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Capitães Nightingale

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Primeiro vamos esclarecer que eu sou enfermeira e isto é uma crónica, logo um artigo de opinião. Não vamos pensar que isto se trata de jornalismo, embora o jornalismo seja cada vez mais opinatório e sensacionalista, mas isso fica para outras prosas. Vamos também esclarecer que vou ser subjectiva. Numa altura em que a enfermagem está na “boca do povo”, achei este título e esta crónica pertinente.

O título porque um dia vou querer ser lembrada como parte da geração que marcou a enfermagem para sempre, assim como os capitães de Abril, pois considero que se trata de uma verdadeira revolução ao nível daquela que derrubou a ditadura em 1974. Nightingale, a criadora da enfermagem. Está o mote criado para uma boa e amena parafernália de ideias sobre a questão.

Vamos começar pelo facto de a enfermagem não ser considerada como profissão de desgaste rápido (profissões de stress, com risco e ambiente profissional adverso e desgaste emocional e físico). Portanto, temos stress? Check! Temos risco na nossa profissão? Check! Temos desgaste emocional e físico? Check!. Não estou a tratar este assunto com leviandade, atenção! Estou só a dar a base para uma exigência, antiga, de aumento do salário base dos enfermeiros (todos os enfermeiros) e a diminuição da idade da reforma. Sabemos que a quantidade de profissionais de saúde que actualmente trabalham no Serviço Nacional de Saúde não é suficiente, que isso põe em risco a prestação de cuidados aos utentes e que é fulcral a contratação de mais profissionais.

Em relação à carreira de enfermeiro especialista, provavelmente tenho uma opinião um pouco diferente. Acho que deveria ser reconhecida a carreira e renumerada com tal, contudo acho que se deveria formar especialistas de acordo com as necessidades do SNS, sendo o estado a financiar a especialização. Imagine-se, por exemplo, que o serviço de obstetrícia de um hospital necessitava de dois enfermeiros especialistas em saúde materna, eram convidados os enfermeiros a realizarem a especialidade e os dois que se disponibilizassem iriam ser financiados pelo Estado para o fazer. Visto já existir debates sobre o ensino superior sem propinas, acho que poderá ser uma resolução para um futuro próximo.

Foquemo-nos agora na greve cirúrgica. Percebo que as pessoas não concordem com esta greve devido ao transtorno que causa nas suas vidas e à informação difusa que aparece na comunicação social. Esta greve, financiada pelos enfermeiros – facto importante, pois os colegas da cirurgia que estão a fazer a greve (a sofrer todas as pressões que isso acarreta), necessitam de saber que têm todo um “exercito” de colegas a apoia-los, e tanto o governo como as restantes pessoas ficam informados que todos os enfermeiros estão descontentes (enfim, já divaguei) – é a nossa tomada de posse da carreira de enfermagem, que há muito tempo nos foi retirada e esmiuçada, como se nós não fossemos a gênesis dela. Tenho visto na televisão que o bastonário da Ordem dos Médicos gosta muito de dar a sua opinião sobre a greve e então temos que dizer que, quem define a prioridade das cirurgias são os médicos, e que os colegas enfermeiros, que estão a cumprir os serviços mínimos, farão as mesmas.

Se Ministério Público, a pedido do governo, já emitiu parecer jurídico, classificando a greve como legal, andam a inventar para quê? Sra. Ministra da Saúde, não compare profissionais licenciados da administração pública, porque nada têm a ver uns com os outros, isso só denota falta de respeito, que já provou que não tem quando nos apelidou de criminosos. Sr. Primeiro Ministro, não sei se foi numa tentativa de ajudar a sua ministra ou coisa que o valha, mas quando a “fogueira” já está a “arder” bem, não lhe deite mais “achas”.

Caríssimos utentes, o SNS está a morrer e vós sois os mais afectados, assim como nós, as pessoas que dão tudo para cuidar de vós. Custa-me dizer, mas embora estejamos, sempre, a dar o melhor de nós, as condições que temos não são as melhores e não conseguimos fazer (ainda) mais do que nos é humanamente possível. Estamos a dar tudo para que a situação mude, pois nós tendo melhores condições de trabalho, vós tereis melhores condições de vida.

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