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Boa sorte, irmãos gregos

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A chantagem europeia à Grécia tem limites. O limite muito claro, há muito definido pelo Syriza, partido maioritário no governo grego, é o de não efectuar qualquer tipo de cortes nos salários e pensões dos seus concidadãos. E decidiram isso muito bem, porque esse foi o princípio do declínio que Portugal conheceu assim que se enveredou por essa via de austeridade. Mas o governo grego é que está em necessidade, portanto o poder negocial coloca-se, quase todo, sobre as mãos dos credores europeus.

Um pouco como na Grécia, o nosso país perdeu poder médio per capita de compra e isso verificou-se, e de que maneira, na descida vertiginosa do consumo; pensionistas que perderam mais de 25% do valor da sua reforma, desemprego até mais não, funcionários públicos que passaram a viver dificuldades financeiras quase como se estivessem desempregados…enfim, toda uma série de situações ocorreu desde Junho de 2011, altura em que Passos Coelho e Paulo Portas tomaram posse no governo português. Estes dois actores incontornáveis dos interesses “troikianos” assumiram querer ir “além” daquilo que a própria Troika tinha definido. Portanto, nesse aspecto Passos e Portas ensinaram uma boa lição sobre como fazer um povo definhar e centenas de milhares de jovens emigrarem para a precariedade, um pouco por toda a Europa.

Vamos à Grécia. Tsipras, primeiro-ministro helénico, afirmou que os países credores “terão de enfrentar as consequências” de não quererem chegar a acordo. Reduzir a dívida grega é urgente. Não é real querer manter a dívida grega nos níveis elevados em que se mantém, porque inviabiliza pagamentos futuros; o estrangulamento da economia grega dar-se-ia com a obirgatoriedade imposta pelos credores (FMI e UE) de Atenas cortar salários e pensões. Impensável, claro, porque assim a Grécia nunca conseguiria fazer crescer a sua economia por forma a garantir liquidez suficiente para saldar a sua dívida. Obviamente, que querer pagar a dívida seguindo a via da “fiscalidade dura” é injusta para o contribuinte, porque lhe exige um esforço desumano ao querer ficar com uma grande parcela dos salários e pensões.

Neste momento penso que Tsipras e Varoufakis querem resolver o impasse nas negociações com os credores. Daquilo que conheço do plano de negociações grego, acho bem incluir diversas privatizações a dez anos, liberalizar os seus mercados de bens e serviços (que são actualmente dos mais proteccionistas em toda a Europa), e realizar várias reformas em conjunto com a OCDE. A transferência dos títulos de dívida grega detidos pelo BCE para o Fundo de Estabilidade Europeu permitiriam, em troca, o alívio imediato do montante da dívida grega, e liquidez automática.

Quererão os responsáveis europeus “derramamento de sangue”? Lagarde, a directora-geral do FMI, afirmou que se a Grécia falhar o pagamento a 30 de Junho, as regras da instituição sediada em Washington não permitem o desembolso de qualquer quantia para Atenas, mesmo mediante acordo posterior a essa data. E chegar a acordo é isso mesmo, é a Grécia de Tsipras aceitar cedências para que os seus trunfos de negociação sejam bem empregues; ter a Alemanha de Merkel como credora implica que Tsipras e Varoufakis têm de se colocar com uma postura não de maior humildade, mas de maior seriedade; tal como Lagarde disse, e bem (para não ferir o orgulho próprio de Tsipras, Varoufakis e do martirizado povo grego): “Precisamos de adultos nesta sala”. Está tudo dito. Boa sorte, irmãos gregos.

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