Crónicas de Natal

Uma antecipada ceia de Natal

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Bonifácio encontrava-se num estado de desespero extremo, enquanto ouvia a juíza falar ininterruptamente há mais de uma hora. Talvez por já ser uma hora tardia, ou mesmo devido ao ambiente enfadonho que se encontrava naquela sala de audiências, Bonifácio lutava penosamente contra o sono. A sala era ligeiramente pequena, onde apenas cabia uma grande mesa oval que preenchia por completo a sala, deixando pouco espaço para as próprias cadeiras. À frente de Bonifácio encontrava-se o advogado de acusação, que sorria de uma forma maldosa de cada vez que a juíza enumerava o inúmeros crimes de que era acusado o cliente que Bonifácio defendia. Uma atitude que enervava ainda mais Bonifácio, que já estava desesperado e de contra-vontade naquela audiência.

            “Por que raio é que esta gaja tem de falar tanto e não se despacha com esta porcaria! Já são oito horas da noite, e ainda tenho de ir comprar a prenda do puto! Mas que merda, hein! Só uma doidivanas é que se lembra de marcar uma audiência para estas horas, no dia 24 de Dezembro!”, pensou Bonifácio.

            — Como disse, senhor advogado?! — disse a juíza, interrompendo o seu monólogo.

            Bonifácio olhou em redor, e paralisou o olhar no advogado de acusação, pensando que a juíza estaria eventualmente a dirigir-se a ele. Mas rapidamente se apercebeu de que tinha acabado de fazer uma enorme asneira.

            ­— Hum… Eu… Eu… estava a pensar alto, não estava?… — balbuciou Bonifácio, apercebendo-se de que todos tinham ouvido o seu pensamento, e que estava agora entre a espada e a parede.

            — Mas que falta de respeito vem a ser esta? Você sabe que está numa audiência, ou perdeu a noção do espaço e tempo e está a viajar na maionese?

A juíza estava visivelmente aborrecida com o facto de ter sido interrompida daquela forma absurda. Ela tinha fama de ser uma juíza dura, e que odiava ser interrompida durante os seus monólogos aborrecidos.

            Mas Bonifácio estava farto daquela audiência e, sem pensar nas consequências que o seu acto poderia vir a trazer para a sua pessoa, retorquiu de uma forma algo abrupta, à pergunta da juíza:

            — Eh pá, já chega de parvoíces! E de conversa da treta! Eu sei que sou o advogado de defesa deste pelintra do pior, mas toda a gente sabe que ele é culpado! Pá, o homem matou uma pessoa com um peluche Smurf! Todas as provas apontam nesse sentido, visto que as câmeras de vigilância do centro comercial apanharam-no a introduzir o raio do peluche dentro da boca do homem, sufocando-o até à morte! Porque é que estamos aqui a perder tempo com esta porra? O homem é culpado, sim senhor! E qual é a pancada da Sra. Dra. Juíza, para marcar uma audiência a uma hora destas no dia 24 de Dezembro? Eu estou a duas horas de carro de casa, e ainda tenho de ir comprar a prenda para o puto antes de ir para casa! Caso não se lembre, eu vou repetir: hoje é dia 24 de Dezembro!

            Todos estagnaram e ficaram boquiabertos, trocando olhares uns com os outros. O cliente de Bonifácio tinha a típica expressão de que alguém lhe tinha enfiado um ferro em brasa pelo ânus, sabendo que estava arrumado: ia passar o Natal na cadeia. O advogado de acusação tinha um sorriso de orelha a orelha, talvez por saber que não teria igualmente de ouvir mais o monólogo da juíza, e que não teria de mexer grande palha para ganhar o caso. A juíza apresentava um ar chocado, e a única reacção que teve foi dirigir-se a Bonifácio e dizer:

            — Senhor advogado, estou a ver que o senhor está ligeiramente perturbado, e o melhor é marcar esta audiência para outra data.

            — Eu não estou perturbado! Estou é atrasado para a ceia de Natal, e ainda tenho de ir comprar o presente do meu filho! Ah, e estou há uma hora à rasca para urinar. Atenção, que não estou a dizer que a suas longas palavras provoquem incontinência, mas vá, provocam um pouco… E um homem não é de ferro! — disse Bonifácio, levantando-se bruscamente da mesa, e dirigindo-se para a porta de saída da sala de audiência.

            Nisto, talvez por descuido, Bonifácio tropeça num dos pés da cadeira do seu cliente e cai estatelado no meio do chão, aterrando em cima dos seus óculos, partindo-os em mil pedaços. Levantando-se apressadamente, Bonifácio dirigiu-se à porta, e saiu a cambalear pelo corredor do tribunal, enquanto ouvia ao fundo, vindo da sala de audiência, os risos descontrolados da juíza, advogado de acusação, e do seu cliente – a quem ele tinha acabado de colocar atrás das grades.

            Bonifácio dirigia-se para a saída, mas como estava no quinto piso, tinha de apanhar o elevador, que se encontrava mesmo no fim do corredor. Bonifácio carregou no botão do elevador, e ouviu o sinal sonoro assinalando a chegada ao seu piso. “Ah, até que enfim que uma coisa corre bem e o elevador já aqui está!”, pensou enquanto as portas se abriam. Mas, assim que avançou para entrar no elevador, constatou que ele não estava lá! Estava sim um enorme vazio. Com uns reflexos que pensou nunca possuir, conseguiu agarrar-se à parte de cima da ombreira da porta do elevador, mas para isso teve de largar o que tinha nas mãos: o telemóvel e a pasta que continha documentos importantes e, pior que tudo, a sua carteira e chaves do carro.

            — Raios partam isto tudo! Mas que porcaria de dia! O que será que pode estar para acontecer ainda?! — gritou, enquanto virava costas ao elevador e dirigia-se às escadas.

            Depois de descer os 5 pisos pelas escadas, finalmente estava no piso 0. Mas, antes de poder alcançar a porta de saída do raça do tribunal, Bonifácio tinha ainda mais uma pequena prova pela frente: as escadas rolantes. O que podia revelar-se um verdadeiro desafio, tendo em conta o que estava a ser aquele dia para ele.

            Encheu os pulmões de ar, expirou e avançou. E a curta viagem correu bem, mas, ao chegar ao fim das escadas rolantes, o atacador do sapato ficou preso numa das escadas. Bonifácio tentou de todas as formas desprender o atacador, mas quanto mais puxava, mais o atacador ficava preso, levando até que o sapato ainda ficasse mais apertado no pé. Por fim, já a suar e quase a chorar de desespero, eis que, de uma forma totalmente milagrosa, o atacador lá se soltou e Bonifácio caiu de cu num dos degraus das escadas rolantes. A dor que sentiu na zona do cóccix foi de tal forma perfurante, que pensou ter ficado imediatamente paralisado. A custo, levantou-se lentamente com um e só pensamento: “tenho de sair rapidamente deste prédio assombrado!”

            A coxear, dirigiu-se à porta giratória, tentando sair dali o mais rápido possível. Parou e ficou estaticamente a olhar para a porta a girar à sua frente. O pensamento de que algo poderia correr mal passou-lhe pela cabeça, mas se para sair daquele prédio maldito teria de ultrapassar aquela porta, então tinha de avançar sem rodeios. E, vamos lá a ver, o que poderia correr mal desta vez? Ficar preso na porta? Isso já seria azar a mais para um só dia.

            Bonifácio avançou para a porta, destemido e sem rodeios, e ficou… com o pulso preso entre a porta e a saída. A porta fazia uma força enorme contra o seu pulso, visto que era uma porta giratória e, obviamente, queria seguir o seu caminho giratório. Bonifácio não queria acreditar no que, mais uma vez, estava a acontecer. Gritou várias vezes por ajuda, mas ninguém passava por ali. A rua estava vazia e nem um carro se via a circular àquela hora da noite.

            “Mantém a calma, Bonifácio. Tu vais sair desta vivo!”, pensou, tentando, ao mesmo tempo, encontrar uma forma de se livrar daquela porta maldita. Foi então que, respirando calmamente e deixando que o discernimento tomasse conta de si, reparou que o que estava preso na porta era o seu relógio.

            — Porreiro! Basta retirar o raios partam do relógio e já posso fugir daqui! — Gritou Bonifácio, ciente que se encontrava ali sozinho. E se assim gritou, assim executou. E viu-se livre daquela porta giratória dos infernos, e daquele prédio assombrado.

            — Agora como é que vou comprar a prenda para o puto, visto a porcaria da carteira ter caído para dentro do poço do elevador? Ah, e como é que vou para casa depois de a porcaria das chaves terem caído igualmente na merda do poço do elevador? E porra! Que horas são, visto que acabei de ficar sem relógio?! — Bonifácio sentia-se agora desesperado, e a vontade de chorar estava agora mais forte em si. Só lhe apetecia pegar em algo, e partir alguma coisa!

            Nisto, sentiu um toque no ombro e virou-se para trás, e deparou-se com o seu cliente, que disse:

            — Então ó advogadinho da treta! Precisas de boleia, é?

            — EU… Eu… Não, não. Estou bem… E… desculpa aquilo que aconteceu lá em cima na sala de audiência. Eu… Eu…

            — Vá, isso é na boa. Eu vou dentro, mas daqui a uns meses já cá estou fora. Olha, sempre é da maneira que tenho pitéu na mesa todos os dias! Eh, eh! Vá, anda lá que eu dou-te boleia. Eu sei que não prestas para nada, mas a tua mulher e o teu filho não têm culpa do pai que têm! Ah, ah, ah! Anda lá, eu levo-te a casa. — disse o cliente de Bonifácio enquanto se dirigia para o seu carro.

            Bonifácio pensou em recusar o convite, mas que outra hipótese tinha para chegar a tempo a casa? Cerrou os lábios e lá seguiu atrás do seu cliente.

            A viagem foi calma e rápida, sem que nenhum dos dois proferisse alguma palavra que fosse durante todo o caminho. À chegada à casa de Bonifácio, o seu cliente virou-se para o seu advogado de defesa e disse:

            — Pronto, ó shôr doutor advogadinho da treta. Já chegámos.

            — Obrigado pela boleia e, mais uma vez, desculpa tudo o que aconteceu na sala de audiência. — disse Bonifácio, ao sair do carro, mostrando-se grato pelo gesto simpático e surpreendente de uma pessoa que ele tinha acabado de colocar na prisão.

            — Não precisas de agradecer… Lembra-te que agora eu sei onde moras! Muahahahahahahahahah! — O sorriso macabro provocou um arrepio na espinha de Bonifácio, que ficou paralisado a ver o carro a descer a rua. Mas, afinal de contas, ele estava em casa e ia passar a ceia de Natal com a sua mulher e filho.

            Assim que se preparava para bater à porta, eis que a porta se abriu repentinamente e o seu filho saltou para o seu colo! Abraçado ao seu pai, ao seu Pai Natal, o piqueno proferiu as seguintes palavras:

            — Paizinho! A minha prenda?! O que compraste para mim?!

            “A prenda! Ai meu Deus, a prenda! Esqueci-me da prenda!”, pensou Bonifácio, sabendo que iria provocar um enorme desgosto no seu filho.

            O petiz, apercebendo-se da hesitação por parte do pai na hora de responder, desceu do colo do pai e olhou-o nos olhos, com uma lágrima a escorrer-lhe pela cara abaixo.

            — Desculpa, filho… Esqueci-me da prenda…

            Nisto, o seu filho deu-lhe um encontrão inesperado e saiu disparado a correr em direcção à estrada. De seguida, ouviu-se um guinchar de pneus no asfalto, e Bonifácio assistiu incrédulo ao cenário dantesco do seu filho a ser violentamente atropelado por um carro amarelo.

            Bonifácio correu em direcção ao seu filho, e nesse instante deparou-se com a pessoa que está ao volante do carro que atropelou o seu filho. Era a juíza com quem, há poucas horas atrás, tinha tido uma pequena desavença. Vendo Bonifácio agachado e junto ao corpo do filho, a juíza aproximou-se e disse:

            — Oh, então o sacana do puto salta-me para cima do carro? Quem é que vai agora pagar isto, ó advogado?

            Bonifácio olhou para a juíza com a raiva presente nos olhos, querendo esganar aquela assassina, que acabou de retirar-lhe a razão de viver, quando a juíza voltou a falar:

            — Bom, depois logo tratamos disto. Tome, vim só trazer-lhe o relógio que você deixou cair à entrada do tribunal. Bom, vou indo. Depois mando-lhe a conta do arranjo do carro. Um bom Natal, sim? — Regressando depois ao carro e seguindo a sua viagem.

            Bonifácio assistiu à fuga do local, por parte da juíza, completamente em choque, sem conseguir proferir uma simples palavra. Olhando para o seu filho, Bonifácio fechou os olhos e subitamente soltaram-se as palavras que estavam presas no seu interior:

            — Filho! Meu filhooooo! Nããããããããããoooooooooo!

            Ao abrir novamente os olhos, Bonifácio já não se encontrava na rua, no meio da estrada, agachado e segurando o corpo do seu filho. Encontrava-se na sua cama e, ao olhar para o lado, constatou que não se encontrava sozinho: estava acompanhado da sua mulher. O sol entrava em força pela janela do quarto, com os raios a atingirem a cara da esposa de Bonifácio, levando-a a acordar e a dizer:

            — Olá mor, bom dia… Hum… Ainda é de manhã?…

            — Que dia é hoje?!

            — Que pergunta mais parva… É véspera de Natal, seu totó… Sempre vais ter de ir ao tribunal hoje, por causa daquela audiência?

            — Quer dizer que… Tudo não passou de um sonho?

            — Hum? O quê, mor?…

            — Nada, nada…

            Nisto entrou o filho no quarto, saltando para cima da cama aos pulos e gritando:

            — Pai! Mãe! É véspera de Natal! Onde é que está a minha prenda?

            — Raios! A prenda! Esqueci-me da tua prenda! — disparou Bonifácio, sem medir as consequências que as suas palavras poderiam provocar no coração do pequeno petiz.

            Ao receber esta noticia inesperada e triste, o filho saiu do quarto a correr, dirigindo-se para a porta da rua, abrindo a porta e correndo em direcção à estrada… ouvindo-se, de seguida, o guinchar de uns pneus no asfalto…

            Bonifácio saltou da cama e correu em direcção à rua, enquanto o pensamento “Não! Isto não pode estar a acontecer! Tudo não passou de um sonho! Não! Por favor, não!”, o acompanhou como se de um assombro se tratasse. Ao chegar à porta da rua, deparou-se com um carro amarelo atravessado no meio da estrada e, do outro lado do passeio, estava o seu filho. A segurar o seu filho, estava um senhor idoso vestido de vermelho, de barbas brancas e que, ao ver a cara de pânico de Bonifácio em tentar saber se o seu filho se encontrava bem, sorriu, e disse:

            — Até logo, Bonifácio… Ah, e por favor não acendas a lareira, senão fazes dói-dói no menino… Ho! Ho! Ho!

            Desaparecendo logo de seguida, sem antes se despedir com um piscar de olho a Bonifácio…

FIM

 

 

Um feliz Natal!

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