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Colcheias e semifusas

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Colcheias e semifusas, partituras, claves de sol e orquestras. Nem todos os que a viam supunham que tinha uma vida tão intimamente ligada à música, que, se até àquele momento, a sua vida desse um filme, à falta de um melhor argumento recheado de peripécias, certamente que este poderia contar com uma excelente banda sonora.

Puseram-lhe o suave nome de Berenice, uma constelação que por ter um muito maior número de estrelas do que planetas, era muito justamente considerada a mais brilhante de todo o universo.

Ao som do violino, que sabia tocar desde os dez anos, juntava às notas soltas que escutava da guitarra do pai, o talento que tinha para compor melodias tão belas que bem podiam ser um hino ao facto de se gostar de alguém.

Media um metro e sessenta e pesava uns meros cinquenta e três quilos, mas não era por ser tão magra que não raras vezes achava que a maior parte das pessoas que conhecia passava por ela sem vê-la.

Cruzavam-se-lhe nas veias, sangue aristocrático da parte do pai, com o de origem mais humilde herdado da mãe de ascendência brasileira, tão modesto quanto o número de pessoas que acorria a aplaudi-la nos saraus de violino dados à época nalguns salões de festa moscovitas.

Principiava a década de oitenta do século vinte e naquela grande metrópole vivia-se menos perigosamente do que nos territórios ocupados pela artilharia do exército russo. O pai de Berenice era diplomata em Ancara na altura em que à frente de uma unidade de blindados e a caminho do Ministério do Interior na capital afegã, como se tivesse um salvo-conduto que lhe abria todas as portas, seguia um oficial mandatado pelo governo russo para impor às autoridades locais os termos em que deveriam render-se. Não era um soldado, mas aos fins-de-semana lá fazia as suas incursões a casa e num desses raides encheu de esperanças a mulher que, dali a nove meses, deu à luz Berenice. Berenice nasceu ao cabo de um parto sem dor, de ar benevolente, como se fosse para agradecer à mãe por ter cuidado dela ao longo desse período muito melhor do que se tivesse estado numa incubadora a darem-lhe todos os dias à boca um biberão de leite morninho para crescer saudável.

Berenice cresceu feliz, rodeada de conforto e dos amigos que para segui-la, faziam das fraquezas forças para conseguirem desdobrar-se e acompanhá-la por todo o lado em que ela estivesse presente nas suas múltiplas atividades. Aos seis, começou a andar num virote. Principiou aulas de solfejo e aprendeu a falar Francês, mais facilmente do que se pensava, como se só tivesse tido de aperfeiçoar o idioma que julgavam ser um dialeto derivado do Chinês, as pessoas que não entendiam nada do que ela dizia em bebé. Mais tarde, aprendeu a fazer ponto cruz com uma avó que a não distinguia da mãe quando tinha a idade dela e, por isso, a passou a tratar como se fosse sua filha e começou a ter aulas de Ballet, de Canto e Formação Musical numa classe especial do Conservatório, para estar apta a ter aulas de violino com uma jovem professora de ascendência russa, que falava Castelhano fluentemente, como se na adolescência tivessem tido o cuidado de ensinar-lhe uma Língua estrangeira para entenderem na íntegra o que dissesse nas conferências de imprensa quando fosse atuar ao estrangeiro.

Em rapariga, tinha cabelo encaracolado, como uma criança de quem se diz que se assemelha a um anjo. Este tinha madeixas louras e andava sempre tão bem penteado que dava a sensação de nunca andar exposto ao vento. De igual modo, que por ter a tez muito branca parecia nunca andar exposta ao sol.

Nunca foi namoradeira ao ponto de terem ciúmes dela os rapazes que a viam conversar com outros até mais velhos sobre assuntos em que nem os próprios se sentiam à vontade para falar uns com os outros. Um dos temas recorrentes era o sexo e embora das relações sexuais que algumas colegas mantinham às escondidas com os namorados, ela não falasse, percebia-se claramente que era entendida no assunto como se pela mão dela já tivesse passado algum desses rapazes antes da prática dos jogos de prazer com alguma das suas amigas da classe.

Berenice era versada em variadíssimos assuntos. Sua cultura geral vasta e era tão abrangente que tanto servia para dissipar dúvidas aos colegas nas salas de aula, como gerar dúvidas aos professores sobre se eles eram tão merecedores como ela de passarem de ano.

Ainda jovem, tornou-se solista numa renomada orquestra e professora de instrumento nas poucas horas vagas, mas poderia ter-se tornado igualmente boa noutra qualquer profissão, desde que se empenhasse em desempenhá-la tão bem como quando, a partir de um instrumento de cordas, conseguia reproduzir o som de uma orquestra.

O seu olhar era discreto, mas o corpo trazia o formato de uma clave de sol como a do início de uma melodia que nos enche as medidas. O timbre de voz era suave, mas guardava o condão de despertar paixões adormecidas e nunca deixou de ser um motivo de orgulho para a primeira professora que teve, ouvi-la cantar fazendo do instrumento vocal o prolongamento natural do piano, que tocava como se não houvesse no mundo inteiro, outro tão afinado.

1 Comment

1 Comment

  1. isabel ribas

    11/01/2017 at 9:06

    Esta mulher é a imagem das mulheres russas daquela época, ou pelo menos como nós as viamos-bonitas, cultas e artistas.Talvez porque quem saia do País para representar nos outros, era precisamente esta classe.Gostei da descrição e do profundo, que imagino, o autor mergulhou no inconsciente desta juventude

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