Últimas Crónicas

Conto – O dia em que matei toda a minha família

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Acordei como se fosse mais um dia. Um dia normal. E no entanto, senti a diferença. Pelo menos, a primeira de muitas sensações estranhas ao longo desta, que seria a minha última jornada nesta Terra. Olhei para ela, parecia igual, mas respirava diferente. Não me perguntei o que era. Não sei. Não sabia. Nem liguei. Mas saberia. Vesti-me, preparei-me e indaguei-me se estaria mal disposto, isso explicaria tudo, sim, como vocês bem sabem, uma diarreia deturpa qualquer resquício de racionalidade existente no corpo. E no entanto, nada se passava com o meu.

Ok, devia só estar a precisar de cafeína e até ela sabia diferente. Ainda aquela comichão na mente, as paredes pareciam iguais, o ranger da madeira ao ritmo dos meus passos também, mas havia algo. O amarelo mais claro, o castanho mais escuro, até o azul dos olhos dela estava diferente. E ao mesmo tempo, igual.

Os meus filhos pareciam falar num dialecto próprio que nunca tinha ouvido antes, a guerrear por causa duma qualquer minudência. Nada que me fizesse alterar o rumo robotizado de mãos, pés, pernas e tronco. Com eles, cheguei ao carro, sempre a ser assaltado pelas pequenas coisas.

Alice, a minha mulher, nada estranhou. Nem reparou. Como se não me conhecesse. Eles, bem, um estranho no meu lugar não lhes chamaria à atenção. Meti-me no carro, a chave estava no mesmo local, sim, precisamente no mesmo local, que estranho… não me lembrava de a ter colocado lá no dia anterior, mas sabia que estava no mesmo local.

Aliás, não me lembrava de nada que tivesse feito na última semana. “O que raio se estava a passar?” Pensei eu várias vezes, enquanto as mãos me levavam a destinos conhecidos.

Finalmente, no trabalho. Finalmente, paz. Finalmente, consciência. Tudo voltaria por certo ao normal.

Peguei nos papéis que tinha à minha frente, e reparei que todos pararam de falar quando cheguei. Talvez isto sempre acontecesse. Talvez não. Eu era o chefe de todos eles e não me lembro de reparar nestes silêncios. Algo se estava a passar, definitivamente algo se estava a passar comigo ou com o mundo.

Assinei uns papéis tentando enganar-me, melhor, enganá-los. Porque a minha atenção estava nos lábios, suspiros e pensamentos de cada um deles. No entanto, eles não se descosiam. Os papéis, todos eles parecidos, eram irrelevantes. Seria o que eu faço irrelevante? Uma repetição constante para me deixar inconsciente, inerte a tudo o que se passava à minha volta?

Fechei depressa as cortinas, precisava de privacidade. De facto, precisava de privacidade para espiar. Espreitei, nada se passou. Escondi-me, respirei, contei uns segundos, e espreitei de novo. E tudo se passava. O barulho, a postura, os olhares, a diferença. Era tal vicioso cenário que um olhar penetrou as cortinas, um olhar direto para mim, que me fez saltar para trás.

O que fazer? Sentei-me na mesa. Tomei um calmante. Precisava de pensar. Estaria eu maluco? Talvez estivesse, por certo estava, a questão era se teria razões para o estar.

Saí com naturalidade. Todos se calaram abruptamente. Um deles falou algo, disso lembrava-me, havia alguém que sempre falava algo. Confundia isso com graxa, mas será que a graxa era só um protocolo de controle, e controlar o quê?

Enquanto pensava, um homem vinha ao meu encontro retirando algo da sua algibeira. Podiam ser os meus últimos momentos de vida, talvez merecesse, mas porquê? Saí a correr. O homem seguiu os meus apressados passos, e ninguém se mexeu, como se soubessem algo que eu não sabia.

Corri, desci pelas escadas, e não pela lentidão do elevador. Transpirei.

Já quase a salvo resolvi esperar, resolvi confrontá-lo, e no entanto, vi que a ele se tinha juntado outro, e os dois vinham de encontro a mim, a correr rápida e agressivamente. Resolvi fugir.

Com a dupla no meu encalço, saí de lá com a velocidade do desespero. Despistei-os. Quando já estava mais tranquilo, e ainda a tremer, levei a calma dum cigarro à boca, e relaxei. Precisava de reagrupar, de respirar, e pensar o meu próximo passo, manicómio ou polícia. Antes de me decidir, pelo retrovisor vi que eles me encontraram, e mais uma vez, o pendura aprestava-se a apontar-me algo que não consegui decifrar, pois depressa me coloquei novamente em fuga.

Definitivamente, eu não estava maluco, algo se passava.

Já não estava em piloto automático, a sobrevivência tinha-se apoderado de mim, não respeitei qualquer sinal, contra-mão, piões… fiz de tudo um pouco, como se fosse um Harrison a fugir do Tommy. E eles, eles tinham a obstinação duma causa.

Acabei por parar num stand, deixei lá o carro, comprei um novo para surpresa e fortuna do vendedor. Sempre à pressa. Perdão, nem sempre, saí sem pressas, vi-os desesperados à minha procura. Tinha ganho esta batalha.

Precisava agora de ir a casa, perceber o que se passava. Não era seguro, era necessário. Fui. Entrei. Vi algo escrito naquilo que parecia ser russo. Será que são eles que estão por trás disso? A minha família, será que está nisto? Será que aquela era a minha própria família?

Avancei com os passos da curiosidade. Queria, temia e ia. Fui à minha garagem, e vi uma espécie de cenário de guerra, embrulhos e mais embrulhos, tudo com a mesma língua do livro de instruções.

Ainda não estava refeito, nem tinha feito todos os cálculos, quando ouvi alguém a chegar. Era a minha suposta mulher com os meus hipotéticos filhos. Ela que devia estar a trabalhar, eles que deviam estar na escola.

Coloquei-me o mais perto possível. Ouvi-os. O meu filho falava em russo, o meu filho calão a falar russo. Já não havia dúvidas, fosse o que estivesse a acontecer, algo se passava. Ouvi então a minha mulher: “ Isto vai acabar com ele!”.

Acabar comigo. Eu amava-a. Pensava eu que a amava pelo menos, habituei-me à ideia. Talvez não a amasse. Eles estavam a planear matar-me. “Acabar com ele!”. Não quis acreditar.

Entretanto, ouvi-os a caminhar em minha direção. Fiquei aturdido. Não sabia para onde fugir. Saí de casa. Tinha que viver para traçar um novo plano. Eles retiraram da caixa aquilo que parecia uma arma gigante.

Não estava maluco, infelizmente. Fiquei dilacerado por breves momentos, a inércia tomou o meu corpo, mas a raiva acordou-o.

Quem eram estes filhos da puta que viviam comigo? Porquê eu? O que raio querem os russos comigo? E como poderia eu fugir a tal maquinação?

Não queria. Não podia. Não ia. O tonto iria mostrar-lhes que não se goza com um homem desta maneira, não neste dia. Hoje, poderia ser o último dia da minha vida, mas o dia de amanhã não os encontraria.

Antes de entrar em casa, munido apenas das minhas mãos cavei toda a terra que podia do nosso quintal. Com a resiliência típica da vingança. Abri aquela terra como se fosse uma retroescavadora. E finalmente, encontrei o tubo do gás.

Parti-o com as pernas, elas que ainda não tinham sido chamadas ao serviço.

Abri a pequena janela da sala, e deixei durante uns minutos aquelas víboras tomarem um pouco do veneno merecido.

Por fim, só faltava uma última coisa, um isqueiro. Estava pronto. Estava pronto para os confrontar com todas as mentiras, estava pronto para ser juiz e acusador.

Abri a porta. Desde a manhã não me sentia tão bem, tão consciente. Antes de entrar, e nem isso me interrompeu, uma chamada.

Lá estavam eles, todos eles, filho, filha e mãe. Traidores! Naquele momento, só me apetecia acender o isqueiro, um pequeno gesto, e este bando já era. No entanto, eu estava curioso.

“Olá”, disse eu. E eles, em uníssono, sem me deixarem pensar ou ripostar, responderam.

“Pai, és o maior”, seguido dum grande abraço de todos, excepto do meu filho. Esse ficou para trás, a tratar de algo. Explicaram-me que resolveram fazer um dia especial para mim, um dia cheio de surpresas só para mim. Afinal eu estava maluco, não lhes disse nada, a sensação foi inebriante. Antes que pudesse tornar a duvidar, e para me distrair ainda mais, atendi a chamada. Era o director de marketing, não percebia o porquê de eu ter fugido da equipa de reportagem sobre a minha ação diária como líder exemplar, dando-me ainda conta do desespero dos dois estagiários por me terem perdido o rasto. De facto, o estranho é que tinha concordado com ela no dia anterior, e no entanto, não me lembrava.

Ri-me. Ri-me com ela, ri-me de mim, ri-me com eles. Estava feliz.

E para aumentar a minha felicidade, o meu filho, o meu filho calão, que tinha aprendido russo para me dar uma prenda digna dum qualquer faraó dos tempos modernos, algo que ele tinha inventado para mim, estava pronto para a demonstração.

Estão curiosos em saber no que é que justificaria o meu filho aprender russo? Também eu, porque antes que percebesse como era a ignição desta invenção, o meu filho retira um isqueiro do bolso para a acender. De nada valeu o meu grito.

Eu, ela, eles, todos nós, mortos.

Antes de morrer, cheguei a pensar na ironia. Afinal, este era mesmo um dia diferente.

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