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A Apologia da Incoerência

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Regresso. Tarde e a más horas, como bom português, para a maledicência típica de quem opinião tem para dar. O leitor, em casa, merece-a não porque a quer mas porque dela precisa, vive disso, da opinião dos outros, do fruto da pesquisa de outrem, que vem moldar a sua que não pesquisou, dando início à introspeção diária cuja sentença está ditada. É culpado por não se saber pesquisar a si, pois que sem se conhecer jamais se reconhecerá em qualquer ensaio que leia, permita-me a pretensão.

Recordo-me agora, de momento, de muita gente que nunca se conheceu, que nunca se viu por dentro qual Blimunda, e que por aí se tropeça, nas pedras da sua calçada ou nas tábuas do seu caixão, cruzes credo. Em suma, numa conclusão introdutória a vincar o paradoxo, em todos nós habita um Basílio Horta, por mais pequenino que seja, ainda mais do que já é.

Habitamos num covil de hipocrisias várias, daquelas que começam ainda as pernas não levantam, como a palmada do médico, que é exemplo de escola nesta matéria. Bate hoje no garoto para que chore, chora amanhã pelo garoto que apanha e é assim que vivemos o primeiro quarto dos oitenta anos a que chamamos esperança média de vida que é como quem diz trânsito de portagem.

Seguimos na incongruente viagem do contraditório, na pele do homem de meia-idade a quem sobra tempo, não se sabe se desempregado, inválido ou uma confluência dos dois, que assiste piamente a séries infanto-juvenis ou observa, num qualquer jardim, os passeios da juventude, onde coincide com a sua nostalgia o pedófilo desejo de amar agora a sua esposa dos anos setenta, ou uma versão moderna da mesma.

Neste incessante movimento de contradições, onde ‘’a terra gira ao contrário/ e os rios nascem no mar’’, tanto fica por dizer quanto aquilo que não queremos falar. Conservamos, cada vez mais, a prática da mentira interna, essa que só a nós nos engana e em que acabamos por acreditar, por força do hábito, ao estilo barroco de não bastar ser, mas sim parecer. Então, parecemos aquilo que não somos e, mais grave, aquilo que muitas vezes não queremos ser, embora nos regozijemos com isso, talvez porque simplesmente não nos queremos ser qual abdicação pretensiosa de identidade.

Enfim, e Freitas bem as contas ao culto do ‘’virar a casaca’’ constante que perdura no chão que ainda piso, isto porque, tal como o do leitor, um dia acabará por cair, teremos uma conjuntura de coerência deficitária que, qual mestre de oportunismo e dissonância ideológica, nem um Durão reverterá.

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