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África minha???

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O Huambo.

Angola

No dia em que conheci o Huambo, travei conhecimento com as incomensuráveis trovoadas africanas que rasgam violentamente o céu de luz e num frenesim alucinante prenunciam as abruptas quedas de água, chuvadas diluvianas. E rugidos de trovões.

Ficamos com a sensação que tudo vai desabar; que a linha do horizonte desapareceu e perdemos o norte, o tino, o sangue-frio. E subitamente, de forma tão extemporânea como no início do evento – que vem sem se anunciar – tudo retoma à calma e bonança da plácida paisagem africana, perfumada de forma ímpar pelo odor adocicado da terra húmida, com cheiro de mulher que quer ser provada e saciada. Muitas vezes tentei identificar este odor da minha paleta de cheiros até perceber que se trata da intimidade da terra africana, subtilmente insinuando-se, lançando os seus feromonas nas fragrâncias do ar.

Eis-me na comprida varanda da casa rosa e azul da cidade baixa. A grande e longa varanda com vista para a linha do horizonte. O recorte das colinas, o desenho invulgar das nuvens adensando-se no céu inquieto. E a chuva intermitente, grossa e morna, lavando tudo à sua passagem. E o céu rasgando-se, vociferando, praguejando.

Como uma criança encantada pelos mistérios da vida, ali estou eu apoiada no varandim, de olhos bem abertos. Absorvendo avidamente o fascinante espectáculo. Tenho os braços molhados e os sentidos bem despertos alertam-me de presença humana na proximidade. Alertam-me para o inevitável: que me vou molhar, que me venha abrigar no interior, que “venha para dentro”. E sorrio. Porque “estou dentro” à espreita do que se passa no exterior. E em perfeita harmonia de perspectivas. E mantenho-me na varanda. Sozinha. Molhando as mãos. E olhando-as. Olhando a minha pele branca, as veias azuladas que desenham escuras estradas no meu antebraço. Os dedos compridos de unhas rosadas. E as minhas mãos parecem-me agora estranhas. Como se não me pertencessem. E acho-as belas. Por tudo aquilo que posso fazer com elas. E lavo-as na chuva africana, respirando fundo e sentindo o pulsar da terra no meu peito. A energia desta terra rubra que me inquieta e vibra nas entranhas me remexe as vísceras com um à-vontade que me paralisa esporadicamente, sem pedir permissão. Olho as mãos e vislumbro nelas uma sensualidade que nunca tinha percebido.

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A caminho do Bailundo 2013

Muitas vezes lancei as mãos fora das janelas, das varandas, do carro para as lavar com a chuva da terra africana. É algo que me encanta. Desperta os meus sentidos através do tacto. Uma espécie de frescura que perscruta a quintessência da minha alma. Como num reconhecimento de território. Algo de nós próprios conecta-se à terra. E afirmamos: esta terra é minha! Mas não é. Nada nos pertence de facto. Só um empréstimo – repito para mim. Tudo um empréstimo. Uma falsa ilusão de propriedade. E passamos uma vida inteira a juntar dinheiro para pagar aquilo que nunca é nosso. Esquecendo-nos, frequentemente, de viver os momentos únicos que nos são ofertados. E a simplicidade das dádivas. Os belos e ímpares presentes de Deus. No dia-a-dia.

Às vezes acontece chegarmos a um local novo – onde nunca tínhamos estado antes – e abrir-se uma porta misteriosa dentro de nós. A racionalidade não nos deixa lugar para explicações. São os eternos dilemas entre o cérebro e o coração: o que se pensa; o que se sente. A paradoxal dialéctica dos Eus internos. O Huambo despoletou essa peculiar epifania em alguns de nós. O Huambo, fortemente estigmatizado como território de guerra, exibindo orgulhosamente as suas cicatrizes. Visíveis por toda a parte. Não só nos estilhaços dos vidros das janelas dos edifícios públicos e casas privadas. Nas paredes destroçadas das casas. Nos bocados de pavimento arrancados ao próprio chão. No traço desconcertante das balas, das bombas, da desolação da guerra, do cheiro dos mortos. Visíveis por toda a parte. Principalmente nas pessoas. Particularmente naqueles que fizeram parte da guerra. Ao lado do MPLA ou da UNITA – não interessa agora. Porque, segundo Espinosa, o homem livre é aquele que menos pensa na morte, pois a sua sabedoria não é uma meditação sobre a morte, mas sobre a vida (in Ethica 4).

E o despoletar desta vergonhosa guerra ficará sempre na consciência da impotência não assumida do colonizador que não quis, pôde ou não soube gerir a entrega daquilo que se arrogou como direito adquirido. E que na realidade, tendo sido seu por longos cinco séculos, nunca o foi de facto.

Mas, às vezes acontece chegarmos a um local novo e abrir-se uma porta misteriosa dentro de nós. E o Huambo abriu várias portas à sensibilidade de quem se abriu ao Huambo. As primeiras impressões pautaram-se pela inquietude. Pela presença de descontentes e revoltados fantasmas, arrancados abruptamente à vida, vagueando pela cidade em desolada peregrinação. Quase toda a gente perdeu um ou mais familiares nesta guerra inútil – aliás, como todas. E as cicatrizes dos conflitos inscreveram-se muito mais profundamente no coração dos homens. Tiveram de aprender que o poder dos fortes se cimenta a sangue, mas o cheiro do medo, esse existe em todas as pessoas[1]. Depois da inquietude, dos vestígios da guerra, do cheiro a morte que se exala em cada esquina, vieram as chuvadas que teimosamente insistiram em purgar a própria natureza. As águas abundantes rasgando os céus com pujança e levando tudo em seu redor. E em cada minúscula folha da mais ténue árvore, em cada arbusto que teimosamente rebenta entre o asfalto da rua ou a pedra da calçada, há vida. Uma vida imperiosa. Soberba. Implacável. Da qual não há fuga possível. Há o incomensurável milagre da vida brotando, rasgando em cada canto da cidade. E ouvimos a voz de Deus. Na realidade, muitas vezes ouvi esta voz ao longo da minha existência. Ouvi-a no vento que me sussurra canções de tempos muito antigos, das infâncias da terra; ouvi-a segredar-me o caminho nos momentos em que estive perdida e chorei amarguradamente por isso; ouvi-a nas memórias dos tempos, no riso das crianças que brincam nos jardins do mundo; nas vozes inaudíveis das minhas filhas, agora e há muito nas mãos de Deus.

E somos transformados pela contemplação.

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Huambo Cidade – Jardim Botânico

Ao regressar, jamais seremos iguais. Algo de nós se quedou aqui. Faz parte desta dimensão. E não adianta pensar que se vai recuperar os fragmentos vertidos. Há quem lhe chame viajar, experimentar ou vivenciar. Eu chamo-lhe “dar-se na plenitude”. Entregar-se. Abrir-se. Mas nesta conexão há também o receber. E recebe-se. Não para suprir o que se dá – porque não se trata de uma simples operação contabilística de deve e haver. Mas recebe-se. E preenche-se. E há sempre espaço para o preenchimento. E sempre disponibilidade para dar. É a esta maravilhosa interacção que chamo de amor.

Depois foi a magia. Huambo é uma terra mágica. Não é preciso ser-se um génio para o perceber. E não tem só a ver com o clima, reduto fascinante do planalto Angolano; nem se justifica pelo nome que o colonizador lhe deu de Nova Lisboa. Talvez seja pelo seu povo, a etnia dos Ovimbundo que são um aglomerado suis generis pelo facto de se constituírem como um mosaico de povos miscigenados, incluindo “os ocidentais, orientais, Baluba do Congo, Matembele da Zâmbia, os Zulu da África do Sul, escravos fugitivos, os além-Kasay, os Baxilele, os Marutzes do Lago Niassa”[2] entre outros. Talvez seja a sua humildade, a generosidade ou a forma peculiar como raramente dizem o que pensam. Dito de outro jeito: a dificuldade que experimentam em usar de franqueza – talvez por hábito ou medo de ferir susceptibilidades. Os fantasmas do colonizador branco ainda os assombram. O português ainda vive nas suas memórias, nas suas peles tintas de sangue e trabalho. Mas negam-no. A maior parte das vezes. Não fosse tão exímia observadora e teria acreditado em mais de metade daquilo que me contaram e disseram. A ambiguidade gerada pelo português revela-se na relação paradoxal de amor/ódio. Na admiração e no repúdio. São estes contrastes de sentimentos que os tornam especiais. E fascinantes. São capazes de discernir entre os portugueses colonizadores d’outrora e os portugueses actuais?

A cidade do Huambo é um microcosmos onde todos somos visíveis. E se julgamos o contrário, uma vez mais nos enganamos. Com as devidas distâncias, é como se fosse uma pequena vila do interior de Portugal. Provinciana. Calma. Pacata. Tranquila. Mas, na realidade, ser e parecer são duas realidades distintas. A cidade parece tudo isto mas, sob esta terra está latente um monstro adormecido que a qualquer momento poderá acordar. É um subterrâneo misterioso de raízes profundas. É como se os seus mortos esporádica e ciclicamente se revoltassem por estar mortos e se erguessem abruptamente como no dia do juízo final. Não pelo chamamento de Deus, mas pela sede de uma vingança que não cabe já em canto nenhum da cidade. Que abortou há muito por falta de oxigénio. O povo quer a paz e preza-a. Orgulha-se dessa dúzia de anos de bonança. Ou pouco mais que isso. E segundo Virgílio, “a alma move toda a massa do mundo.” Mas ninguém sabe o que vai acontecer no segundo seguinte. Só mesmo Deus.

[1] In Memórias de Agripina, Seomara Veiga Ferreira, Edt. Presença, 1ª. Ed. 1992, Lisboa, pp. 116 e 348.

[2] In Os Planálticos de Angola, Armindo Jaime Gomes 2013 (no prelo)

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Angola 2015

1 Comment

1 Comment

  1. Jose Mota Vieira

    21/09/2016 at 22:37

    a primeira vez que vi isso foi em Nambuangongo nos Dembos era muitas trovoadas se era magnifico mas também brutal o natureza parece que se tinha zangado com todos, isto aconteceu no já longínquo ano de 1971

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