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Casamento homosexual? – Francisco Duarte

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Eu apoio o casamento homossexual. Acredito que os homossexuais

têm o direito de serem tão miseráveis como o resto de nós.

Kinky Friedman

 

Ora aqui está uma temática deveras interessante: o que é o amor? E qual a importância do casamento para as sociedades modernas? Porque é que alguns indivíduos se esforçam tanto para conseguir que os casais homossexuais tenham direito de casar, assim têm os casais heterossexuais?

Esta é uma luta que se apresenta como curiosa e que creio merecer uma análise algo aprofundada. Mais ainda, o que é o casamento? Afinal, para muitas pessoas o acto de casar é um sonho, algo usualmente associado ao cumprir de um objectivo de vida. Mas existe uma motivação subliminar no acto? Uma motivação tanto social como biológica do mesmo?

Protecção do par

Eu sempre vi o casamento como associado a um comportamento típico do mundo animal conhecido como “protecção do par.” Isto significa que muitos animais desenvolvem comportamentos com o fim último de garantir que certo indivíduo do sexo oposto será, de facto, responsável pela disseminação dos seus genes. Tenhamos em conta que o fim último de qualquer forma de vida é este mesmo, garantir que gera descendência e garante a continuidade dos seus genes. Os genes são egoístas e estão apenas “interessados” na sua própria sobrevivência mediante replicação, as formas dos seres orgânicos apenas um meio para esse fim.

Assim sendo, vemos animais que competem e modo agressivo par conseguir isso mesmo. Os exuberantes confrontos entre (sobretudo) os machos dos mamíferos para garantir que apenas os maus fortes se reproduzem com as fêmeas da manada são um claro exemplo disto. Entre os primatas, como nós próprios, este comportamento é também dominante. Os babuínos são sobretudo conhecidos pelo modo como, apesar de viverem em grandes grupos, os machos mais fortes e agressivos fazem por dominar parcelas da população feminina do grupo.

Entre os seres humanos o comportamento sexual antigo é difícil de estudar, devido ao modo como a cultura, esse fenómeno extraordinário, acabou por diversificar as coisas. No entanto certos estudos definem que no debate entre se os homens são essencialmente monogâmicos ou poligâmicos, ambas as possibildiades estão erradas. O comportamento aplica-se igualmente a homens e a mulheres e chama-se monogamia sequencial.

Porquê um parceiro fixo?

O que isto quer dizer é que tendemos, sim, a fixar-nos num parceiro de cada vez, mas existe um “prazo de validade” para esse fixamento. Certas vezes pode ser tão curto como os “one night stands,” mas nos relacionamentos mais longos, quando a nossa química interna nos ”vicia” na pessoa que dizemos amar, este prazo pode chegar aos quatro anos.

Isto tem um motivo, claro. Os bebés humanos são, para todos os efeitos,  ”larvas” de primatas, e requerem um certo tempo de crescimento até poderem deambular por si mesmos pelo grupo. Tendo em conta a violência inerente aos grupos de primatas, as fêmeas requerem um macho a seu lado para garantir que o pequeno consegue chegar a essa fase. O macho, por sua vez, tem todo o interesse em que isto se dê. Afinal, os genes são egoístas e não queremos esforço perdido.

O caso é que, após este período crítico, torna-se mais funcional para ambos procurarem outro parceiro para se poderem reproduzir novamente, e a aliança rompe-se. Isto poderia explicar porque é que os relacionamentos parecem ter problemas especialmente graves, usualmente, a cada três a cinco anos da sua duração. São os nossos instintos a quererem que sigamos noutro sentido e geremos mais descendência.

E o casamento, onde entra?

Ah, e agora chegamos ao sumo da questão. Como vemos existem motivos bastante sólidos para os relacionamentos fixos entre homens e mulheres. E como referi, a cultura acaba por criar incríveis variações nos nossos comportamentos, com base biológica.

Ora, para compreender o contexto de qualquer casamento e do que implica, teremos que ver que, essencialmente, o casamento tradicional é uma cerimónia religiosa, com vista a trazer a bênção da divindade sobre o casal a ser unido. O motivo disto é prender as pessoas, de modo a que mesmo as referidas crises de relacionamento sejam ultrapassadas pela noção de que se poderia melindrar uma força superior. Há vantagens para ambos os lados, como é normal, apesar de algumas parecerem de certo modo dúbias.

Para o homem dá-se a garantia de uma “fonte” de descendência. Para a mulher, sobretudo com contexto tradicional da coisa, ela ganha uma “fonte” de rendimentos para se sustentar a si mesma e aos seus filhos. Evidentemente que isto é um grande simplificar das coisas por diversos motivos:

Primeiro, desconto a noção de abuso que qualquer um dos lados pode sofrer por estar preso pelo laço místico-mágico atribuído (não se costuma dizer que quando o amor acaba nada há a fazer?). Segundo, isto não impede as pessoas de continuarem a procurar outros parceiros, e isso acontece de facto, por mais medidas que a sociedade crie para controlar a sexualidade dos seus intervenientes.

Como enquadrar o casamento homossexual?

Pessoalmente, como já deve ter concluído, considero o casamento um exercício fútil. Se as pessoas querem estar juntas, então que estejam e desfrutem do que sentem enquanto durar (seja um par de anos ou uma vida), mas não é requerido uma sacralização do laço para que funcione.

Apesar de respeitar o desejo dos homossexuais para igualdade de direitos também nestes termos (sou a favor de igualdade de direitos para todos, mas isso é outro tema de conversa), creio que se deveria pensar, exactamente porque é que se quer casar. No fundo, as pessoas querem sentir a aprovação do Deus que decidiram seguir numa sociedade que consistentemente declara que essa entidade os odeia.

No fundo, creio eu, as comunidades homossexuais não querem o casamento per se, mas a noção de que são aceites como parte integrante do mundo em que nasceram.

Crónica de Francisco Duarte
O Antropólogo Curioso 

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