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Uma vida pelos Açores

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Setembro. Dois mil e quinze. O nono mês do ano. Trinta dias. Virgem e balança. Os signos, respectivamente. Outono. A estação que ocupa o lugar do Verão. A ambiciosa queda da temperatura. O empalidecer das folhas. Árvores que se desmobilam . O tempo deposita no ar um cheiro frio. Uma outra Primavera. Cede ao cansaço. O sol torna-se pálido. E a chuva ameaça colina abaixo. Move-se de pranto. Ao vislumbrar os segredos da terra húmida.

Parece que foi ontem. Parece que tudo foi ontem. Que te conheci. Que distingui o amor. Por ti. Um amor não pontuado. Sem vírgulas. Sem pontos de final. Um amor maior que o céu. Um amor excessivo. Só nosso. Um amor preenchido de flores. Demoro-me no teu amor. Sabes disso. Um amor além da morte. Em cada poema o teu nome. E em cada palavra uma alegria imensa. Não questiones este sentimento. O que nos une. Do prazer de viver. De tudo o que nos faz prosperar. No leito da minha mente influi o meu empenho por ti. Amar-te ultrapassa qualquer realidade.

O paraíso somos nós. E Angra do Heroísmo. A lavoura determina uma elevada importância no quotidiano e na economia da cidade. Degustamos com aclamada exuberância todos os projectos envolvidos. Vivemos com paixão. Quando nos deliciamos com o Angra Jazz. Tu de fato e gravata. E eu de vestido comprido. Azul. Amarelo. Aos quadrados. Com flores. Sem flores. O mais berrante possível. Só porque me apetece. E posso submeter-me à excentricidade. Sou livre. Contigo. Quando deslizamos os pés no Angra em Festa. Ou abanamos o capacete no Angra Rock. E às vezes somos loucos. Subimos ao palco e estalamos os dedos no Festival de Folclore. A capital do lazer.

Quando há amor…há um acto de sentir que emerge. O companheirismo, absolutamente. Acontece sempre que nos deslocamos à Terceira. Ao teatro, por exemplo. Determinado no centro histórico da cidade. O imponente espaço. A superioridade desde o final do século dezanove. Erguido em mil oitocentos e sessenta. Já chorámos com a presença do grandioso Carlos do Carmo. Os teus dedos tocaram os meus. Recordo-me como se fosse hoje. Sorrimos com os Deolinda. E agarrámos com demasiada honra a estreia nacional da peça Boa Noite Mãe, de Celso Cleto.

Somos abraços. Somos gargalhadas. Somos todos os sentires. E, sobretudo, somos um do outro. Que é para não variar. Desde sempre. Ou desde que existe amor.

Não me canso de falar de ti. Assim como de Angra. Injectada num pequeno golfo natural único. Torna-se uma cidade com um clima temperado e com uma privilegiada localização geográfica; no centro do Atlântico. O usufruto de características ambientais ao ar livre.

Conheces com exactidão todos os meus planos. O meu bom gosto. Mulher que sou. Presto culto acordar ao teu lado no Garden Hotel. Rodeado pelos jardins municipais. O hotel. Colamos o rabo no bar com esplanada panorâmica. Onde ajeito o cabelo e tu a bainha das calças. Bebemos desmesuradamente. E caímos um no outro. Como dois amantes inexperientes.

Os nossos passeios são intemporais. O Jardim Duque, na Terceira, eleva-nos para um dos mais emblemáticos espaços dos Açores. Que conta com uma imensidão de tempo, por princípio do governador civil Afonso de Castro. Corremos. E eu às tuas cavalitas. Debaixo do olhar atento da população envolvente. Descansamos. Ofegantes. Mas completos. Ofereço-te uma palmada. Nas costas definidas. Beijas-me o rosto. Em sinal de aprovação. Nunca devemos deixar morrer o entusiasmo. Faz parte da rotina do amor. Da beleza contemplada. Semelhante  ao conjunto de quatro painéis de azulejos que representam  a parábola do Filho Pródigo de fabrico Lisboeta. De mil setecentos e quarenta. Oferecemos uma volta ao coreto. De mãos dadas. Em concordância. No plano mais inferior, ainda hoje é gratificado o género de jardim Francês. A panóplia de espécies botânicas estende-se até ao Alto da Memória. Ao longo da encosta.

Subimos até ao Alto da Memória. Previsivelmente. Situado no topo do jardim Duque. Adornado pelo Obelisco da Memória. Com vista para a cidade.

Um dia após o outro. É sempre uma vida a nossa estadia pelos Açores. Quando estamos felizes o cansaço é um mero pormenor quase inexistente. Um cansaço deitado por terra em relação à beleza do Parque do Relvão. Desenhado para os mais novos. Por onde a infância pode e deve ser degustada com prontidão. Um espaço que encerra um conjunto de equipamentos, tais como; basquetebol, redes de voleibol, e ainda um parque infantil. E o meu Simão. Que adora andar de baloiço. Que adora um bom desafio com os miúdos. O meu Simão. A caminho dos quarenta. Mais cinco do que eu. Abandono-o por instantes. Apenas deixo o meu coração. Caminho sozinha. Deambulo os pensamentos ao mesmo tempo que examino as muralhas da fortaleza de São João Batista até à baía de Angra.

Porque também sou feliz na rua. E não apenas dentro de quatro paredes. Sou complicada, confesso. E, por diversas vezes, dou por mim a sentir-me realizada por não ser homem e ter de casar com uma mulher. Todos os dias quero ser mais bonita para o Simão. Todos os dias quero ser mais mulher para o homem da minha existência. Mas não demasiado feminina. Não quero ser confundida com um enchido par de mamas. Ou com um estonteante par de pernas. Quero ser elogiada por ter um cérebro, vontades e desejos. Dez anos de casamento. Missão cumprida. Por agora.

Enquanto o Simão trata de alguns negócios da empresa, aproveito para viajar a Praça Velha. Melindrar os pés na calçada. Envaidecer os jovens calceteiros terceirenses que contribuíram, sob orientação de profissionais de Lisboa, para a realização de vários apontamentos de empedrado artístico da Terceira.  A verdadeira sala de visitas. Distribuo sorrisos. Alcanço novas amizades. Desvendo novas paixões. O ser humano é incrível. Degusto o meu café frio e vou à minha vida. Ou ao Simão. Que é a mesma coisa.

Oito dias…Sete noites. Tu…Eu. Apoio mútuo. Cuidar de outrem. Sentimento de afeição. De olhos fechados. Dois corpos inseridos numa só alma. Procedemos ao perdão. Sempre que as desavenças teimam em escorrer rosto abaixo. As nossas. Dispostos a tolerar os pequenos defeitos um do outro. Os nossos infalíveis. Somos iguais. A amizade que brotou sem razão. A melhor de todas.

Findamos a nossa demora no Cemitério das Âncoras. O célebre mergulho de trinta e cinco metros. O Simão não se atreve. Medricas. Cobardolas. Maluca que sou, aventuro-me. Na companhia de um mergulhador experiente, obviamente. Um culto secreto com mais de quarenta âncoras, despejadas devido ao mau tempo e a desacertos de ancoragem ao longo de diversos anos. Vou de encontro ao comportamento marinho; Sargos, Besugos Juvenis, Meros, Ratões. O entranhar exemplar. E o Simão de coração nas mãos. Semelhante ao terramoto de mil setecentos e setenta e cinco, em Lisboa. Com medo da perda. Tonto.

O regresso a Lisboa é realizado de forma tranquila.

Estamos longe de ser o casal primoroso. Escolhemos viver um dia de cada vez…juntos. Num tempo só nosso. Com respeito.

São as nossas incorrecções que nos tornam felizes. Sou tua. Simão.

 

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