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Sr. PM, obviamente, demitia-o!

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Caro Sr. PM, proferiu ao país um discurso, a que estive atento, na noite de segunda-feira, dia dezasseis de outubro, e reparei que ele foi em tudo igual ao de há quatro meses, que fez, creio que no mesmo local, no rescaldo da tragédia dos incêndios de Pedrógão, que, como é sabido, conduziu à morte de sessenta e quatro pessoas e animais, provocando avultadíssimos estragos em casas e terrenos.

V. Exa. fez nessa altura, a mesma promessa solene, que repetiu há uma semana, ou seja, que tudo faria ao seu alcance para, a partir dessa data, evitar que desgraças da dimensão da dos incêndios de junho se repetissem, mas afinal que parece que as suas palavras caíram em saco roto.

Lido no tom monocórdico de um violoncelo, o discurso a exaltar a brandura de caráter do povo português, já acostumado a acolher as grandes desgraças, colocava a ênfase nas lacunas reveladas no ordenamento territorial e no combate aos fogos e em tudo se assemelhava ao proferido por ele há quatro meses. Mas já agora e a gravata? A gravata preta usada por ele na passada segunda-feira era a mesma? Clarifico a pergunta: o Sr. PM usou a mesma gravata desse dia ou teve à pressa de comprar outra, porque aquela deitou fora, acreditando que jamais precisaria dela para, em tão curto espaço de tempo, ter de ir à televisão apresentar aos portugueses sentidas condolências pela aselhice do seu Governo?

Haja vergonha! Demiti-lo-ia mas não iria sozinho. E juntamente com outros membros, acusá-lo-ia do crime do crime de negligência perante o perigo, responsabilizando-o, em primeiro lugar, pelos danos causados em consequência dos gravíssimos incêndios do passado fim-de-semana.

Porque se não é o Sr. culpado, conjuntamente com outros membros do Governo e da Proteção Civil, por ignorar os avisos do IPMA, os alertas dos bombeiros, e pelo encerramento de postos de vigia e redução de meios de combate a partir do final do mês se setembro, quem será então? Quem devemos escolher quem para ser o bode expiatório de uma situação que foi por vós criada?! O motorista de José Sócrates? Ricardo Salgado? Ou qualquer membro de um anterior Governo, e não me refiro ao de Passos Coelho, mas a todos os dos PSD que tomaram posse desde o vinte e cinco de abril de setenta e quatro? Sim, porque a culpa, quando não morre solteira, é sempre dos outros e nesta, como noutras situações do género, temos assistido a que, invariavelmente a quem exerça a ação de governar, não raras vezes o interesse partidário sobrepõe-se ao encontro de soluções.

Por tudo isto, obviamente demitia-o! Mas fique descansado, Sr. PM. Isso é o que eu faria e não o que farão, independentemente do resultado de qualquer relatório, as pessoas sensatas que ocupam os lugares de decisão onde eu não tenho assento. Continue a dormir tranquilo e a acordar com a falsa sensação de que o grosso dos portugueses vive num país de contos de fadas, onde muitos dos que morderam a mação envenenada das promessas eleitorais, já devem ter percebido que embarcaram numa história da carochinha sem fim à vista.

E pelo meio, lembram-se daquele Sr. que é inquilino em Belém? Aguarda pela conclusão de inquéritos e apela à calma dos portugueses, afetados ou não pelos fogos, porque se mantém vigilante. Vigilante?! Só gostava de saber em que praia, que é para ver se não vou lá tomar banho.

Certos dias, fico com a sensação de termos recuado ao tempo em que não de podia criticar o Poder. Há cinquenta anos, vinha um polícia e encerrava-nos numa masmorra. Atualmente, vem alguém chamar-nos doidos ou acusar-nos de não percebermos patavina do que dizemos e é preferível ficarmos em silêncio. Num silêncio cúmplice com situações que não desejaríamos ver repetidas.

E por falar em silêncio, estranho o dos líderes da CDU e Bloco de Esquerda. Para não prejudicar a procura de soluções, dirão uns. Que é para não afetar as relações privilegiadas que mantêm com o PS no seio da troica à portuguesa, que é maioritária na Assembleia da República. O certo é que eu estou em crer que, se fosse o atual Governo laranja, outro galo (e galinha, neste caso) cantaria, num coro de críticas em uníssono ao Ministério da Administração Interna e não só, que se ouviria, de norte a sul, ainda mais alto do que as populações indefesas nas aldeias cercadas pelo fogo a gritar por socorro.

Demiti-lo-ia, Sr. PM e livrar-me-ia de vez, quer da sua arrogância, quer do seu cinismo, mas esta sua característica só poderá ainda estranhar, quem tenha a memória curta e não se recorde já de como, para ser eleito secretário-geral do Partido, tratou de forma nada lisonjeira o seu antecessor, o então líder António José Seguro.

Fala-se de novo em mudanças e que depois disto é que definitivamente nada ficará como dantes. Contudo, em Portugal o que muda são as equipas de campo ao intervalo. Porém, sobre isto e suas implicações, muito haveria a dizer. Termino por isso como terminaria um programa acerca de história que passa no Porto Canal e gosto de ver, embora com menos frequência do que deflagram fogos nas nossas matas e florestas: Tudo isso seria tema para outras viagens, outras histórias, outros … caminhos da história.

 

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