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Contar ou não contar? Eis a questão…

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Se a alegria de sabermos que vamos ser pais é enorme, a angústia por não podermos contar a ninguém não fica em nada atrás. Imagine o leitor que acabou de ganhar algo fantástico. Não interessa o quê. O que interessa é que ganhou algo que sempre quis e não pode contar a ninguém. É chato, não é? Pois, claro que é… Então imagine que vai ser pai e não pode compartilhar a sua felicidade com o Mundo.

Então mas porque raio é que não hás-de partilhar a tua felicidade com quem queres?! – Perguntarão os caríssimos leitores. Simples, porque as regras assim o ditam! A gravidez só devem ser anunciada depois do terceiro mês! Antes disso é muito cedo, até porque podem surgir complicações. Ridículo? Talvez um pouco… Descabido? É capaz… Desnecessário? Provavelmente… Mas se a minha esposa assim o quis quem sou eu para dizer o contrário. Até porque ela está grávida e com as grávidas não se deve discutir!

O problema foi que, pouco tempo depois de descobrirmos que ela estava grávida, ela quis ir a uma consulta de obstetrícia. E para quê? Para contar à ginecologista que estava grávida! Já viram isto? Ela queria partilhar o nosso pequeno, grande, segredo com uma senhora que eu mal conhecia. Uma tipa com que me tinha cruzado apenas uma vez em toda a minha vida. A “Dra. do Pipi” ia ter acesso a informação privilegiada antes mesmo da minha família e amigos?! Não podia ser! Eu não ia deixar que isso acontecesse…

Enquanto minha querida esposa dizia à médica: «Sim, Doutora, eu estou grávida!» eu contrapunha: «Não está nada… É brincadeira. Está lá agora…» mas ela insistia: «Estou grávida, sim! Fizemos o teste e deu positivo… Sabes bem que sim!» e eu retrucava: «Não está nada… Ela está a brincar. Ó, Dra. aquele teste estava era do chinês. Aquilo estava avariado certamente. Não lhe ligue… Isto são coisas da sua cabeça!» Até que, já irritada, a minha esposa grita: «ESTOU! ESTOU! E ESTOU! Para além do teste ter dado positivo, ainda não me apareceu o período! E TU SABES BEM DISSO!!» e eu em desespero total respondo: «AHH! Isso… Pois… Isso foi porque paraste de tomar a pílula. É normal. Acontece a toda a gente. Tenho uma tia-avó que também deixar de tomar a pílula e nunca mais lhe apareceu o período. E olha que ela já tinha 72 anos.» Conclusão: a médica, farta desta nossa discussão de loucos, acabou por mandá-la fazer análises para ver quem falava a verdade…

Pronto, estava lixado. Agora é que ela ia mesmo saber… Como é que eu tinha deixado que isto acontecesse?! Depois de termos decidido não contar nada a ninguém a minha esposa desbronca-se com uma desconhecida… Ok, é certo que para ela (e para as suas partes íntimas) a médica até não era assim tão desconhecida… Mas para mim era, caramba!  E foi por isso que decidi: se a doutora pode saber os nossos pais também podem!

Fomos ter com os nossos pais e informa-mo-los das boas novas. Ficaram todos contentes. Primeiro porque iam ser avós. E depois porque finalmente íamos saber o quanto custava estar do outro lado. (Sinceramente não percebo. Toda a gente fala que a paternidade é maravilhosa, mas assim que os nossos pais sabem que vamos ter um filho, a primeira coisa que nos dizem é: «AHH! Agora é que vais ver como elas mordem! Só espero é que o teu filho seja tão mau ou pior que tu!» Epá, que violência, senhores!!

Explicámos-lhes que isto era tudo muito recente e que por isso deviam controlar ao máximo a vontade de contarem a todo o mundo. Algo que eles acederam prontamente. O único problema é que a capacidade de se guardar segredos, após os 60 anos, é tão fiável como quando se tem apenas 6.

E foi por isso que a velocidade que passaram de: «Então, já contaram a alguém? Não?! Pois… Fazem muito bem. Não contem! Ainda é cedo…» para «Vocês sabiam que (a não sei das quantas) vai ser avó?! Pois é… Pois vai… Ela disse-me mas eu não contei nada. Não se pode ainda, não é?! E já agora, quando é que se pode mesmo contar?! Ah! Pois… Claro, claro… Sim, sim, claro! Vocês é que sabem… Mas será que eu não posso contar apenas à minha melhor amiga?» foi uma coisa completamente alucinante.

No reverso da medalha estavam os nossos amigos. Aqueles que por diversas vezes estranharam que a sua amiga estivesse “mal do estômago” e não pudesse comer certos alimentos. Que estivesse “a tomar antibiótico” e por isso não pudesse ingerir álcool. Que estivesse “cansada” e, como tal, não pudesse fazer grandes esforços físicos. E que, apesar de terem reparado nos quilitos que ela tinha ganho nos últimos meses, nunca, mas nunca se atreveram a comentar! A esses havia finalmente chegado a altura de lhes contar:

– «Malta, vamos ser papás!»
– «YEAHH! Parabéns…Nós já suspeitávamos… Então, e querem um menino ou uma menina?!»

E foi aqui que a porca torceu o rabo… Enquanto a minha adorada esposa deu a resposta politicamente correcta: «Tanto faz, o que interessa é que venha com saúde.» Eu não me contive e disse o que realmente me ia na alma: «Epá, se puder ser… eu prefiro um pónei!».

“EH! EH! Pai Sofre!”

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