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O Sr. “Estava a Pedi-las”

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Tinha 13 anos quando aconteceu. Conheci-o. Conheci o Sr. “Estava a pedi-las”. Estava longe de casa e não tinha a minha família por perto. Todos os anos, nas ferias de Verão, eu ia para um acampamento juvenil, longe de casa, durante uma a duas semanas, diversificava o local e as actividades, ora campo, ora praia, assim como os instrutores e colegas de acampamento, eu, a miúda tímida e de olhos tristes, impulsionada ( quase obrigada ) pelo meu pai, que sabia que este tipo de convívio era tremendamente positivo para mim, exactamente por ser uma miúda introvertida e nada aventureira, uma miúda que tinha uma condição social e económica mais desfavorecida – personalidades frágeis, voláteis, inseguras, exactamente as personalidades que atraem os agressores sexuais.

Eu tinha 13 anos quando frequentei o primeiro acampamento juvenil. Não fazia a mínima ideia para onde ia, nem que tipo de jovens ia conhecer, estava muito nervosa. Quando chegamos ao local fomos apresentados à equipa de monitores que iriam estar connosco durante essas duas longas semanas, mostraram-nos os locais onde iríamos fazer as actividades e as tendas onde iríamos dormir. Ali estava ele, o Sr. “Estava a pedi-las”.

Eu tinha 13 anos, era uma pré adolescente, tinha o corpo bastante desenvolvido, daí não aparentar ter apenas 13 anos, mas tinha, é um facto. Eu não percebia nada de sexo, nem sequer pensava nisso, o máximo que tinha feito era dar uns beijos e uns amassos nos corredores da escola. Após a saída dos pais e de ficarmos a conhecer todos os colegas com quem iríamos estar nas duas semanas seguintes, foi-nos pedido que vestíssemos o fato de banho para irmos para a praia, que era a cinco minutos do acampamento, o local era numa zona costeira. Eu, que tinha chegado ao acampamento de calças largas e casaco largo, notei uns olhares bastante incómodos quando me apresentei de biquíni, o olhar foi o primeiro sinal, um sinal que me deixou desconfortável, homem nenhum devia olhar para uma miúda de treze anos daquela forma.

A semana decorria de forma normal, a primeira já tinha passado, havia todas as actividades inerentes a um acampamento juvenil, eu tinha me enquadrado relativamente bem. Numa das muitas noites foi organizado uma actividade nocturna, o local seria nas dunas, formamos equipas e equipamos-nos de lanternas. Nessa noite o Sr. “Estava a pedi-las” tocou-me, assim, em tom de brincadeira, tocou-me numa parte do meu corpo, eu vestia umas calças pretas justas e um top azul, ele tocou-me, afastou-se, olhou para mim e sorriu, eu senti-me  envergonhada e confusa. Que motivo teria, um homem com idade para ser meu pai, de me tocar sem o meu consentimento? Se queria mostrar o seu afecto porque é que não me tocou no rosto? Eu nunca tinha estado sozinha com ele, não tinha tido nenhuma conversa particular com ele, eu não era uma miúda amistosa, porquê eu?

No ultimo dia, aquando das despedidas, ele abraçou-me, pegou em mim ao colo, em frente aos pais o Sr. “Estava a pedi-las” parecia ser um homem normalíssimo, pediu ao meu pai para me inscrever no acampamento que iria haver na semana a seguir, nunca mais voltei. Mas outras adolescentes e crianças sim.

O Sr. “Estava a pedi-las” era chefe dos escuteiros. Se tinha sido distinguido para tão nobre função, era porque tinha capacidades emocionais e psíquicas para o fazer, nenhum pai ou mãe iria desconfiar que o amoroso chefe dos escuteiros, assediava crianças e adolescentes. Quantas vezes esta historia se repete? O professor, o vizinho, o amigo do pai, o próprio pai, o avô, o tio, o cuidador, o educador, o chefe dos escuteiros…quantos Srs. “Estava a pedi-las” não estarão, neste momento, a condenar a vida de uma adolescente? Eu tive tanta sorte, mais uma vez na minha vida, eu tive sorte! Eu tive sorte porque não houve continuidade do assedio sexual, o desfecho iria ser trágico para mim. Eu gostava  de viver num mundo em que, miúdas de treze anos não teriam de se considerar umas sortudas por não terem sido abusadas sexualmente nem assediadas por algum homem!

A parte mais chocante destes crimes é a culpabilização da vitima pelo ataque por parte da sociedade. Como se já não bastasse todo o sofrimento pelo qual passou, muitas vezes, a vitima torna-se a culpada – porque a adolescente estava vestida de calções para provocar, porque vestiu um decote que era impossível um homem não olhar, porque o vestido era justo, porque estava bêbeda, porque aceitou a boleia, porque postou fotos provocadoras, porque ela no fundo até queria e até gostou, porque ela estava a pedi-las…

Até quando?

” À tua mãe dou cinquenta, mas a ti pago-te cem “

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