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5 Invenções Portuguesas Que Estão a Dar Que Falar

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Poucos lugares comuns estão mais enraizados na mente dos portugueses do que o bom, e velho, “lá fora é que se fazem coisas boas, em Portugal ninguém tem talento para nada”. Desvalorizar o talento nacional é, para muito boa gente, uma tarefa diária sem a qual a sua rotina não está completa. E se há estigma que deve ser combatido este é um deles, sem dúvida! Precisamente por isso é que o “Desnecessariamente Complicado” desta semana traz consigo cinco provas do quão espantosos e inteligentes podemos ser. Nesta crónica encontrará cinco invenções que estão a dar que falar, cá dentro mas também lá fora, tendo algumas delas inclusivamente ganho prémios de reconhecido prestígio!

Imagem ilustrativa da Nómada

Imagem ilustrativa da Nómada

O seu emprego, ou a sua rotina diária, implica que esteja sentado horas a fio? Sente-se, portanto, recorrentemente desconfortável e com dores ao nível do corpo todo, certo? Então esta invenção portuguesa vai, aposto eu, fazer os seus olhos brilhar. Porquê? Porque a Nómada é, nada mais nada menos, do que uma mesa adaptável que lhe permite trabalhar em pé. Mas vamos por partes: a mesa em questão está desenhada para ser colocada em cima de uma superfície já existente (como outra mesa ou secretária, por exemplo) e tem dois pequenos tampos cuja altura pode variar. Ou seja, a ideia é que o corpo fique esticado, com os ecrãs à altura dos olhos e os teclados ou ratos à altura dos braços, e não sentado e dobrado em posições incorrectas e dolorosas.

Esta invenção é da autoria de António Vieira, da Weproductise, sendo que a Nómada é apenas uma das dezenas de peças de mobiliário da marca Boomerango. Esta invenção começou a ser desenvolvida no início de 2015 mas só recentemente passou a estar disponível para compra.

Mas vamos a mais alguns detalhes desta invenção: o seu peso oscila entre os seis e os dez quilos (tornando-a extremamente móvel para qualquer pessoa); não tem um único parafuso, pois monta-se apenas com encaixes (algo que apenas contribui para a excelência da invenção); fica pronta a utilizar em menos de um minuto (o que é essencial no apressado mundo em que vivemos); é feita apenas com derivados da madeira provenientes de Portugal e da Finlândia e todos os materiais são ecológicos e possuem certificados de protecção da natureza (um pequeno-grande detalhe que vem provar uma vez mais que é possível continuar a evoluir e a proteger o meio ambiente ao mesmo tempo). Concluindo: só pode ser um orgulho que este objecto, e o seu inventor, sejam portugueses!

Versão alternativa da Nómada

Versão alternativa da Nómada

Para finalizar: a Nómada foi pensada, desenhada e produzida em Ponte de Lima; está disponível em dois modelos (um para adultos e outro para crianças) com acabamentos diferentes; a mesa pode, ainda, funcionar com um quadro branco, com base de escrita para canetas de feltro (o que se torna ideal para reuniões, por exemplo). E quanto ao preço? Calma, pode respirar fundo: esta invenção parece cara mas juro que apenas custa 89 euros.

Para o futuro a breve prazo a Boomerango promete o lançamento de uma linha de iluminação que possa ser integrada nesta invenção (permitindo assim a sua utilização em várias alturas do dia ou da noite) assim como uma linha de mobiliário funcional para casa e para o escritório.

Próximo destino? A medicina! Se posso ser mais preciso? Posso sim senhor: uma equipa de investigadores, liderada por portugueses, criou o primeiro sistema do mundo que usa tecnologia vídeo-3D, com baixo custo, para detectar movimentos corporais durante as crises epiléticas, podendo assim ajudar no diagnóstico e tratamento da epilepsia. A notícia foi conhecida recentemente, graças a um comunicado do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC).

João Paulo Cunha, responsável do projecto e Coordenador do Centro de Investigação em Engenharia Biomédica (C-BER) do INESC TEC, explica tudo isto melhor do que ninguém: “Este sistema 3D consegue extrair trajectórias de movimento corporal muito mais rápido do que os sistemas 2D anteriormente utilizados e, em conjunto com o EEG (eletroencefalograma, registo gráfico da actividade cerebral), oferece mais informação quantitativa para o diagnóstico e as decisões terapêuticas em epilepsia”.

O sistema está a ser testado, com sucesso, há um ano, no Centro de Epilepsia do Departamento de Neurologia da Universidade de Munique, na Alemanha, existindo planos para estender a sua utilização a outras unidades de saúde (como os hospitais de Santo António e São João, no Porto) estando o método a ser testado também na doença de Parkinson.

Este sistema tecnológico foi desenvolvido por investigadores do INESC TEC, da Universidade de Aveiro, da Universidade de Munique e da Universidade Técnica de Munique. Os resultados do trabalho com doentes epiléticos foram publicados recentemente na prestigiada revista científica PLOS ONE.

Catarina Grilo é a próxima protagonista em destaque. Neste caso não é dela o mérito desta invenção mas sim o da aplicação da mesma em Portugal. Há cinco anos, quando era estudante de doutoramento no Canadá, ficou surpreendida com a relação pouco provável entre uma ONG da área do ambiente e um grupo de pescadores que entregava peixe encomendado num ponto de encontro. Foi essa a inspiração para criar O Cabaz do Peixe, que desde Julho do ano passado funciona em Sesimbra e que está agora também no Seixal e em Palmela.

Neste momento são feitos 60 cabazes de peixe, com três quilos cada, por semana que custam 20 euros e que são entregues em dias e locais específicos. Desta forma envolve-se a comunidade piscatória e disponibiliza-se ao consumidor um produto de origem local a um preço mais reduzido. Contudo, os consumidores não podem escolher o peixe e um terço do pescado no cabaz é de espécies menos valorizadas, que nem sequer vão à lota.

Mas afinal, qual é o objectivo de tudo isto? Nas palavras da própria Catarina: “Este projecto permite reduzir o desperdício de peixe, melhorar a eficiência ambiental do pescado, e aproximar pescadores e consumidores, não havendo intermediários”. Este seu projecto conquistou uma menção honrosa no Prémio Terre de Femmes no valor de 3000 euros. A 7.ª edição do Prémio Terre de Femmes, da Fundação Yves Rocher, aconteceu recentemente e tem como função reconhecer e recompensar financeiramente mulheres eco-cidadãs de oito países: Portugal, França, Alemanha, Suíça, Rússia, Marrocos, Ucrânia e México.

E se Catarina Grilo foi galardoada com uma menção honrosa já Inês Rodrigues (Professora no CICCOPN – Centro de Formação Profissional da Indústria da Construção Civil e Obras Públicas do Norte, na Maia) foi a grande vencedora do ano. Os diversos projectos da ONG Educafrica, fundada pela própria Inês Rodrigues, valeram-lhe um prémio no valor de 10 mil €! E esta menção é não a uma mas a várias invenções, e projectos desta ONG.

O projecto Tabanca Solar ajuda mais de 5000 pessoas de cinco aldeias remotas da Guiné Bissau e inclui: lâmpadas que são garrafas de água (solução já adoptada em vários pontos da América Latina e não só), fornos solares, sistemas fotovoltaicos que iluminam centros de saúde e escolas e desidratadores solares para secar e conservar frutas e legumes.

Todas estas diferentes facetas são preciosas ajudas para quem nada tem e de tanto precisa. Claro que continuam a existir muitos outros problemas no quotidiano destes milhares de famílias, contudo todos os pequenos passos são valiosos avanços.

A Educafrica foi pensada com calma e talvez seja isso que faz a diferença para tantos outros projectos que acabam por fracassar. Por exemplo, Inês precisou de dois anos só para juntar parcerias e perceber com os seus alunos africanos as melhores maneiras de melhorar as condições de vida de quem vive num dos países menos desenvolvidos do planeta. A ONG, que neste momento tem cinco voluntários, e que ainda não tem sede, basicamente dá a cana e ensina a pescar.

Para finalizar é importante referir a importância, e a independência, dos prémios ganhos por Catarina e Inês. Os projectos candidatos ao Terre de Femmes foram avaliados por um júri nacional e independente constituído por representantes da Liga para a Protecção da Natureza, Quercus, Inspecção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território e do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

“Mas e a quinta invenção?” Tenha calma estimado leitor, ia agora mesmo falar dela! O último destaque é todo para…um berço. Sim, leu bem: um berço! Este berço nasceu das mãos de uma designer portuguesa e só precisa de investimento para passar de um protótipo a um produto comercial. É funcional, preocupa-se com a segurança do bebé, é durável, sustentável e ainda se transforma numa caixa de arrumação quando já não é preciso! O HOGIE está pensado para ser utilizado em infantários, mas aposto que todos os pais o quereriam nas suas casas!

Hogie

Duas das funções em que a Hogie pode ser utilizada

O berço conta com três versões desde o nascimento até aos quatro anos: mini-berço, berço e catre. É construído num material transparente que permite um melhor controlo e vigilância da criança, transmitindo-lhe conforto dado que também ela consegue ver o mundo exterior.

A altura elevada do berço permite que os educadores e pais não adquiram má postura quando colocam a criança na cama.  As pegas laterais permitem que o mini-berço seja transportado facilmente, podendo ainda ser colocadas rodas. O HOGIE permite também que o colchão seja elevado, assumindo assim uma posição de segurança recomendada actualmente pelos médicos. E as peças protetoras impedem ainda a colocação do berço diretamente no piso, facilitando a limpeza.

Patrícia Cruz, é estudante de design na Universidade de Aveiro e é autora do projecto. O HOGIE nasceu depois de uma pesquisa da aluna num infantário da região de Aveiro, restando-nos agora aguardar que surja o investimento necessário para que possa ser comercializado.

Patrícia, Inês, Catarina, João e António são nomes tão comuns quanto quaisquer outros. Contudo encerram em si mesmos a determinação, o engenho, a inteligência e o talento de toda uma nação. Todos eles são anónimos, infelizmente. Esta crónica tenta contrariar isso mesmo, dando-lhes o destaque que tanto merecem. Esperemos que, daqui para a frente, os portugueses olhem com mais atenção para tudo aquilo que os seus conterrâneos fazem e dizem, dando-lhes o devido valor.

Boa semana.
Boas leituras.

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