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Contrarrelógio

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Fui a uma sala de cinema na quinta-feira à estreia do recente episódio da saga Star Wars, que em Português deve querer dizer que se é para no futuro as máquinas levarem de vencida o homem, melhor será retroceder ao tempo em que habitávamos nas cavernas e ainda nos surpreendiam os primeiros sons da fala.

Fui com a minha namorada, catorze anos mais nova do que eu, mas de maturidade à altura de perceber que podia trocá-la por outra ainda mais nova.

Escolhemos para ir, uma sala numa galeria comercial no centro de Lisboa que distava menos de uma centena de metros da Piza Hut onde travámos conhecimento na festa de aniversário do irmão mais novo dela que andava na turma do meu filho mais velho nascido de uma relação inconsequente que acabara há anos.

Como fui o primeiro a chegar e estava impaciente, resolvi entrar e esperar na zona das bilheteiras. Eram duas da tarde e há mais de quarenta minutos que estava plantado, de pé como se fosse para fundamentar a esperança de que ela estaria prestes a chegar visto que estávamos a menos de um quarto de hora do filme começar, no lugar de uma fita que estreara há uma semana mas cujo fracasso junto da crítica e do público ditara o afastamento precoce.

Era o dia semanal de maior afluência do público. Quinta-feira era o dia semanal em que passavam também as estreias mas em que se saía da sala com a leve impressão de que já se tinha assistido a todas as cenas em qualquer lado.

Tirando terem sido realizados por ingleses ou americanos, os filmes feitos hoje em dia mal se diferenciavam. Os argumentos tendiam a ser todos iguais, os locais das filmagens, os efeitos especiais, os realizadores a quem pouco faltava para se achar que tinham nascido todos no mesmo dia e à mesma hora ou eram todos filhos do mesmo pai e da mesma mãe, e até os atores de olhar mortiço em face das atrizes com quem contracenavam cada vez mais se assemelharem às mulheres que tinham lá em casa, a quem as outras servem de exemplo para se vestirem, pentearem e maquilharem.

Volvidos cinco minutos, pus-me na fila para adquirir os bilhetes. Olhei para trás e vi que esta aumentava de tamanho numa proporção superior à da passagem das horas, dos minutos e dos segundos. À minha frente ela não andava e quando o fazia era lentamente. Ouvi queixas das pessoas à minha frente que não estavam dispostas a entrar com o filme a dar, só para terem direito a um pequeno desconto no preço do bilhete.

Por fim, chegou a minha vez de ser atendido e lá comprei os ingressos que apertei na mão sabendo que ficariam desfeitos se o suor que eu sentia escorrer tivesse um efeito corrosivo. Na outra, segurava ainda um bouquet de violetas azuis com que talvez não fosse capaz de surpreendê-la porque ainda trazia vivo na memória o de rosas que levou para casa no nosso primeiro encontro, levando-a a pensar que era diferente para melhor de todos os namorados que já tinha tido.

Um ainda maior com no mínimo duas dúzias de rosas vermelhas e orquídeas de todas as cores, ansiava dar, na ocasião em que a conhecesse, à mulher da minha vida que não era aquela, tão-somente a que escolhera, para me divertir, naquela tarde de outono que eu desejava prolongar, contando que nos ríssemos à brava, sobretudo à saída quando fossemos tomados pela boa disposição, contagiados pelo sol que transmitia a falsa ideia de que dali a um par de dias era o verão a estação do ano que estava prestes a começar.

Embora fosse a única que eu aguardava, com o passar do tempo a contrarrelógio, parecia ser a única de todas as raparigas que não viria, de tantas que já tinha visto passar diante dos meus olhos. Lembrei-me do dia em que sem ter um motivo óbvio que não fosse comer um gelado, aceitou o meu convite para sair pela primeira vez. Quis agradar-lhe e levei-lhe as flores que me custaram um dinheirão. De resto, era de todas as minhas amigas, a única a quem podia tê-lo feito. À Rosário não, porque gostava do Jorge e não tinha olhos para nenhum outro rapaz. À Sónia também não porque desde que namorava com o Pedro era fiel. À Sílvia também não porque até já morava com o Calota e estavam a pensar em casar. E à Paula aspas, aspas, porque o Pajó andava de olho nela e eu jamais trairia um amigo de infância. Além destas, apenas conhecia a Teresa, mas esta namoriscava, às escondidas dos outros, com o Pedro que andava com a Sónia e nem desconfiava de que, nas suas costas, as duas tinham combinado andar a enganá-lo saindo alternadamente com ele até ao dia em fossem descobertas.

Os pais dela eram pessoas humildes que desde pequena a educaram no respeito pelos outros, incutindo-lhe princípios da doutrina cristã. Entendi dá-los a conhecer na esperança de que sabendo como eles pensavam, talvez descortinassem por que razão aceitou o meu convite estando disponíveis rapazes mais bonitos interessados nela.

Seja como for, pelas catorze e sete minutos, decidi sentar-me para descansar no degrau da escada que tinha de se subir para ir dar a um hall atapetado e de paredes forradas com cartazes dos filmes em exibição, ao fundo do qual num corredor aberto para dar acesso às salas, havia uma funcionária de farda a recolher os ingressos das pessoas que tinham pagado para entrar. Eram sete e estavam assinaladas em cima com números de formato gigante que mesmo tendo menos de metade do tamanho, facilmente seriam vistos se os colassem na tela, por um espetador míope e sem óculos sentado na última fila. No seu interior é que devia estar a decorrer a ação, porque olhei e à espera havia muita gente e querer entrar.

Um minuto volvido, suspirei enquanto apalpava os dois bilhetes juntinhos que tinha guardado no bolso interior esquerdo do casaco, do lado do coração e vi numa das cenas expostas nos cartazes o fervor do beijo na boca dado por um ator secundário à atriz principal daquela película. Concluí que devia tê-lo roubado e que essa troca de fluidos não devia representar a cena final, porque mais adiante era ele detido por um homem mais maduro com aspeto de polícia, que devia ser o protagonista, não apenas da detenção mas de todo o filme, de quem ela gostava de verdade e a quem iria ficar presa para sempre mal as letrinhas do final se acendessem e, com elas, a da sala às escuras onde as pessoas assistiam emocionadas julgando que ainda haveriam de casar na vida real.

Lancei um olhar piedoso sobre as violetas que ameaçavam mudar de cor se a espera se prolongasse e não fossem borrifadas e postas rapidamente numa jarra com água num ambiente mais fresco do que o oferecido pelos aparelhos de ar condicionado. O meu ânimo era verde, da cor da esperança de vê-la chegar no meio de uma multidão que se aproximava. Em sentido contrário, um casal de namorados parou para ela tirar da bolsa uma agenda que ela deve ter consultado para confirmar que estávamos no ano de dois mil e quinze, aos vinte e um dias do mês de dezembro. Fê-lo com a destreza de um mágico que retira um coelho da cartola ante o público extasiado, e com a rapidez suficiente para ninguém perceber a ilusão de que o truque se reveste. Recomeçaram a marcha e ainda esperei vê-la parar para vir na minha direção declarar-me o seu amor, mas nem dez segundos eram volvidos e já ela se ria para ele havendo-se distanciado o suficiente para, no caso de ter olhado para trás arrependida, perceber sequer se eu era mais bonito ou mais feio do que aquele que caminhava ao seu lado.

A roçar as duas e onze, gerou-se uma ligeira altercação, motivada pelo encerramento das bilheteiras pois a sala estava de lotação esgotada e os bilhetes agora só disponíveis no mercado negro valiam uma fortuna. Às duas e treze, os ânimos haviam acalmado e às duas e catorze ela enfim chegou, pedindo encarecidamente com um sorriso disfarçado que me fez denunciar o meu. Vestia uma saia pelo joelho e uma blusa que combinava melhor com ela do que qualquer outra que trouxesse, a realçar o aspeto do peito que agora sim parecia ainda maior e apetecível do que o da Paula de que falei anteriormente.

Entreguei-lhe as flores e ela devolveu-me um beijo sonoro que me fez corar.

Entrámos à pressa, porque o filme estava prestes a iniciar-se, e outras pessoas imitaram-nos preocupando-se em ocupar os seus lugares. E tão apressadas estavam que certamente não reparavam, tão atentamente como eu, nas cenas que se passavam nos corredores daquele centro comercial igual a qualquer outro. Se o fizessem, aprenderiam que um espetáculo é tudo o que nos rodeia e não somente aquilo a que se preparavam para assistir no interior da sala de cinema.

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