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A carta (O sortudo fui eu, minha querida)

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Querida Filipa,

Decidi escrever-te uma carta. Depois de te dar o teu banho quentinho e de te levar até á cama, sentei-me na nossa antiga e gasta escrivaninha e peguei num papel e naquela preciosa caneta que me ofereceste no meu 50º aniversário. Finjo que somos jovens novamente, que estás em tournée e que estamos separados por uma longa distância. Lembras-te daquelas cartas longas e românticas que trocávamos? Não, claro que não. Neste momento, não te recordas de nada. Bem, mas eu não quero escrever sobre a demência, porque este é o meu último esforço para escapar da mesma. Mas já não sei sobre o que escrever. Quando eu te escrevia cartas, gostava de preenche-las com detalhes dos meus dias, tentado impressionar-te com a minha capacidade de tecer descrições brilhantes. Mas isso foi no passado e, agora, no presente, a minha vida (a nossa vida) perdeu o seu brilho. Mas é o que nos resta, por isso vou tentar dizer-to.

Sabes, hoje fomos mais uma vez ao médico. Mais uma daquelas consultas chatas de rotina que em nada acrescentam. As notícias são sempre as mesmas, nem boas nem más. Quando saímos, o médico olhou para mim e sorriu com compaixão.

“Ela tem imensa sorte em o ter.” Disse-me. É estranho ouvir isto, sabes? Sempre foi ao contrário. Eu é que fui sempre o sortudo. Sortudo por ter uma esposa fantástica como tu. Sempre foste tão brilhante e talentosa. Com os teus vestidos cintilantes que usavas nos teus bailados. Eu sempre fui mais simples, mas discreto a teu lado. A tua sombra. Mas por alguma razão que nunca me soubeste (ou quiseste) explicar, amavas-me do jeito que eu era (já não sou mais o mesmo, meu amor). Então eu tive sorte. Mas neste momento, aparentemente, para aquele médico, tu és a sortuda. O médico é jovem, bonito. Sabes, daquele género de homens que eu sempre pensei que te iriam roubar de mim. Agora claro que nada disso me passaria pela cabeça. Quando o procurei pela primeira vez, vinha atrás de um medicamente milagroso que te trouxesse de volta. Agora, já nada do que diz me consola. São apenas palavras científicas inúteis, não nos trazem nada de bom. Eu não confio nele. O que é que ele sabe? Há tanto em nós para além da ciência. E também não acredito quando ele diz que a demência roubou tudo o que tu tinhas aí dentro. Eu tento muito pacientemente acreditar que apenas estás trancada em tu mesma, que ainda aí estás a amar-me, todos os dias. Quando saímos dos estéreis corredores do hospital, eu dei-te o braço para te guiar até ao carro. A tua mão, como o resto de ti, tornou-se pálida e enrugada. Muito frágil, a minha boneca de porcelana. Mas, mais uma vez, eu não sou diferente. Nós somos velhos, Joana. E, embora seja triste que tenha chegado ao fim, é reconfortante pensar em todos estes anos em que estivemos juntos. Foram lindos anos. Tu não te lembras, mas foram realmente bonitos. É estranho lembrar de todas as lembranças que perdeste. E não vai demorar muito para que eu esteja morto. E então este mundo, não terá qualquer registo desses momentos. Isso deixa-me tão triste, tanta beleza que será esquecida, mas ao menos existiu. Há pessoas que se vão lembrar de nós, mas também seremos esquecidos com o tempo. Eu tenho medo de ser esquecido. E, por causa disso, sempre invejei o teu talento para dançar. Não pelas razões mais comuns, mas sim pelos pedacinhos de ti que deixaste em cada bailado, em cada passo, em cada música que te fazia voar sobre o palco. O teu esbelto corpo era uma pena que flutuava, sem qualquer esforço. Esses momentos vão ficar, mesmo quanto partires. As pessoas vão recordar. E por causa disso, eu estou com ciúmes. Eu gostaria de deixar uma impressão minha no mundo. Era o suficiente. A tua dança sempre foi a chave para desbloquear as portas que tanto querias passar e agora é a minha chave para eu te desbloquear. Quando eu tocar aquelas músicas, as músicas que costumavas dançar, nos teus olhos existem um lampejo de reconhecimento. Por vezes até mesmo um “Humm” de apreciação.  A dança é a única língua que nunca perdeste. O zumbido da música faz o teu corpo mover, não de uma forma que foi um dia, mas eu nunca vi nada tão bonito. Eu toco as mesmas músicas vezes sem conta. Esperando que a música te traga de volta. Que lentamente desperte o teu corpo, a tua alma e que vás dançando e cantarolando ao som delas. Voltar a partir do vazio da demência. Mas nunca funcionou. Claro que nunca funciona. Mas, por vezes, pareces fechar-te para sempre nesse mundo. Mas quando a música toca, és uma sonhadora que acabou de acordar. Não te lembras do sonho, mas parece que sabes que foi um sonho. Quanto te olho nos olhos, vejo-te a lutar para te lembrares, a lutar para puxares esse sonho para a realidade. Mas a barreira entre o sono e a vigília é muito forte, e tu permaneces envolta do vazio, tudo aquilo que resta. Eu quero tanto puxar-te de volta. Para dar-te o passado, da mesma forma que me podes dar o presente. Eu quero-te aqui para que te possas entregar a mim e mais uma vez eu ser o sortudo. Então, quando a música para de girar, eu inclino-me para te dar mais um beijo. Os nossos lábios secos, mas suavizados no decorrer de todos estes anos, tocam-se. E imagino o meu beijo como a música, capaz de despertar algo em ti, e quando me afasto, aqueles lábios velhos vão-se tornar numa jovem cheia de vida e usar esse corpo esbelto que um dia usaste para me encantar.

Amor eterno,

Gustavo

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