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A vida de reformado pode ser muito interessante…

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O sonho de qualquer homem é chegar à sua idade de reforma e, simplesmente, não fazer puto. É levantar cedo – porque o corpo assim está habituado devido à sua extensa vida laboral -, passar cerca de duas horas com o rabo sentado na sanita na esperança que os seus órgãos não estejam igualmente na reforma, tomar a respectiva dose matinal de comprimidos e então ir para o café tomar o seu pequeno-almoço de rotina: um galão de máquina e uma torrada com pouca manteiga – por causa do colesterol. Não é uma má vida, há que reconhecer. Mas, por vezes, ser reformado, e estar rodeado de outros reformados, pode ser um pouco problemático e, quem sabe, até traumático.

Num destes dias decidi passar pela experiência de ser um reformado. Acordei cedo, passei uma hora na casa-de-banho a fazer as minhas necessidades fisiológicas enquanto visualizava pornografia de forma gratuita no telemóvel, perdão, enquanto visualizava as notícias no telemóvel (assim é que é…), e depois fui tomar o pequeno-almoço no café. Nada difícil de concretizar e nem sequer se pode considerar como uma experiência fantástica e super divertida. Não fosse, claro, eu ter chegado ao café e dar de caras com três reformados que debatiam um assunto muito interessante – pelo menos para eles assim o parecia, visto que estavam bastante empolgados nessa discussão.

Fiquei um pouco à escuta – enquanto me lambuzava com as doses industriais de manteiga que a minha torrada continha – e rapidamente apercebi-me do tema da discussão daqueles três reformados. Estavam a debater qual seria o melhor barbeiro para um deles ir cortar o cabelo porque, segundo ele, estava a precisar urgentemente. O diálogo era mais ou menos deste género (visto que eu tenho 34 anos, mas com um cérebro que se encontra já na pré-reforma e, por essa mesma razão, já não consigo reter tudo como quando tinha 33 anos…):

Reformado 1: Caramba, tenho de ir cortar o cabelo.

Reformado 2: Então estás à espera do quê?

Reformado 3: Sim, concordo. Isso está uma vergonha. Devias ir tratar disso o mais rápido possível.

R. 1: Pá, estou indeciso.

R. 2: Com o quê? Como deves cortar o cabelo?

R. 3: Pois, tens de ter atenção a isso. És reformado, logo tens um estatuto social a manter. Não caias em maluquices. Já não tens idade para isso.

R.1: Não é nada disso. Eu não sei bem onde ir…

R. 2: Oh, é esse o problema? Vai ao Antunes, pá!

R. 3: Não vás ao Antunes! Ele não sabe cortar o cabelo! Da última vez que lá fui vim pior do que estava. Ele devia era reformar-se, já não tem idade para andar a cortar cabelos. Está um velhadas do pior!

R. 2: O Antunes tem a tua idade! Estás a insinuar que és um velho jarreta? É que se tu és, nós também o somos! Tem lá cuidado com o que dizes, ó faz favor!

R. 1: Vá, não se chateiem. Eu também não aprecio o Antunes. Ele treme muito das mãos. O cabelo fica aos ziguezagues…

R. 3: Lá está. É um velhadas! Devia reformar-se!

R. 2: Então se ele é um velhadas, onde é que se pode ir cortar o cabelo, então?

R. 3: À Celeste.

R. 1: Mas isso não é uma cabeleireira?

R. 3: É. E então? É unisexo.

R. 2: Eh pá, isso é que não. Não confio nessas mariquices. Ou é um barbeiro ou então nada feito. Como as coisas andam hoje em dia, uma pessoa entra lá para cortar o cabelo e sai com umas extensões, rastas, ou dois totós na cabeça.

R. 3: És mesmo velho e antiquado!

R. 2: Velho é o senhor seu pai!

R. 3: O meu pai já não está entre nós, mais respeito!

R. 2: Senão fazes o quê? Agrides-me com a tua muleta? Ou retiras a placa da boca e mandas-me à cabeça? Ganha juízo, mas é.

R. 1: Meus velhotes, tenham calma. Não há necessidade disto. Eu só quero cortar o cabelo.

R. 3: Olha tu não te metas nisto senão quem te corta o cabelo sou eu, mas é à chapada!

R. 2: Ai de ti! Aí de ti que te atrevas a tocar nele! Ou tenho de te relembrar que, nos meus tempos de adolescente, tinha a alcunha de punhos de aço, quando praticava boxe!

R. 3: Tu nem uma mosca consegues matar, quanto mais teres punhos de aço! Seu idoso!

R. 2: Velho jarreta! Anda cá que eu parto-te em dois!

R. 1: Pá, vocês são mesmo velhos. Eu vou mas é cortar o cabelo.

R. 2: Então e vais cortar o cabelo onde?

R. 1: Em casa. A minha Maria trata disso!

R. 3: Ah, se quiseres posso emprestar-te a minha máquina de cortar cabelo que comprei em promoção no Lidl. É um espectáculo. Já tosquiei o Pilocas com ela e foi num fininho!

R. 1: Nã, obrigado, mas eu desenrasco-me com a minha Maria. Até logo!

R. 2 e R. 3: Até logo!

(Silêncio durante 15 segundos…)

R. 2: Queres um cafezinho?

R. 3: Não posso. Por causa da minha tensão. Vai uma amarelinha?

R. 2: Não dá. Por causa da minha cirrose.

(Silêncio ensurdecedor durante 2 minutos. Até que se levantaram e foram embora à sua vidinha.)

Nota: de realçar que, todos os três reformados sofriam de calvície extrema e só com uma lupa era possível encontrar um cabelo que fosse nas suas cabeças…

Isto é que é uma Vida de Cão, hein…

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