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Comprar e vender é no OLX (?)

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Pus à venda no OLX, um smartphone todo XPTO, com GPRS e 3 MP, por muito menos do que me bastaria para ter comprado, há dois meses, um simples aparelho, sem sequer ter câmara fotográfica, apenas destinado a fazer ou a receber chamadas.

Não fora a primeira vez que pusera artigos à venda naquele sítio da Internet. Já antes, fora seduzido pela ideia de ganhar uma soma avultada rapidamente e sem esforço. Nessa altura, um castiçal duplo de loiça chinesa, com a efígie de um dragão desenhado junto à base, rendera-me mais dores de cabeça do que dinheiro.

Um dia, a meio da noite, ligou-me de Braga um colecionador que pretendia ver pessoalmente a peça. Nem pediu desculpa pelo adiantado da hora. Estávamos longe um do outro, mas não tanto que fosse legítimo ele pensar que, vivendo eu num fuso horário diferente do seu, por estas paragens já o dia tivesse nascido há tempo suficiente para a luz, que de manhã entrava pelas persianas do quarto de dormir, me ter arrancado da cama. Insistiu em pegar na peça para melhor analisá-la à luz do seu conhecimento sobre obras de arte e ter a certeza de que ela estava em tão bom estado como dava a entender pela fotografia que viu, através do computador, tirada na rua à luz do sol, como se do que eu dissesse, lhe desse o direito de duvidar o facto de eu falar com uma voz arrastada por causa do sono. Contudo, eu achava que até do que ele visse podia duvidar e disso um bom exemplo era o meu bigode.

Chamava-lhe El farfalhudo e andava comigo desde a tropa, embora já no último ano do curso da escola industrial, que andava a tirar, eu andasse com vontade de deixá-lo crescer, para ser como os heróis da revolução cubana que preenchiam o meu imaginário e continuaram a exibi-lo, passados tantos anos, como um símbolo de que cada indivíduo era livre para andar na rua como quisesse.

Veio por aí abaixo no dia seguinte, ao encontro da capital, numa camioneta de carreira expresso que parecia uma locomotiva de há dois séculos, tanto era o fumo que expelia pela traseira. Quando surgiu na minha frente, tinha o ar rural de um homem de aspeto afogueado, de faces rubras como se tivesse cometido um ilícito criminal e um tremor na voz, que era o único traço não apagado do nervosismo que o acometia quando se via diante de estranhos. Confessou-me que era um apaixonado, desde a primeira hora, pelas antiguidades e pelas relíquias dos Santos, depois desatou a falar de outras paixões, mas o que eu estava ansioso por saber era se aceitava pagar-me os tais duzentos e cinquenta euros que eu pedira, o que não deixava de ser um excelente preço em comparação com os de castiçais idênticos àquele que eram postos à venda pela Sothebys em Londres, onde ele só para ir pagaria muito mais em passagens aéreas low cost, já para não falar no comer e nas dormidas.

Disse-me que, a meio do caminho em plena estrada nacional, só tinham parado para abastecer de gasóleo. Eu considerava tempo insuficiente para desentorpecer as pernas, mesmo que para ir à casa de banho ele tivesse precisado de percorrer uma distância superior a trezentos metros até entrar na do café mais próximo da povoação, uma vez que a desse posto, que ficava ao alcance de descer da camioneta, tinha colado um letreiro à porta a anunciar que a sanita estava entupida.

Achando que vinha com fome, pensei em convidá-lo para almoçar, mas num restaurante que havia na minha rua por ser o único que, sendo tão tarde para fazê-lo, nos conviria. A mim, por ter pratos do dia económicos e era eu quem se dispunha a pagar; a ele, por ser já depois das três, talvez o único que ainda se dispusesse a servir refeições e ainda por cima robustas como a de que vinha carenciado. Por mim, contentava-me com um café, porque comera há pouco tempo e nunca tinha apetite até ao jantar. Fomos até lá no meu carro, que estava estacionado há demasiadas horas sem bilhete numa zona de parquímetros e entrámos.

Cumprimentou-nos à entrada um empregado meu amigo de infância e logo depois veio ter connosco o dono, que era um sujeito atarracado e nada elegante mas com fama de ser bígamo. Estou em crer que esta ficava a dever-se mais às más-línguas da vizinhança do que ao facto de, algum dia, dele ter aparecido à procura outra, que não fosse a esposa legítima, conhecida lá no bairro pela alcunha da Pé de chinelo, por gostar de andar com um par daqueles de borracha de enfiar no dedo calçada para ir à rua, mesmo que estivesse a chover.

Com a amabilidade de um taberneiro que queria expulsar os clientes à chapada, lá o homem nos indicou um lugar ao fundo da sala e quando nos sentámos vieram para a mesa azeitonas temperadas com coentros, que lembravam os sabores da mais pura gastronomia alentejana, que era a especialidade da casa. Em seguida, trouxeram pão rodelas de paio em tão escasso número e tão finas que não lembravam em nada a generosidade dos naturais daquelas paragens que tinham de ser tão bons anfitriões como cozinheiros. Nem lhes toquei. Beberiquei uma cerveja, que me trouxeram num copo aquecido, enquanto o homem sentado à minha frente devorava um prato de migas feitas à moda de Alter do Chão, de onde era natural o pai do dono do restaurante. No final, veio a sobremesa para ele e a conta para mim. Olhei para ela e pendurei-a, como às outras, pedindo que a acrescentassem ao extenso rol do qual elas iam saindo à medida que eu as pagava quando recebia o escasso ordenado no final de cada mês.

À saída do restaurante, compreendi que o homem que me acompanhava estava com pressa quando, à passagem por nós de um homem de passada larga, ele o tentou seguir como se fossemos no seu encalço. Foi preciso gritar-lhe que se continuasse a segui-lo no sentido contrário ao da minha casa, se afastaria dela ainda mais do que se estivesse já a regressar a Braga, para parar e vir fazer-me companhia. Continuámos juntos e entrámos no meu prédio.

A porteira, que era uma mulher corpulenta, cumprimentou-nos com os modos de taberneiro que deve ter aprendido com o dono do sítio onde comêramos, dos quais deduzi que também ela lhe deveria dinheiro das vezes em que surpreendentemente a vira por lá a almoçar. Sem tentar passar despercebida, olhou de alto a baixo para o homem que me acompanhava e de seguida lançou-me um olhar desconfiado, como quando, ao invés de reparar na roupa que eu vestia, o que mais lhe despertava a atenção, mal me via pela manhã, era a mulher que, comigo de braço dado, caminhava sonolenta ao meu lado.

Subimos as escadas, pus a chave à porta e entrámos no apartamento que estava quente por causa do sol que entrava sem a oposição das persianas que estavam levantadas ao máximo e a primeira coisa em que ele reparou foi numa réplica dos famosos girassóis de Van Gogh, em evidência no hall sobre um bengaleiro repleto de guarda-chuvas de variadíssimas cores. Começou por elogiá-lo, dizendo que era uma das suas obras favoritas de todo o Impressionismo, para terminar dizendo que havia, porém, outros pintores, sobretudo os neorrealistas espanhóis, como o catalão Salvador Dali, de que gostava muito mais.

Desabotoei o casaco e pedi-lhe para se pôr à vontade na sala enquanto ia ao quarto buscar a preciosidade que o trouxera a Lisboa. Trouxe o castiçal com o maior cuidado e sem nenhuma vela posta, não fosse ele pensar que era para continuar a usá-lo. É que apesar de tê-lo posto à venda, por um preço considerado irrisório, eu continuava a ter um grande apreço por ele. Em primeiro lugar, por estar na posse da minha família há várias gerações e, em segundo lugar, porque passei a ser um grande admirador do trabalho do pintor autor dos retoques finais, que fora capaz de esmiuçar a cabeça de um dragão dando-lhe um ar mais de animal assustado do que o de uma fera que a toda gente metia medo.

Dei-lho para a mão e prontamente debruçou-se sobre ele, percorrendo-o com a ponta dos dedos como se tocasse numa peça de roupa tão delicada que só pudesse ser lavada à mão, e eu pensei que a fotografia de um homem naquela pose invulgar, posta à venda, facilmente me renderia ainda mais dinheiro do que se, em vez de um, tivesse posto à venda o par, no caso de ter descoberto o segundo castiçal no fundo do baú de trastes que a minha mãe guardava, entre outras relíquias lá na arrecadação.

Observou-o minuciosamente, recorrendo a uma lupa como se o objeto fosse um manuscrito muito antigo e estivesse só à procura de erros ortográficos que o desvalorizassem e assim me obrigassem a vender-lho mais barato. Ao cabo de uns minutos, a custo lá identificou um símbolo encostado à cabeça do dragão que podia não representar nada mas, pelo sim pelo não, o fez consultar um livrinho de códigos secretos. Abriu-o à minha frente e perscrutou-me atentamente, como se quisesse decifrar-me no rosto algum sinal de admiração por entender tudo o que nele estava escrito.

Por fim, soltou um suspiro e exclamou: “Nada, niente, rien de rien” ao mesmo tempo em que pensava no que significaria, desenhados entre a orelha e a cauda do dragão enrolada sobre si mesmo, um tracinho entre dois pontos semelhante a um símbolo da numeração romana, mas que tanto podia representar uma data, como um número de série idêntico aos com que passaram a identificar as peças de loiça à saída das fábricas desde que chegaram a Portugal os primeiros laivos da revolução industrial operada no estrangeiro.

Incrédulo com essa possibilidade, piscou os olhos e pôs-se a esfrega-los como se dessa vez fosse ele a querer que eu adivinhasse o que estava a sentir. Era um misto de dor e desalento, como experimentara certa vez em que pensara ter descoberto uma pérola da antiguidade e em vez de ser uma estela discoide de tradição medieval, o que afinal encontrara tinha sido um fundo de alguidar de barro dos nossos dias que valia menos do que a pá que ajudou a desenterra-lo numas escavações que tiveram lugar na zona de Odrinhas, imediações de Sintra.

Achando-se vítima de intrujice, foi tão grande desagrado que percebeu ter incorrido no erro de achar que podia ter comprado galinha gorda por pouco dinheiro, sem que pretendesse poupar dinheiro na ração, que por pouco não começou a praguejar comigo, como se o que eu quisesse ouvir naquele momento fosse injuriar-me e insultos à memória dos meus antepassados que sem saber me tinham munido de uma herança que valia afinal muito menos do que supunham.

Aconteceu que ao esfregar-lhe a superfície com um pano embebido numa solução à base de álcool, o animal retratado pelo artista que tanto admirava, começou a perder a cor e depois a desvanecer-se, vindo a dar, em breve, razão àqueles que sempre duvidaram da sua existência e no lugar que dantes ocupava surgiu um vazio tão grande como o desgosto que ficou de não tê-lo, ainda dessa vez, conseguido vender. Com cara de pouco amigos, o sujeito saiu sem se despedir, dizendo apenas que tinha uma longa viagem pela frente até Braga.

Que haveria ainda de ouvir falar a seu respeito, eu não duvidava. Se não fosse, através dos jornais e da televisão, por ter desenterrado um tesouro e ficado riquíssimo, seria certamente por ser o responsável de andarem a espalhar a notícia de que eu era um aldrabão e a minha palavra tão pouco credível que, vindo de mim, tanto pode não ser aquilo que parece um mero castiçal, como um smartphone todo XPTO, com GPRS e 3 MP.

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