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Criança: Um desafio

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Ser criança nos dias de hoje é um desafio. Na passada segunda-feira, dia 1 de Junho, foi o dia mundial da criança, só para ficarmos enquadrados historicamente no dia, este surgiu a 20 de Novembro de 1959 com a aprovação da Declaração dos Direitos da Criança, porém esta data varia de país para país. Na verdade podia continuar esta crónica com a explicação de cada um desses direitos, mas basta o leitor fazer uma pesquisa e facilmente os encontra nos motores de busca. Não venho falar desses direitos, até porque em pleno século XXI muitos ainda são desrespeitados. Muitas foram as noticias que li sobre o dia e todas me levaram a um pensamento: ” Ser criança nos dias de hoje é um desafio”.

Vou enumerar alguns motivos que me levaram a pensar que ser criança nos dias de hoje é um desafio:

1. Lembro-me de ser criança e de brincar, o que mais me lembro é de brincar, havia tempo para brincar. Ia-mos à escola mas não ficávamos horas na escola. Estávamos na escola mas entre o aprender, existia uma coisa que se chamava recreio e ficávamos bastante tempo a brincar, nem por isso sou menos inteligente por ter passado menos horas dentro de uma sala de aula a aprender. Este é o primeiro desafio das crianças de hoje, o horário em que estão na escola é muito superior, passam muito mais tempo na sala de aula, com muito mais diversidade de matéria para aprender, mas será que conseguem assimilar tudo? Serão adultos mais inteligentes? Passam ao contrario muito menos horas a brincar, por vezes o stress que acumulam é tanto que quando vêm para o recreio nem sabem brincar, correm e correm, gritam e gritam e aqueles 10 minutos passam a correr, mal tiveram tempo para acalmar e voltam a entrar para a sala de aula para aprender mais um pouco.

2. Lembro-me de sair da escola, sem exagero duas horas mais cedo do que as crianças saem hoje, ir a correr para casa com a mochila às costas, lanchar o lanche que a minha avó me tinha preparado e brincar. Muito raramente trazíamos os tão falados TPC’s. Mas quando trazíamos tínhamos tempo para os fazer, porque não só saímos mais cedo como também era uma vez por acaso e assim tínhamos mais vontade de os fazer. Ser criança nos dias de hoje é um desafio e este é o desafio número 2, pois para além do excesso de horas, as crianças ainda carregam todos os dias os TPC’s em excesso para casa, muitas vezes a matéria não foi bem assimilada e das três uma ou os pais sabem e ajudam, ou os pais pagam a quem sabe, ou não sabem não podem pagar e as crianças levam por fazer, levando ainda falta de TPC porque não conseguiram desempenhar a tarefa. Para além de já terem lanchado na escola e não saborearem o lanche da avó, ainda lhes resta muito pouco tempo entre os TPC’s e o banho para brincar.

3. Lembro-me de ser criança e ter tempo de brincar, brincava na rua, andava de bicicleta, jogava à bola, brincava com berlindes, com piões, com bonecas. Brincar era a minha actividade preferida. Este é o terceiro desafio, hoje há pouco tempo para brincar, pois não basta a escola ser até horas tardias como ainda existem uma panóplia de actividades disponíveis que a criança pode frequentar. Lembro-me de ter essas actividades também, lembro-me sobretudo da natação e da equitação mas os meus pais tentavam não sobrecarregar o meu dia com essas actividades e eram sempre ou ao sábado ou ao domingo. A questão hoje é que quase nos vimos obrigados a que frequentem actividades extra-curriculares mas devemos ser selectivos e colocar uma boa dose de peso, conta e medida, para não tornarmos essas actividades desorganizadas e stressantes para a criança. Sei de crianças que saem da escola, vão para a natação, saem da natação vão para o judo, saem do judo vão ao futebol e entretanto onde ficou o espaço para brincar livremente?

4. Lembro-me de ser criança e depois de brincar, ter tempo para tomar banho, secar o cabelo, fazer um penteado e jantar. Ter tempo para sentar à mesa e jantar. Este é o quarto desafio das crianças de hoje, depois do dia agitado que têm na escola, das actividades, chegam a casa têm de tomar banho à pressa, quase não secam o cabelo, vestem o pijama, vão para a mesa jantar entretidos com um telemóvel, um programa de televisão ou qualquer outra tecnologia, pois assim demoram muito menos tempo a comer e logo que terminam têm de ir descansar pois já é tarde e no dia seguinte têm de começar bem cedo com actividades.

Podia continuar a enumerar desafios das crianças de hoje, pois serão muitos mais com toda a certeza, mas querem saber o que me assusta?

Lembro-me de ser criança e os meus maiores medos serem: o medo do escuro, dos bichos, do papão, do velho da saca. Hoje questionei-me quais serão os maiores medos das crianças? Procurei e encontrei que um dos maiores medos é o receio de falhar, os outros são o divórcio, a violência doméstica, o bullying e o medo da violência com armas. Sou mãe e assustei-me, cheguei a casa e perguntei à minha filha mais velha: “Qual é o teu maior medo?”, e ela respondeu-me, “Tenho medo de mortos vivos, do escuro, de aranhas”,  para além de me ter rido dos mortos vivos, respirei fundo pelo menos a minha filha ainda tem medos normais. Depois perguntei: “Tens medo de falhar na escola ou em alguma outra coisa?”, prontamente ela respondeu-me. “Não, se falhar tento de novo”, respirei bem fundo novamente, depois fez-se silêncio entre nós e ela disse-me: “Sabes mãe o que eu mais gosto é de ir à praia com a mana, contigo e com o pai. Mãe, estás a ver esta mochila?Ainda me lembro de quando a fomos comprar para eu ir para o infantário” , aqui sorri, percebi que estou a esforçar-me para ser uma mãe presente mas para além disso a minha filha no meio da confusão diária da escola e das actividades que lhes são impostas, está a conseguir ter tempo para brincar e para viver no mundo da fantasia em que existem seres estranhos.

Para terminar, confesso que o que mais me lembro de ouvir a minha mãe dizer era: “Brinca filha, não tenhas pressa de crescer”. Sim eu brinquei com bonecas até começar a namorar, depois claro parecia mal brincar e namorar, mandei a minha mãe arrumá-las no sótão mas até bem pouco tempo as minhas filhas não podiam brincar com elas, porque eram minhas e a minha mãe sabe o quanto eu ficava chateada sempre que ela decidia dar-lhes só uma para elas estragarem. Não foi por ter passado menos horas em actividades ou a estudar e mais horas a brincar que sou menos responsável ou menos inteligente.

Quero que as minhas filhas se lembrem sempre de como é bom brincar e fico chateada quando me dizem que a minha filha com onze anos já não é menina de bonecas. É menina de bonecas sim até ela decidir que já não quer brincar com elas.

Brinquem muito e até quarta-feira!

 

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