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Uma súbita vontade de opinar…

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Imbuídos na azáfama que as festas natalícias proporcionam esquecemo-nos de assistir às mais trágicas notícias que os meios de comunicação social nos mostram diariamente. Pensando melhor, talvez não seja um acto inconsciente, mas antes deliberado, uma vez que, como mártires que tão fielmente nos habituamos a ser, já sabemos que 2015 nos trará mais mudanças significativas. Não importa se estas são benéficas ou maléficas, porque o que realmente interessa é comprar o bacalhau mais gorducho, pô-lo a demolhar e comê-lo acompanhados de um bom vinho, quiçá com o calor de uma lareira acesa e muita diversão no seio familiar.

Afinal de contas, vem aí o novo ano e dizem por aí que o melhor é entrar com o pé direito. Independentemente de entrarmos ao pé-coxinho ou com os dois bem assentes na areia movediça, não interessa se a factura da luz, da água e/ou do gás aumente, da mesma forma não importa que a idade da reforma também aumente para os 66 anos e dois meses, entre tantas outras coisas.

As festas natalícias traduzem-se num período de férias – para a esmagadora maioria dos portugueses – e como tal é tempo de recuperar as horas de sono perdidas durante o ano. Contudo, o nosso querido governo não parece operar do mesmo modo, mostrando apenas serviço durante este período em particular. Dizem os especialistas que tudo não passa de uma sábia estratégia, aproveitando o facto de os portugueses andarem a dormir para minar e/ou bombardear o país cautelosamente.

No dia 1 de Janeiro de 2015, subitamente, acordámos. Despimos o pijama que a avó tão gentilmente nos ofereceu no Natal, vestimos a nova roupa que os papás também nos ofereceram, porque até nos comportamos bem, tomámos o pequeno-almoço que ainda contém vestígios de chocolates caídos, sabe-se lá como, pela chaminé e saímos à rua para maravilhar o novo ano. Cá fora tudo parece igual. Inspiramos e expiramos lentamente, sorrimos, mas a nossa expressão muda passados 31 dias. As bombas, até então escondidas e esquecidas, explodem, fazendo-nos aperceber que 2015 acabou de chegar e também ele de cara e roupa lavada. A luz aumentou, a água também, o gás idem, o IMI só em algumas regiões e a reforma… Bem, essa é a mais preocupante. Quero acreditar que não sou o único a ficar indignado com tal medida.

Na qualidade de jovem, e como se já não bastasse ter sido remetido há algum tempo como pertencente a uma “geração à rasca”, vejo agora que a minha eventual (ou utópica?) reforma será passada a trabalhar… Até morrer? Bem sei que a esperança média de vida a par das facturas da luz, da água, do gás e do IMI; também aumentou, mas será que esse aumento se traduz em qualidade de vida? Não estará o senhor primeiro-ministro e o seu apêndice, Aníbal Cavaco Silva, conscientes da gravidade da situação que acabam de criar? Que, apesar de tudo, existem determinadas profissões, sobretudo as que envolvem esforço físico, em que é hipoteticamente impossível aguentar? Não quero com isto menosprezar e/ou banalizar aquelas que envolvem uma genialidade psicológica, não. Quero apenas que reflitamos nesta medida que se avizinha próxima no tão almejado novo ano. Quero também que os árduos anos de trabalho sejam recompensados com uma reforma tranquila e feliz. Quero que vivamos e não sobrevivamos. É o mínimo, senhor primeiro-ministro!

Depois de tanto sacrifício que uma TROIKA nos obrigou continuo a frisar que é o mínimo que pode fazer por nós. Mas é utópico crer que esta minha singela crónica seja lida atentamente por quem realmente desejo chamar à atenção… Ainda assim, tive uma súbita vontade de opinar e de me fazer ouvir nesta época natalícia que, para mim, é apenas a ocasião perfeita para se cometer um crime mais perfeito ainda, atirar areia para os olhos dos portugueses. Um feliz 2015 de um jovem pouco esperançoso!

Crónica enviada pelo nosso leitor Fábio Soares

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