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O ateu, o crente e o facebook (Conto – Parte I)

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A hora era tardia, tão tardia que não havia dia que a possuísse, enquanto João e Diogo, continuavam a ser o mundo de Diogo e João. Não que se tivessem visto algum dia, a não ser numa pequena foto, sobre um pequeno ecrã, em cima duma pequena secretária. Mas, por partilharem a mesma vontade de serem guerreiros ao serviço duma nobre causa, e uma vontade divina que os colocava em lados opostos da barricada.

Um via-se como um qualquer cruzado cibernético, o outro como um revolucionário sentado no seu sofá, os dois como imbatíveis.

E enquanto a hora era conquistada pelo novo dia, eles faziam de teclados e ratos, os seus adereços bélicos.

– Ateu! –digitou Diogo, com maior desprezo que nas noventa e nove vezes anteriores – de onde vem a vida?

– Crente! – respondeu João, num toque mais irónico que nas noventa e nove vezes anteriores. – De onde vem Deus?

E assim, começava uma nova ronda de argumentos repetidos, respostas prontas que os dedos já conheciam, em áreas tão vastas como, esperem um bocadinho para eu suster a minha respiração: homossexualidade, sexo anal, improdutividade do sexo oral, teoria da evolução, Arca de Noé, ónus da prova, racionalidade ateia, irracionalidade cristã e o inverso, religião ateia, dizimo, “ateizimo”, direitos de autor divinos e terrenos sobre a Bíblia, anti-ciência, pró-ciência, direitos de autor sobre a mesma, até à ameaça da eternidade no Inferno.

As horas iam passando, como os assuntos por entre os dedos deles, com a velocidade com que os centésimos de segundo se amontoavam num qualquer relógio digital, e a cada um deles, um novo argumento aparecia, no fundo, um novo raide.

O cansaço trouxe os insultos, que não vou colocar aqui, não por qualquer laivo de pudor, mas para deixar alguma coisa para a vossa imaginação.

E assim continuaram, sem sair do seu lugar de combate, sem se lavarem, sem comerem, sem sequer irem à casa de banho, sob risco de serem interpretados pelo adversário como desertores.

Mas, teve um fim, sim, a discussão que durava há três dias acabou, da única maneira possível, com a cabeça de ambos sobre o teclado, já sem vida mas ainda a digitar.

Um empate fruto da resiliência de ambos, diria até justo, no entanto, a justiça não acompanha a vida e muito menos a morte. E este combate não iria ser exceção. Pois, Diogo aguardava-o com o seu sorriso triunfante, visível a um quilómetro celestial de distância, que atrasava ainda mais os passos derrotados de João.

Depois do caminho feito, encontrou o seu rival acompanhado de alguém, e vejam lá, para sua angústia, o seu nome era mesmo Pedro, e era mesmo Santo.

Às portas do paraíso, a viagem ainda agora tinha começado, com uma eternidade desconhecida para o estado de espírito de cada um deles mudar, ou talvez não. Não sabemos se existe castigo para a blasfémia facebookeana, ninguém sabe, aquilo que posso adiantar, é que a famosa paciência de Santo irá ser testada como nunca.

Por isso, não perca o artigo da próxima semana com o final desta história, porque eu… também não!

Ps. Peço desculpa aos não fanáticos por Dragon Ball, mas sempre sonhei dizer isto. Obrigado pela compreensão.

 

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