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O Bloco de Esquerda, Jesus Cristo e a Polémica dos Cartazes

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Estávamos em 1966 quando no cinema estreou “The Good, The Bad and The Ugly” (que, em Portugal, foi traduzido para “O Bom, o Mau e o Vilão”). Passados cinquenta anos a película permanece como uma das melhores de sempre da Sétima Arte logo, é normal, que tenham tentado copiar o seu formato vezes sem conta. O mais recente caso de alegado plágio envolve um trio improvável: Jesus Cristo, um Cartaz e o Bloco de Esquerda (sim, “esse” Bloco de Esquerda, até porque, que eu saiba não há outro). Claro que neste caso não é óbvio quem é quem (dependerá dos olhos, e da mente, do espectador), mas precisamente por isso é que cá está o Mais Opinião! Esta edição do “Desnecessariamente Complicado” terá iguais doses de política, religião, humor e….estupidez.

Não tardaram as paródias ao cartaz do Bloco de Esquerda. Esta, envolvendo Marco Paulo, tornou-se especialmente viral.

Não tardaram as paródias ao cartaz do Bloco de Esquerda. Esta, envolvendo Marco Paulo, tornou-se especialmente viral.

O leitor mais distraído terá, julgo eu, uma pergunta: “Ah, mas esta polémica do Bloco de Esquerda já é da semana passada, estás atrasado!”. Não, na realidade estou no tempo certo (pelo menos naquele que eu acho ser o tempo certo). O facto da polémica ter acontecido na semana passada não a torna “antiga”, os tempos que correm é que são tão rápidos e repletos de informações, opiniões e debates que tudo parece antigo passados dois dias. Somos bombardeados 24h sob 24h por dia sobre qualquer pequena coisa que acontece. Resultado? Passadas seis horas já estamos completamente fartos de ouvir falar naquilo. É que nestas seis horas já ouvimos 45344 comentadores, 3221 familiares, amigos e vizinhos dos visados e 1122 notícias e artigos especulando sobre os culpados. Contudo eu sou da opinião de que mais vale esperar que a poeira assente do que falar sem conhecer todos os factos. E é precisamente por isso que só agora darei a minha opinião sobre a referida polémica dos cartazes do Bloco de Esquerda.

Comecemos pela conclusão da analogia cinematográfica utilizada acima. Ora aos olhos dos cristãos (ou dos religiosos em geral, vá) Jesus é claramente “O Bom”, os cartazes são sem dúvida “O Mau” e o Bloco de Esquerda nem se discute que seja “O Vilão”. Para os militantes, ou simpatizantes, do Bloco de Esquerda escusado será dizer que a ordem é a inversa (sendo os cartazes “O Mau” dado que até eles sabiam que isto só podia correr mal…). Para os “comentadores de bancada” (que é como quem diz “das redes sociais”) não são precisos tantos papéis: afinal de contas “O Bom” está, claramente, a mais. Para os opinadores profissionais dos jornais, televisões e blogues (onde, como me parece óbvio, não se inclui este prestigiado espaço que é o Mais Opinião) duas personagens continuam a ser demais quando tudo e todos se enquadram perfeitamente no “Vilão”.

O segundo lugar das paródias virais vai, claramente, para a versão do Canal Q.

O segundo lugar das paródias virais vai, claramente, para a versão do Canal Q.

O cartaz é, sejamos sinceros, completamente despropositado. Primeiro: o tema em causa já nem sequer está em debate. Já tivemos a discussão, e aprovação, do tema em plena Assembleia da República, logo para quê continuar a falar de algo que é um “não-assunto”? Segundo: conseguiram exactamente o queriam não foi? Então para quê esta atitude? Se tivessem visto a proposta rejeitada eu entenderia (estariam, como se diz na gíria futebolística, “aziados”). Mas se tudo foi aprovado sem qualquer problema este tipo de atitude justifica-se? Claro que não. Esta era uma oportunidade de ouro para o Bloco de Esquerda demonstrar o quão maduro é. Sim, porque numa altura em que todos temem que as “dores de crescimento” afectem o desempenho do Bloco de Esquerda esta polémica não só não ajuda nada como…piora substancialmente as coisas. É que, daqui para a frente, todos dirão “e se eles voltam a fazer algo disparatado, como naquele caso dos cartazes?”.

Terceiro: os dirigentes do Bloco de Esquerda têm noção do quão grande, e forte, é a religião católica em Portugal, certo? Então porque carga de água é que se meteram com eles? Era mais do que óbvio que nada de positivo sairia daquele “combate”! Quarto: esta polémica pode, facilmente, não só afastar os actuais eleitores como diminuir as hipóteses de conquistar novos eleitores (estejam eles entre os indecisos ou nos partidos de esquerda) o que é preocupante para o futuro a médio/longo prazo. Quinto: se o objectivo de tudo isto era aproximar mais o Bloco de Esquerda da extrema-esquerda então podem…ter sido bem sucedidos. Este reforçar de posição era, contudo, desnecessário porque o mais recente acto eleitoral provou que o BE conquistou o seu espaço, não dando sequer sinais de abrandamento/diminuição.

Mas vamos ao cerne da questão: quem é que, no seu perfeito juízo, achou que era uma boa ideia fazer este cartaz? É que por muito pouca experiência, sabedoria ou conhecimento do eleitorado do Bloco de Esquerda que essa pessoa tivesse, tal nunca chegaria ao ponto de criar algo de tão mau gosto. E mesmo que essa pessoa tivesse cometido um erro de tão grandes dimensões quero acreditar que na pirâmide do poder do Bloco de Esquerda alguém teria tido o bom senso de vetar a ideia. Contudo, infelizmente, das duas uma: ou a ideia não passou por quem tinha que passar (sendo, assim, aprovada por pessoas que não tinham competência para tal, o que é gravíssimo num partido político) ou então Catarina Martins e companhia deram, parvamente, um grande passo rumo ao precipício.

Depois de toda esta confusão não houve notícia de afastamentos, exclusões ou sanções a militantes do Bloco de Esquerda logo….ou eles não existiram ou foram muito bem escondidos da imprensa. E dado que em Portugal tudo se sabe isso significa que internamente é como se nada tivesse acontecido. O que é, na minha opinião, ainda mais grave! Então é cometido um erro destas dimensões, colocando em causa todo o trabalho desenvolvido pelo BE nos últimos anos e ninguém é considerado culpado? Ainda não perceberam onde vou chegar?

Então….só não há culpados se…a culpa for da elite do partido, exactamente! Se a responsabilidade recaísse num militante de base (algo impossível na prática, mas vocês perceberam o que queria dizer) há muito que o mesmo estaria nas capas dos jornais. Contudo, se a culpa for de Catarina Martins e das irmãs Mortágua (para dar apenas três exemplos) tudo fica na mesma, obviamente.

Nem António Costa nem Jerónimo de Sousa escaparam por completo a esta polémica!

Nem António Costa nem Jerónimo de Sousa escaparam por completo a esta polémica

Para mim a parte mais bizarra de tudo isto é…o quão bem Catarina Martins saiu disto publicamente. Sim, porque embora tenha assumido o erro e a culpa do mesmo, não se levantou um coro de criticas pois não? Não vimos manchetes atacando a nova “menina bonita” do Bloco de Esquerda, pois não? Pois não, não vimos nada disso. Vimos foi ataques ao Bloco de Esquerda, num todo. Conclusão: Catarina continua com uma excelente imagem na imprensa e junto dos eleitores e o Bloco de Esquerda vê o seu nome e reputação arrastada para a lama. Alguém duvida que se tudo isto tivesse acontecido com o Partido Socialista tudo e todos teriam pedido a “cabeça” de António Costa? Sim, eu sei, que esse caso seria ainda mais grave que este (ou não fosse ele Primeiro-Ministro), mas independentemente disso ele seria trucidado na praça pública.

Apenas o tempo dirá se este episódio terá reais efeitos negativos ou se tudo será esquecido rapidamente. Do seu lado o Bloco de Esquerda tem algo de significativo: não haverá eleições tão cedo (pelo menos em teoria, atenção). E porque é isso relevante? Porque se tivéssemos eleições dentro de dois meses, por exemplo, tudo isto jogaria, e muito, contra as percentagens de voto do BE. Assim a tendência será para esquecer este episódio em detrimento de outra qualquer polémica.

Mas mesmo que nada disto traga consequências negativas para o Bloco de Esquerda (ou para os seus líderes) o mal já está feito: para muitos esta era a prova que faltava em como Catarina Martins, e todo o restante Bloco de Esquerda por arrasto, ainda não estão preparados para ocupar um papel tão determinante no futuro do país. No extremo oposto muitos defenderão, de forma acérrima, a liberdade de expressão e o direito a arriscar e a fazer (más) piadas em cartazes pelo país fora. E, como sempre, a verdade estará algures no meio de tudo isto, incrédula com a parvoíce a que chegou a política actual.

Boa semana e boas leituras.
Amén.

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