Cristina

Lembro-me bem dela, mas guardo poucas certezas a respeito do seu nome e muito menos do motivo que a levou, durante tanto tempo, a andar misteriosamente desaparecida da minha memória sem deixar rasto que pudesse seguir para encontrá-la.

Remexo no baú das recordações e concluo que se chamava Cristina, mas desse tempo, pensando nas pessoas com quem convivi, guardo sobretudo saudades do seu carácter honesto, da frontalidade associada à presença doce de alguém que ganha em comparação ao lado com creme duma bolacha que se divide ao meio para degustar quando estamos em boa companhia.

Não me devo ter portado bem com ela, na altura em que nos conhecemos, num ano não tão atípico como 2020, mas em que, também estranhamente, notei que na minha turma havia uma colega derretida de amor por mim. Provavelmente ainda guarda rancor do meu silêncio, de não ter correspondido à espectativa de comigo, sem remorsos, encarar a sério que haveria de ser feliz antes de subir ao altar. Devo tê-la desapontado, por perceber que não estaria à altura de merecê-la e bem acima das minhas possibilidades a capacidade de amá-la, mas, além de tímido, era inexperiente e infelizmente incapaz de enxergar nela algumas das características que hoje em dia mais aprecio numa mulher: beleza e simplicidade nas doses adequadas de maneira a nenhuma ofuscar a outra.

Se fossem tão doces como imagino, queria dos beijos dela lembrar-me quando nos anos me perguntassem o que de presente mais gostaria de receber. E quando terminasse, eu certamente teria perdido a conta aos anos de vida que gostaria de passar a seu lado, para na data da celebração podermos comemorá-los juntos.

Ocorreu-me que ela poderia chamar-se Florbela ou ter o nome de alguma coisa ou acontecimento que, na minha vida, tenha valido a pena guardar na memória para recordar ao fim destes anos. Ocorrem-me agora tantas coisas magníficas a seu respeito, que duma extensa lista poderia retirar a primeira e resumi-la numa frase para adotar como lema de vida.

Nesta carta, tem-me diante de si: um homem à beira da morte, meditando nas incidências da vida, a resume ao período em que partilharam as aulas, e ao qual, se voltasse, só daria por mal empregue o tempo passado naquelas em que não corria a sentar-se ao seu lado.

Desculpa, Cristina ou como quer que te chames, aceita o meu pedido de desculpa ou o que quer que lhe queiras chamar, aceita-o e envia-me um sinal: faz que eu me sinta confortado, quando vir uma estrela que pestaneja e brilha, tanto como eu hoje faria se te tivesse ao meu lado.

FIM