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Conto em quatro linhas

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No Domingo à tarde, mal acabou de almoçar, o Jonas saiu de casa para ir ao futebol ver jogar a renovada equipa do seu clube de sempre, que na jornada dupla desse fim-de-semana, recebia no seu reduto uma equipa de outro campeonato que seria teoricamente mais fraca do que a sua, mas na prática já provara ser mais forte do que outra que do mesmo campo saíra, há um mês, com uma concludente vitória por quatro a zero, num jogo sem história mas, para os adeptos do clube da casa, por causa dos erros da arbitragem, com muito para contar.

Por cima da sweatshirt que tinha ao centro uma nódoa do molho de tomate salpicado pelo esparguete, vestiu a réplica da camisola oficial do seu clube, comprada na feira no mesmo dia em que levou para casa um fato-de-treino e umas chuteiras, com o dinheiro poupado de andar, há dois anos, a adiar a compra de dois pneus novos para o carro.

Em lugar da gravata cingida ao pescoço, que usava habitualmente quando ia trabalhar para condizer com as funções de Caixa num banco que ultimamente tem vindo à baila, tinha um cachecol com um emblema igual ao estampado no peito e uma divisa a todo o comprimento que condizia com o lema do clube, ao qual só a vitória agradava. Era de lã, a condizer com a camisola que era grossa, que, por seu lado, condizia com o frio na rua, que era de rachar.

Para tapar a careca, fora à gaveta buscar um gorro que enfiou na cabeça até às orelhas. Eram espetadas, mas não foi o tamanho delas que o susteve. Fez-lhe uma dobra para, quando saísse, ver onde punha os pés, não fosse o filho ter deixado os brinquedos espalhados pela casa e poder tropeçar. Aparentemente, as calças destoavam, pois eram escuras e davam ao conjunto sobriedade, mas eram da cor do equipamento alternativo e, em todo o caso, ele não deixava de vesti-las achando que davam sorte ou

Carregava em todo o corpo as cores da coletividade, que não podia ser de interesse público, porque vê-la ganhar só interessava aos seus sócios e adeptos, nem era de utilidade pública porque dela só tiravam proveito os dirigentes mais antigos e alguns jogadores, visto serem quem usufruía dos ordenados mais altos.

Saiu de casa deixando para trás mulher e filho, este de tão tenra idade que deve ter-se admirado com a força do pai a agitar o pau de uma bandeira que dava pela porta. Desfraldá-la-ia no estádio e agitá-la-ia à passagem dos jogadores, quando entrassem no relvado a par da equipa da equipa de arbitragem, correndo ligeiramente como no dia em que acompanhado pelo filho de colo e sob um sol escaldante, assistiu a um treino, de onde vieram com uma bola autografada por todos os jogadores, exceto os que resolveram faltar, seguindo a orientação do mesmo preparador físico, mas já sob o olhar atento de um novo treinador.

O maior sonho dele como adepto era vencer a chamada Liga dos Campeões, em que participavam os clubes de maior prestígio do velho continente. Seria um feito inédito no longuíssimo historial do clube e daqueles dirigentes, mas não no de alguns jogadores, nomeadamente daqueles mais velhos que era como se já devessem anos à cova e, em final de carreira, apresentavam um curriculum com maior número de vitórias do que de derrotas.

Detestaria cruzar-se em direção ao estádio, com uma falange de apoio à equipa adversária e ouvi-los entoar cânticos de apoio semelhantes aos seus. Normalmente, os grupos maiores faziam-se escoltar por um corpo da Polícia especialmente treinado para impedi-los de se desviarem da rota e colidirem com quem lhes aparecia ao caminho.

Se dúvidas o Jonas tivesse acerca de quem venceria o encontro, elas ficaram dissipadas na véspera quando assistiu à conferência de antevisão à partida e viu como o seu treinador, muito mais lesto a responder às perguntas dos jornalistas, levou vantagem sobre o da equipa adversária. Tivera igual desfecho, na opinião do painel de comentadores que assistiu ao debate, o confronto entre os presidentes que ocorreu a meio da semana, pelo que, para ter assegurada a vitória, não precisaria de ver confirmada a notícia dessa manhã, que dava conta de que a equipa adversária jogaria desfalcada do seu principal goleador que, ao contrário do que era costume, atravessava um bom período de forma e, contrariamente ao habitual, não era nem alto nem forte, nem bom no jogo aéreo ou a jogar de costas para a baliza e nem sequer tinha o passaporte estrangeiro.

Na aproximação ao estádio, observou uma coluna de veículos que se deslocavam vagarosamente, como se andassem à procura de lugar para estacionar, entre os quais não passava despercebido um automóvel de cor alegre parecido com o seu, guiado por uma mulher fisicamente parecida com a sua, que guiava de maneira parecida com a dela, agarrando no volante com as duas mãos, fazendo força para ele não se desenroscar e cair-lhe aos pés enquanto pisava no acelerador e na embraiagem ao mesmo tempo, espalhando um fumo negro e fazendo um enormíssimo alarido à sua passagem.

Jonas apreciava sobremaneira o colorido daquelas tardes em que saía de casa sem ser para regressar do trabalho com ar macambúzio, como se fosse unicamente por auferir um salário pequeno que não podia acompanhar o seu time para todo o lado, em Portugal e no estrangeiro.

Encantava-o, como o canto de uma sereia nos ouvido de um marinheiro, o som do entusiástico locutor a anunciar nas colunas do estádio, a constituição inicial das equipas. Não exatamente pela ordem por que lera os nomes, os jogadores entravam em campo pisando o relvado benzendo-se para evitar qualquer passo mal dado e faziam exercícios de aquecimento com triangulações e trocas de posição no campo, que dava a ideia de serem bailarinos executando uma coreografia num bailado a que nenhum dos presentes na bancada pagara bilhete para assistir.

Nessa altura, ouvia-se um clamor nas bancadas, como se os cânticos e as bandeiras desfraldadas saudassem, não a entrada das equipas, mas a dos adeptos que entravam à última hora para acabar de encher as bancadas com uma alegria contagiante, pessoas de muitos credos e raças, mas só de duas convicções clubísticas.

No meio delas, havia quem discordasse do treinador por colocar de início este ou aquele jogador, porém, os maiores críticos iam mais longe e atreviam-se a discordar do próprio presidente do clube por ter escolhido aquele treinador e não outro que consideravam mais capaz. Contudo, quando começava o duelo dentro das quatro linhas, os problemas eram esquecidos e relevavam-se os ressentimentos, à espera de ver quem é que no final teria razões para festejar. Só o árbitro da partida é que, independentemente do resultado, no final tinha todos contra si, alvo do juízo desconfortável de uns por não ser considerado imparcial para os dois lados e da injúria, por parte de outros, por tê-lo sido mas não a seu favor.

Jonas sentou-se numa cadeira almofadada, no enfiamento da linha divisória do meio-campo, de onde podia assistir a todas as jogadas como se tomasse parte do jogo, embora, nesse caso, ele tivesse preferido ocupar um lugar do qual, esticando o braço ou a perna, pudesse desviar a trajetória das bolas que fossem entrar na sua baliza.

Desconheço o resultado final da partida.

No dia seguinte encontrei o Jonas a tomar café com ar maldisposto, mas não foi por causa disso que nem me atrevi a perguntar-lho e a explicação é simples: não gosto de futebol e, no noticiário da televisão, quando iam começar a falar de desporto, apressei-me a mudar de canal!

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