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S. Gião, serra de encanto

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Nasceu num lugarejo situado na encosta de uma serra, rodeado de vegetação selvagem e terrenos tão férteis, que até umas simples batatas arrancadas da terra traziam o aspeto sumarento das cerejas apanhadas de fresco.

Puseram àquela a aldeia surgida numa terra agreste, o nome de S. Gião. Um lugar que de verdadeiramente seu só tinha a beleza da paisagem e o valor intrínseco dos seus habitantes.

Um dos mais distintos, em minha opinião, era uma antiga colega de turma do nono ano, uma colega de quem se fica a gostar tanto, como do professor de uma disciplina que nos passa de ano sem termos aprendido nada do que andou a tentar ensinar.

Só para me poder sentar numa cadeira ao seu lado, eu gostava mais de ir às aulas do que se fosse para tornar a ouvir um professor falar de matéria a que, por estar focado nos gestos dela, não tinha prestado a menor atenção na véspera. Para mim, era como uma bênção rodeá-la e poder respirar do mesmo ar com que enchia o peito ao suspirar quando falava de amor.

Um dia, fomos numa viagem de carro à sua terra natal, a aldeia de S. Gião e de lá iniciámos um périplo pela região beirã, findo o qual percebi de onde vinha a fama de que em Portugal abunda gente hospitaleira.

Em apenas uma semana, percorremos centenas de quilómetros no meu pequeno carro de dois lugares, atravessámos vales e subimos a montanhas, sem que do cimo da mais alta, e até onde a vista alcançava, eu conseguisse vislumbrar fauna mais diversa e aldeia mais bonita do que S. Gião.

Apesar da empatia que sentíamos um pelo outro, nunca chegámos a namorar, mas desde então, pelos locais que percorro nas viagens que faço de carro atualmente, continuo a observar com atenção os locais e as pessoas. Ainda sou tão bom observador como naquele tempo em que rapidamente vi que a nossa relação jamais evoluiria para algo que representasse mais do que uma boa amizade.

Agora vejo-a menos vezes, mas quando isso acontece é sempre a mesma coisa. Recordo-me da nossa viagem à Beira onde contactei o país real. Porém, se desta vez a repetisse, acho que não valeria a pena andarmos tanto de carro, subindo e descendo inúmeras serras. Não valia a pena cansar-me. Para ser bem recebido e comer bem, enfiava-me em S. Gião e não saía de lá.

 

1 Comment

1 Comment

  1. Maria Isabel Ribas

    22/07/2017 at 11:06

    Esta crónica faz a descrição de um sitio da nossa terra ao mesmo tempo fazendo a ponte para as emoções humanas das memórias. Adorei mais uma vez

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