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Aboliram-se os impostos!

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Como se sentiria, caro leitor, se eu, do alto da minha importante posição de escritor que você nunca conheceu, anunciasse que os impostos haviam sido abolidos? Esperançoso? Preocupado? Ambos? Direto ao assunto, vamos a factos: ao longo das últimas duas semanas e meia, dois assuntos dominaram as cadeias noticiosas portuguesas: a frase mal colocada de António Costa, perante uma série de investidores chineses, e o desrespeito fiscal por parte do Primeiro-Ministro, Pedro Passos Coelho. Há quem ainda fale de alegadas dívidas de António Costa, porém, as fontes são extremamente contraditórias, pelo que, atendendo aos desmentidos que entretanto foram publicados, não se tomará tal em consideração nesta crónica.

Porquê falar nisto? Porque, literal e subitamente, parece que nada mais importa neste país à Beira-Mar-Plantado. Não parece que temos uma dívida gigantesca a pagar, não parece que existem pessoas a morrer à fome, não parece que temos pessoas a morrer nas urgências dos hospitais, não parece que os bolseiros de investigação continuam sem ser considerados trabalhadores, não parece que existem idosos cujas pensões são tão baixas que deixaram de comprar medicamentos, etc, etc, etc. A lista é infindável.

Os Meios de Comunicação, em perseguição à maior audiência possível, decidem seguir o repto do eurodeputado do CDS, Nuno Melo, atribuindo a frase “o país está melhor” a António Costa (nem sequer se dando ao trabalho de o citarem palavra a palavra, veja-se uma publicação da concorrência que, por razões legais, não poderei mencionar, mas cujo nome começa por “O” e acaba em “…dor”, e pelo meio tem as letras “… Observa…”, o qual, de facto, é capaz de causar alguma dor e potenciais danos oculares e cerebrais), realizando furor político, com Costa extremamente embaraçado, e o PS tentando defender-se sem no fundo reiterar a mensagem do Governo, em como “O País está melhor”. Tal caso não é, sequer, interessante, não fossem os partidos da Governação terem aproveitado para simplesmente ironizarem a mesma…

Eis se não quando uma pequena bomba atómica se abate sobre o Primeiro-Ministro, e líder do PSD, Pedro Passos Coelho: não pagou os seus impostos à Segurança Social. Ele que afirmou que muitos portugueses não pagavam impostos. Que estes precisavam de ser pagos para que Portugal melhorasse. E a comunicação social, subitamente, virou um coração palpitante de virgens ofendidas, contra e em defesa de Pedro Passos Coelho.

É incrível, caro leitor. É incrível que, num país onde haja uma ênfase tão grande na necessidade de pagamento de impostos, Passos Coelho não seja, sequer, capaz de pedir desculpas por não cumprir as suas obrigações, não os tenha pago (alegando “desconhecimento”), a não ser depois das pressões da Comunicação Social e dos partidos e, por fim, como raio é que ainda não se demitiu. Muitos casos houve de Ministros e Chefes de Estado que se demitiram por questões relacionadas com as suas vidas pessoais, mas as quais minavam a sua autoridade. Este é um caso óbvio… E Passos Coelho viu, aqui, a sua legitimidade, que já era mínima, completa e totalmente destruída.

E com isto, quem é que ganhou com tais notícias? Ninguém.

Mais e mais pessoas ficam, todos os dias, mais e mais desapontadas com as atitudes de quem está em lugares políticos. Se queremos um sistema democrático com qualidade… Eu sugiro um mínimo de decência política e cultural associada a cada um. Mas mais do que isto, há outras questões a serem abordadas. Há leis a serem aprovadas, há propostas partidárias a serem lançadas, e houve pouco ou nenhum destaque dado às mesmas.

Sim, Costa disse algo que, fora do contexto, foi uma idiotice. A Direita ri um bocado, o Partido Socialista indigna-se com a incompetência jornalística, alguns processos chovem em cima da Comunicação Social (porque a Entidade Reguladora não atua quando é importante) e dos tribunais, e tudo é esquecido. O Primeiro-Ministro não pagou os seus impostos, demite-se, escolhe-se um novo Primeiro-Ministro, e seguimos em frente, porque, caramba, temos pessoas a morrer nas urgências dos Hospitais e, sinceramente, há questões mais importantes do que um criminoso que não paga os seus impostos.

O problema é que não vivemos num país onde as pessoas em posição de poder se retratam e/ou se demitem por cometerem erros tão gravosos que levariam quaisquer outros cidadãos à prisão. E tal deslegitima toda e qualquer posição do Estado.

Well played. Se não estivesse a escrever este texto, estaria a bater palmas.

Enfim. Foi tal o domínio destas temáticas que as semanas políticas se resumiram a isto mesmo. E à mesmíssima conclusão de quem toma um mínimo de atenção à política internacional: Neste canto, lembrado apenas por aqueles que procuram ser o contrário de Lannister’s, não se passa nada. Comunicação Social de qualidade (duvidosa), um Primeiro-Ministro com um fantástico sentido de exemplo e liderança, e um público fantasticamente educado pela Casa dos Segredos.

Estará o país melhor? Num país onde, para além dos problemas já enunciados, há um Primeiro-Ministro que não pagou impostos e um ex-Primeiro-Ministro detido (o que, por si só, é mau), independentemente da sua eventual/alegada culpabilidade (o que é ainda pior) e onde os procedimentos judiciários foram grosseiramente violados (que é ainda mais grave), parece-me que a resposta está encontrada. Tal comprova um total desfasamento da realidade humana e da realidade percebida dos autores desta afirmação.

 

São as pessoas, estúpido!

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