Últimas Crónicas

Teresa

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Ao longo do tempo, há de ter muita gente perdido a oportunidade de lhe dizer que a amava, mas comigo eu juro que não irá suceder o mesmo.

Morena, da altura que uma jovem já convém ter quando começa a dar os primeiros beijos, assim era Teresa, embora na minha imaginação eu continuasse a vê-la ainda da idade em que a uma rapariga não é aconselhável iniciar a sua vida sexual.

Conhecia-a desde que tínhamos treze anos e ela encarnava a miúda de laçarotes no cabelo com que gozavam, numa turma composta maioritariamente por rapazes, os energúmenos dos nossos colegas que a mim não podiam apontar como alguém que seguisse o seu exemplo.

Conhecessem-na tão bem como eu e mais conscientes do valor de uma mulher, talvez não andasse na ordem do dia, alguns baterem nas namoradas como a um saco de boxe em que nalguns casos tinham visto os pais transformar as mães. Estava na hora, de reverter este papel impróprio num homem do século vinte e um, que é o equivalente na pré-história a andarem todos à pancada, dando abruptamente mocadas na cabeça uns dos outros, como se graças a isso pudessem moldar-lhes o cérebro, a fim de evoluírem para uma forma de pensar tida como mais inteligente.

Quem não precisava de levar pauladas era Teresa, com a cabeça já do formato adequado a um cérebro mais desenvolvido do que o de qualquer outro rapaz ou rapariga da sua idade. Talvez isso é que estivesse na génese de obter tão boas notas a todas as disciplinas, que unanimemente os professores a elegeram para o quadro de honra da escola, passando a trata-la pela alcunha de Sabichona, o que implicou terem de passar a estudar mais para serem tratados ao mesmo nível, os restantes alunos da turma que estavam habituados a ser referenciados com essa distinção.

Gosto ainda tanto de Teresa, que seria certamente admirável um texto a descrevê-la, mas por alguém que escrevesse melhor do que eu. Tirados da mãe, sobressaíam no rosto da jovem os traços de uma mulher que só não suportaria mais tarde acusarem-na de não ter tentado ser feliz. Na busca incessante da felicidade, casou e divorciou-se três vezes, com homens rudes mas bonitos os quais nunca observou à distância suficiente para poder ver-lhes os defeitos. Formou-se em Biologia pela Universidade Clássica de Lisboa e ainda foi até ao estrangeiro tentar a sorte num emprego de sonho, mas acabou por voltar a Portugal e dedicar-se a concluir o mestrado e depois um doutoramento, fazendo tese no estudo dos seres vivos que para evoluir não precisam, contrariamente aos seres humanos, de dedicar a maior parte da vida de volta dos livros a queimar as pestanas.

Com todas as virtudes e defeitos, gostava tanto dela como da derradeira bolacha no fundo de um pacote que demasiado depressa tinha chegado ao fim. Gostava sobretudo da maneira de usar o cabelo, apanhado em cima, num toutiço tão bem feito que dele é que pareciam partir as instruções que o cérebro depois se encarregava de distribuir pelo corpo inteiro. Era morena, mas devia ficar-lhe bem qualquer cor das com que imaginávamos ficar a lua, se da janela de lá de casa nos puséssemos a observá-la de mão dada ao seu lado.

Lembrei-me dela a propósito de estar a folhear uma revista de deparar-me com o rosto de uma mulher igual ao dela, que ao centro de uma foto anunciava um creme de regeneração facial, responsável por devolver às mulheres de quarenta, a suavidade característica da pele de quando tinham treze anos.

Gostava de dizer-lhe, caso lesse este texto, que sempre a achei dotada de uma inteligência fantástica. Só lamento no entanto, que apesar das minhas dicas, nunca tenha percebido que era dela que eu falava, quando me referia a uma amiga por quem estava tão apaixonado que depois de uma crónica, um dia talvez me inspirasse a escrever uns versos.

 

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