, para justificar que, com tantos motivos de interesse na rua, gostasse de andar a visitar os museus que não andavam longe das zonas do centro histórico, também elas vigiadas do alto por um castelo à semelhança de Lisboa. Renata, partilhava com a mãe o gosto pelos roteiros culturais, que incluíam a visita a catedrais e aos túmulos das pessoas que ajudaram a pô-las de pé, Contudo, para Rita, que estava habituada a palmilhar os recantos da capital, estas viagens não passavam de uma enormíssima seca, siando a dejá vu, uma vez que ficava sempre com a sensação de terem feito as malas e saído de avião para o estrangeiro, mas no fundo nem sequer tinham chegado a abandonar o bairro onde viviam. Sabiam que estava na hora de regressar a casa, quando ao pai, que não era dado às coisas da cultura, assomava no rosto um sorriso ou se o viam mais descontraído do que quando entraram no hotel e ele nem ajudou a desfazer as malas.

Passaram a soar longínquas as palavras do pai, tão longe como os conselhos que ele não dispensaria dar-lhe na hora em que estivesse prestes a embarcar num navio de cruzeiro ou a fazer check-in às malas no aeroporto. E em todo o caso ela as dispensaria, como às recomendações de que entrasse cedo em casa quando lhe pedia autorização para sair à noite com as amigas. Algumas eram do género coquete. Provinham de famílias arreigadas à tradição monárquica, de cujas origens ninguém se lembrava ao certo, mas que deviam remontar ao tempo anterior à invenção da escrita, visto os factos a elas ligados não terem ficado registados em parte alguma e por isso não poderem constar nos manuais de história que eram dados na escola.

Passou um fim-de-semana de sonho em casa de uma delas e no regresso ao lar não podia vir mais satisfeita. Fazia uma tarde auspiciosa de sol e a jovem até pensou que tão bom indício não poderia trazer senão paz e alegria ao seio familiar. Verificou que a mãe estava tão feliz por vê-la regressar sã e salva, que deu logo por garantido de que nem as duas mochilas a abarrotarem de roupa suja para lavar e passar a ferro que trazia, seriam capazes de alterar-lhe a magnífica disposição com que se levantara. Só que a progenitora nem dera pelo tempo passar e, nessa altura, limitou-se a deitar-lhe um olhar tão vago como a resposta que obteve da parte da filha à pergunta de se tudo tinha corrido bem e de acordo com a sua vontade. Como não se alongou em comentários aos dias passados entre as quatro raparigas da turma que foram convidadas, Rita passou a sentir mais forte a presença da mãe que, desde esse dia, a mirava com um olhar inquisidor, pressentindo que esta perscrutava-a com um interesse que ia muito além de querer inteirar-se do seu estado físico, olhando-a com uma atenção desmedida, como se por ação de uma visão de raio-x que não detinha, pudesse notar alguma dissemelhança entre a rapariga simplória que ela era à chegada e a de aspeto humilde que se despedira da família numa noite friorenta de sexta-feira, carregando ao ombro uma mochila de lona. Porém, a não ser a bagagem, que tinha duplicado de volume após uma divertida tarde passada nas compras, não havia que permitisse distingui-las uma da outra.

Não fora por, em tão curto espaço de tempo, ter crescido uns centímetros e lhe terem as antigas deixado de servir nas mangas, que correra a comprar duas blusas novas, idênticas às de um manequim que enfeitava uma montra. Nem por ter deixado de caber nas antigas, que resolveu comprar o segundo par de calças de ganga no espaço de um mês. A mudança de humor da mãe deu-se quando mencionou o montante gasto e o desejo de vir a ser ressarcida daquela despesa extra na mesada a receber no mês seguinte.

Agora, numa discussão de sentido único, a mãe de Rita acusava o marido de irresponsabilidade e atirou-lhe à cara o exemplo negativo que dava às filhas. Mas não deixou de o culpar pelas más companhias. O colega Óscar era o mais namoradeiro. A esposa apanhou-o em flagrante a namoriscar uma vizinha que não morava numa casa com quintal, mas desfrutava da fama de gostar de saltar o muro com os maridos das outras.

Um dia seguiu-o e ao cabo de uns minutos surpreendeu-os sozinhos a conversar. Posicionou-se depois tão perto deles que quase conseguia escutar na íntegra o que diziam e, sem grande margem de erro, acertar-lhes com uma seta entre os olhos se se dispusesse a vingar-se do vexame que a faziam passar.

Por entre dois dedos de conversa, bebiam dois copos de cerveja sentados numa esplanada como se fossem amigos de longa data e consciente de que a sátira a que assistia não passava de uma farsa, sabia que se fosse pedir-lhe uma justificação por tê-la deixado em casa dizendo que ia trabalhar, ele e a amante sabê-la-iam representar tão bem como dois atores experientes habituados em palco a iludir o público e a fingir estados de alma que levavam as pessoas a acreditar em sentimentos cujo significado eles próprios desconheciam.

Embora guardassem uma certa distância entre si, mantinham os rostos um do outro à mesma altura e se naquele momento ele lhe pousasse a mão no ombro, estariam certamente a encenar a cena do casal apaixonado. Tão certo como se se afastassem, estariam apenas a despedir-se para mais tarde se reencontrarem numa cena tórrida a que ela como esposa traída não estava disposta a assistir. E se de uma primeira vez de suspeita de traição um fim-de-semana romântico passado no Porto resolveu o problema, desta vez talvez fosse ir buscar a solução mais longe. No mínimo uma viagem a Paris ou uma semana passada num hotel em Ibiza.

A mãe de Rita falou ao marido deste e outros amigos que andavam a desencaminhá-lo. Depois foi-se deitar, beijando as filhas, dispensando-lhe menos atenção do que daria a um vendedor de areia no deserto, dando a entender a camisa-de-força em que ele estava metido. As palavras a quente ditas pela mãe de Rita, tiveram o condão de pôr a filha a pensar friamente na relação entre os casais. Foi fazê-lo para a cama. Deitou-se sem trocar de roupa, mantendo-se com o fato de treino de algodão que combinava perfeitamente com o par de ténis de caminhada que não a impediram de avançar para o interior do quarto a correr.

Para ela, os constantes amuos dos pais eram como arrufos de namorados, uma prova de vitalidade que mostrava que o casamento deles estava tão apto a resistir à tormenta da passagem dos anos, como ela às propostas tentadoras da irmã mais nova, no sentido de, em troca de um pedaço maior de gelado à sobremesa, a deixar usar as suas peças de roupa e sandálias prediletas.

(Continua)

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